Análise à situação política nos Açores

palácio de santana

“Para o povo ir votar faltam estadistas”

Santos Narciso, jornalista 

santos narcisoComo analisa a proposta de Vasco Cordeiro no sentido de beneficiar os eleitores que tenham um bom histórico de participação eleitoral? É uma boa proposta para combater a abstenção?

Em minha opinião, Vasco Cordeiro fez bem em ter levado a questão do combate à abstenção ao discurso do Dia dos Açores e mal não vem ao mundo com a proposta que fez, que considero utópica e impossível de concretizar no actual quadro constitucional e muito menos especificamente para os Açores que não têm qualquer voz nestas questões eleitorais. 

Basta ver o que prometeu Vasco Cordeiro em 2015, nas Flores, sobre a possibilidade de “candidaturas de cidadania”, supra-partidárias, ao parlamento regional e de que nunca mais se falou. 

Do mesmo modo, no rol dos esquecidos, ou dos mal-queridos, está a questão dos votos dos emigrantes para as Regionais. Portanto, em termos de utopias, estamos conversados. 

No caso concreto fica a discussão, até a nível nacional, despoletada pelo discurso do Presidente do Governo Regional dos Açores, sobre se o caminho para combater a abstenção passa por premiar quem vota ou penalizar quem não vota. 

Venha o diabo e escolha, digo eu, porque o caminho para combater a abstenção deve ser, primeiro fiabilizar os números, já que os cadernos eleitorais com os automatismos todos, não são de fiar, e paralelamente devem muitos políticos mudar de vida para credibilizar a política que anda mergulhada numa onda avassaladora de escândalos de corrupção e compadrio. 

Para o povo ir votar faltam estadistas…

 

O Presidente do Governo propôs, igualmente, um Conselho de Concertação entre os Governos das Regiões Autónomas e o da República. É o melhor caminho para ajudar a resolver os casos pendentes entre os governos?

Sinceramente não acredito no poder de mais um Conselho de Concertação e muito menos entre as Regiões Autónomas e Lisboa. 

Basta olhar para a história, desde 1895 e anos anteriores, para ver que a Autonomia dos Açores não vai com diálogo. Só conseguimos qualquer coisa, agora e desde sempre, com muita luta e poder de afirmação. 

Num Conselho de Concertação é preciso que as duas partes entrem em concerto e tenham os mesmos objectivos e o que se sabe é que o centralismo de Lisboa não tem conserto, nem relativamente à insularidade, como não tem em relação à interioridade. E temos o exemplo claro da propaganda política que se faz à volta da vantagem de os Governos Regionais serem da mesma cor dos da República. Como temos visto, quando as cores combinam, os nossos problemas são adiados sob capa de diálogo, de entendimentos e de dilações no tempo. 

Quando são de cores contrárias a desculpa passa logo a ser que há vinganças e incompreensões políticas. 

Portanto, Autonomia é um processo de luta contínua contra uma geração de políticos que ainda não se descomplexou da perda do império e ainda não se capacitou que são as Regiões Autónomas que dão a única dimensão e visibilidade internacional a Portugal. 

E por cá, precisamos muito de arrumar a casa, para não continuar a crescer a ideia de que somos um peso para o País. Em casos concretos da negligência nacional naquilo que lhe compete, isto não vai com Conselhos de Concertação que não constroem cadeias, nem nos garantem mais meios de segurança, nem nos trarão os radares meteorológicos e tudo o mais que, sendo da República é símbolo de estar descuidado. 

Nem um Conselho de Concertação fará com que o Tribunal Constitucional seja menos restritivo em matéria de Autonomia!

 

Como analisa a actual situação política? A situação nos transportes aéreos e marítimos de passageiros é uma pedra no sapato deste governo? E o papel da oposição?

A situação política nos Açores está complicada, essencialmente por dois motivos. Nota-se um grande cansaço no Governo Regional fruto de mais de duas décadas de poder, sem alternância e sensivelmente com os mesmos protagonistas, precisamente aquilo que o Partido Socialista condenava no tempo em que era Oposição. 

Ciclos muito longos de governo não são bons para a democracia. 

Por outro lado, a Oposição continua com muitas dificuldades de se encontrar e unir, porque há ainda um sentimento de orfandade política e ao mesmo tempo há muito carreirismo político que faz com que ninguém queira deixar os lugares que ocupa, tornando difícil qualquer renovação. 

Estamos em democracia, mas o sistema tomou conta de quase tudo e criou dependências que tornam difícil a necessária alternância. 

No caso dos transportes aéreos e marítimos que provam a desastrada gestão do sector desde há anos, a causa principal está na politização das empresas que em vez de terem gestores têm políticos-gestores, para fazerem a vontade aos políticos-nomeadores. 

A Oposição, por seu lado, em vez de agarrar o cerne da questão, limita-se a aproveitar os desaires pontuais e como não há capacidade de uma reacção a sério os problemas vão-se arrastando até haver quem pague. 

Mas não vamos aguentar muito tempo este descalabro, pois enquanto se desvia dinheiro para travar esta bola de neve, vai-se desorçamentando o essencial que é a Saúde e a Educação que andam pelas ruas da amargura.

 

Mais Lidas nos últimos 3 dias