“A minha maior preocupação é garantir que cada cliente tenha uma tatuagem única”

Pedro Vieira - Banana Art FactorySão cada vez mais os açorianos que se interessam por ter uma tatuagem, desde o “mais novo ao mais velho” e “desde o médico, ao mecânico, do advogado ao cozinheiro”. Quem o diz é o artista Pedro Vieira, proprietário da Banana Art Factory, um estúdio de tatuagens e piercings localizado em Ponta Delgada. Abriu em 2005 pelas mãos do alemão Thomas Schumacher, mas três anos depois Pedro adquiria o negócio que mantém até aos dias de hoje. Ao Diário dos Açores fala da sua paixão pelo desenho e de como sente que os açorianos estão menos preconceituosos em relação às tatuagens. O responsável conta ainda que o turismo tem contribuído para o crescimento da actividade nos últimos três anos. 

 

Diário dos Açores – Como surgiu a Banana Art Factory em Ponta Delgada?

Pedro Vieira – A loja surgiu em 2005 e foi criada pelo Thomas Schumacher, um alemão que vivia cá nos Açores. Ele já tatuava há muito tempo e reparou que existia uma lacuna nesta área em Ponta Delgada. Já havia outra loja de tatuagens, mas não tinha a mesma qualidade ao nível dos trabalhos que o Thomas conseguia fazer. Decidiu abrir então a loja e, mais tarde, vim trabalhar para ele, onde o meu trabalho era fazer os desenhos. Mais tarde ele quis voltar para Alemanha e foi nesta altura que lhe comprei o negócio. Dinamizámos o espaço e criámos uma identidade e uma imagem para a Banana Art Factory. 

 

E porquê o nome Banana? Algum significado especial por detrás deste nome?

PV – O nome foi ideia do Thomas. Ele explicou-me que ele não concordava muito com o facto de o ananás ser considerado “o fruto dos Açores”. Pois é um fruto mais difícil de produzir, precisa de uma estufa, etc… Pelo contrário, ele via bananeiras plantadas em todo o lado e então, com a sua mente artística e também controversa, achou que a banana devia ter mais importância. Daí o nome Banana para a loja. Quando lhe comprei o negócio, eu já adorava o nome. Acho que é bastante apelativo e diferente dos nomes de outras lojas de tatuagens, pelo que optamos por mantê-lo.

 

Em que ano tomou as rédeas da loja?

PV – Vim para cá trabalhar em 2006 e comprei a loja em 2008.

 

E como surge na sua vida o gosto pelo desenho?

PV – Desde pequeno que gosto de desenhar. Lembro-me perfeitamente que o primeiro carolo que levei da minha mãe foi por ter saído com a tinta fora de uma nuvem quando fazia um desenho. Nunca me esqueci! Não foi por ter errado na matemática ou noutra matéria, foi por causa de uma nuvem mal pintada! (risos) A minha mãe também sempre adorou desenhar e incentivou-me muito nesta área. Isto para dizer que o desenho faz parte da minha vida desde criança. Desenhar foi sempre muito natural para mim e quando cheguei ao 10º ano de escolaridade segui a área de Artes. 

 

Do desenho no papel, como passou para o desenho na pele? Como surgem as tatuagens na sua vida?

PV – Eu sou o filho mais novo de sete irmãos e sempre fui o mais diferente de todos. O meu pai detestava tatuagens, mas era algo que me atraía. Ouvia muito ‘heavy metal’ e via os músicos sempre com grandes tatuagens. Na altura, pensava que se um dia conseguisse fazer algo do género seria altamente. Sempre adorei tatuagens, até que um dia fui fazer a minha primeira. A verdade é que saí de lá com a sensação que conseguia fazer muito melhor do que aquilo! (risos) Mais tarde, conheci a loja do Thomas e perguntei-lhe se precisava de alguém para desenhar tatuagens. E foi assim que comecei. 

E como foi fazer a sua primeira tatuagem?

PV – Estava a desenhar para o Thomas há cerca de um ano e ele próprio disse-me que estava na hora de eu pegar pela primeira vez numa máquina de tatuar. Fiz a minha primeira tatuagem em mim e desde então continuei sempre. 

 

Sente que o seu trabalho evoluiu muito?

PV – Sim, com muito esforço. Uma coisa é fazer uma tatuagem em mim ou em amigos e outra coisa é tatuar um cliente desconhecido que aceita ser tatuado por um aprendiz. Senti-me muito nervoso, pois desde o dia um que quero fazer coisas bem feitas. Não fazer por fazer. O que tatuava há 10 anos, obviamente, não é o que tatuo hoje, sinto que evolui muito e tem sido um progresso interessante. 

 

Foi investindo em algum tipo de formação ao longo do tempo?

PV – Em primeiro lugar, aprendi muito com o Thomas sobre o básico: desmontar e montar uma máquina, aprender sobre a parte da higiene e limpeza… Ele, como alemão, levava muito a sério todos estes aspectos e trabalhar com ele permitiu-me ter uma grande bagagem no início da minha vida profissional. Além disso, investi muito em viajar para tatuar noutras lojas e conhecer outros artistas. Actualmente, vou a Inglaterra de quatro em quatro meses, onde sou um dos artistas residentes num estúdio. Tenho já a minha carteira de clientes ingleses. Também procuro ir a convenções que juntam tatuadores do mundo inteiro. Já fui a convenções em Londres, Malta e Itália. Em Portugal continental também há duas grandes convenções que ainda não tive oportunidade de ir, mas tenciono ir. São convenções que reúnem não sou tatuadores, mas também curiosos que gostam de conhecer o nosso trabalho.

