São Miguel acolhe encontro com mais de 50 amantes do desenho em diário gráfico de vários países

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Vêm de Portugal Continental, de Espanha, França e Brasil, mas também da vizinha Terceira, e vão estar reunidos em São Miguel para participar no Simpósio Vadio, um encontro de ‘urban sketchers’ que se assume como sendo de “baixo custo”. A ideia partiu do açoriano Paulo Brilhante, que, em conjunto com dois amigos continentais, decidiu organizar o encontro. Em entrevista ao Diário dos Açores, o responsável fala sobre os objectivos da iniciativa e da sua própria experiência como ‘urban sketcher’. Paulo Brilhante aborda ainda a necessidade de fazer chegar a actividade a mais localidades, casas de cultura, museus ou escolas espalhadas pela ilha, como forma de “cativar jovens” e “reforçar a importância do desenho no desenvolvimento cognitivo”.

 

É um dos organizadores do Simpósio Vadio que será realizado de 24 a 28 de Julho na ilha de São Miguel. Em que consiste esta iniciativa e com que objectivos se realiza?

Paulo Brilhante - Sim, sou um dos organizadores, junto com dois amigos do continente, o Armando Baldaia e o André Duarte Batista, amigos esses que, após uma ideia lançada por mim, me encorajaram e incentivaram a fazer este evento. A ajuda deles foi imprescindível, uma vez que embarcar numa aventura sem o apoio “moral” de pessoas como eles seria de todo uma grande loucura. Esta iniciativa reveste-se de interesse cultural no que ao desenho diz respeito, tanto em diários gráficos como noutro suporte qualquer (folhas/blocos A4, A3, etc). O objectivo é a divulgação do desenho, é o convívio, a troca de experiências e aprendizagem à volta do desenho de observação directa “in loco”. Outros objectivos, intrinsecamente ligados a esta iniciativa, passam pela divulgação do nome Açores e São Miguel, das nossas paisagens, da nossa gastronomia, da nossa vertente cultural, da nossa hospitalidade, porque, estes momentos e desenhos vão ser partilhados em todas as redes sociais pelos próprios participantes.

 

E porquê o nome “Vadio”?

PB - O nome Vadio vem especialmente de uma iniciativa similar ocorrida o ano passado na cidade do Porto, aquando da realização do Simpósio Internacional dos Urban Sketchers Internacionais. Como as inscrições para o internacional fecharam em pouco mais de 30 minutos, foi impossível a muita gente amante de desenho fazer a sua inscrição. Mas nem assim desistiram de ir desenhar a cidade do Porto. E esse grupo paralelo que se criou chamamo-lo de Vadio. 

 

Como surgiu a ideia para a realização desta iniciativa?

PB - Este ano, o simpósio Internacional é na cidade de Amsterdão. Cidade muito bonita, mas muito cara em termos de alojamento, em termos de alimentação, em termos da própria deslocação, etc. Para se ter uma pequena ideia, só a inscrição no Simpósio Internacional ronda os 400 euros. Enquanto a inscrição no nosso Simpósio Vadio é completamente gratuita. Deste modo, o dito grupo vadio do ano passado no Porto, do qual eu fiz parte com o Armando e o André, resolveu, a meu pedido, fazer um Simpósio aqui em Ponta Delgada e, com a boa vontade de todos, desde os anfitriões que vão ministrar as oficinas criativas a “pro bono”, ao leilão efectuado com uns rabiscos para angariar fundos para o pagamento do aluguer de dois dias de autocarro, ao apoio do Grupo Anjos, na pessoa do Rui Anjos, foi possível criar este evento de muito baixo custo, mas de elevada qualidade. Enquanto que o ano passado tínhamos um evento em paralelo, este ano o evento em paralelo será na cidade de Amsterdão. Logo tivemos que criar um programa minimamente atractivo para conseguir cativar muitos participantes da Europa e de Portugal continental. Até do Brasil temos uma inscrição.

 

De que forma esta iniciativa se difere de outros eventos do género já cá realizados?

PB - Esta iniciativa difere no essencial pela partilha constante de conhecimento e troca de experiências de desenho em diários gráficos, ou outro suporte como já atrás referido. Pela diversificação da experiência e da elevada qualidade dos anfitriões (formadores) que vão ministrar as diversas “oficinas criativas”. Por ser um evento que vai ser estendido até às Sete Cidades e Furnas; pelo facto de que todos os dias à noite haverá um momento que se chama “drink and draw” para troca de experiências do apreendido durante o dia; por ser a primeira vez que se reúne tantos desenhadores de rua de Portugal Continental, de Espanha, de França, do Brasil, da ilha Terceira e naturalmente da ilha de S. Miguel à volta do desenho. 

 

Que acções estão previstas no âmbito do programa do simpósio? Por que locais irão passar e que actividades serão promovidas?

PB - O simpósio arranca no dia 24 de Julho com a apresentação de Ponta Delgada do seu ponto de vista histórico. Apresentação essa que será feita amavelmente pelo senhor Dr. Carlos Melo Bento, que se disponibilizou desde a primeira hora a colaborar nesta iniciativa. Depois, neste mesmo dia vamos desenhar a panorâmica da cidade observada do Alto da Mãe de Deus, oficina esta proposta pelo arquitecto Filipe Reis Oliveira. No dia 25 teremos uma oficina criativa proposta pelo arquitecto André Duarte Batista, que será desenhar o centro histórico de Ponta Delgada (Portas da cidade e Igreja da Matriz). Neste mesmo dia à tarde, iremos de autocarro até ao mítico miradouro da Vista do Rei, nas Sete Cidades. 

No dia 26, a parte de manhã será completamente livre até às 17 horas, por forma a dar a possibilidade aos participantes forasteiros de conhecerem um pouco, ao seu sabor, a nossa ilha, e depois, pelas 17:30 teremos a oficina criativa no Relvão proposta pela ilustradora Isa Silva, nada mais, nada menos que a vencedora do concurso para execução do logotipo oficial do simpósio Internacional na cidade do Porto e que este ano nos dá o prazer da sua presença aqui em São Miguel. 

No