 

Acha que a mentalidade dos açorianos está mais aberta no que toca às tatuagens? Ou uma pessoa que tenha tatuagens pode ser ainda discriminada?

PV – A mente da população abriu muito mais, sem dúvida. Lembro-me, no início, que havia pessoas que atravessavam a rua para não passarem em frente à loja… Mas hoje já não é assim. As pessoas pensavam que só os “bandidos” tinham tatuagens, mas esta não era a realidade. Hoje em dia, felizmente as pessoas já não pensam assim. Actualmente, muito raramente sinto qualquer tipo de preconceito. O facto de os açorianos andarem a viajar mais também ajuda. Conhecem culturas diferentes…

 

E aceitam melhor a diferença?

PV – Sim. Aliás, penso até que já nem se trata de ser diferente, porque qualquer pessoa nos dias de hoje tem ou pode ter uma tatuagem. Até a minha mãe já me diz que era capaz de fazer uma tatuagem! (risos) Há dez anos, era impensável ela dizer isso. 

 

Que tipo de tatuagens os cliente mais procuram?

PV – O negócio sobrevive sobretudo das tatuagens mais pequenas, minimalistas, mas já aparecem muitos interessados em trabalhos maiores, artisticamente mais elaborados. E são estes trabalhos que nos dão um gozo profissional muito maior, sentimo-nos mais completos. Tento dedicar-me a um ou dois estilos quando tenho liberdade artística para isso e, sempre que trabalho nestes estilos, sinto-me 100% feliz. Aliás, não estou a trabalhar, estou a divertir-me. 

 

Há pouco falou de cuidados com a higiene… Que cuidados são estes?

PV – A higiene e a segurança são tão importantes como a própria tatuagem. Isso e o tratamento que o cliente tem que fazer pós-tatuagem. Acima de tudo, a tatuagem é uma ferida e tem que se manter a ferida o mais limpa possível. Sempre lavada e hidratada. Durante a realização da tatuagem, tudo o que é utilizado é descartável e asseguramos assim a segurança para o cliente. Os clientes conhecem a Banana e procuram-nos porque podem confiar em nós. Temos sempre tudo limpo, desde o sofá onde se deitam, até à máquina e à pele. 

 

Desde 2008 até ao dia de hoje, que balanço faz da actividade?

PV – O balanço é muito positivo. Mas nos últimos três anos cresceu muito. O turismo ajudou neste sentido. Há mais pessoas a vir para a ilha e a circular pela cidade. 

 

E há turistas a fazerem tatuagens na Banana?

PV – Sim e há turistas que nos procuram por e-mail já com alguma antecedência. Por isso a actividade cresceu muito. O volume de negócios que tinha em 2008 não tem nada a ver com o que tenho hoje. 

 

Banana Art FactoryDe modo geral, é possível traçar um perfil dos vossos clientes?

PV – Não. Já houve uma certa tendência de um tipo de pessoa que vinha cá fazer tatuagem, mas hoje já não é assim. Actualmente tatuamos toda a gente: do homem à mulher, do mais novo ao mais velho, de vários estratos sociais, desde o médico, ao mecânico, do advogado ao cozinheiro. Toda a gente nos procura. 

 

Houve alguma pessoa que tatuou que o marcou de alguma forma?

PV – Recentemente, veio aqui um senhor que sofre de esclerose múltipla. Veio acompanhado de dois médicos estrangeiros, de medicina alternativa, e pediu para tatuar uns pontos pelo corpo todo, dos pés à cabeça. Isto porquê? Porque ele está a fazer um tratamento com abelhas e os pontos que tatuei vão servir para se saber onde será feita a picada da abelha. Isto aconteceu há duas ou três semanas e marcou-me. Senti-me realmente útil ao contribuir para esta causa. É muito interessante saber que a tatuagem pode se aliar de alguma forma a um contexto de saúde. 

 

Qual o desafio que se encontra na gestão de uma loja de tatuagens?

PV – É difícil responder, até porque a minha preocupação é a parte criativa e artística. Tenho dois colaboradores, o Jorge e a Catarina, a trabalhar comigo e são eles que tratam da parte da gestão da loja. Isso dá me liberdade na parte criativa. A minha maior preocupação é garantir que cada cliente tenha uma tatuagem única. A maior exigência é realmente esta e fazer com que o cliente saia daqui feliz. Além destes dois colaboradores, temos também artistas convidados que vêm cá tatuar de tempos a tempos, da mesma forma que eu vou a Inglaterra. 

 

E de onde vêm estes artistas?

PV – De vários países. Trabalhamos sempre com os mesmos artistas convidados e temos um australiano, uma inglesa, dois brasileiros e um italiano. Todos eles têm estilos diferentes e já começam a ter cá a sua carteira de clientes, que os procuram por se identificarem com o estilo. E desta forma conseguimos também dinamizar o negócio.

 

Quando fala em estilos, que tipo de estilos são estes?

PV – Por exemplo, o Mauro, italiano, faz hiperrealismo, faz retratos incríveis. O Carlos, brasileiro, faz muito trabalho comercial, com linhas muito finas e delicadas. A Helen, inglesa, é muito boa com tatuagens mais femininas, com flores e cenas do género. O Rodrigo dedica-se, por sua vez, a um estilo mais tradicional… E eu faço de tudo um pouco, mas dedico-me mais a trabalhos com cores. Juntando todos estes estilos aqui na Banana, contribuo para que as pessoas tentem procurar o seu próprio estilo de tatuagem, sem se cingirem ao que há nas revistas e na internet. 

 

E que expectativas tem para o futuro da Banana Art Factory?

PV – O meu modo de vida é viver um dia de cada vez. Enquanto pudermos servir bem os açorianos e deixá-los felizes, ficamos felizes.

 

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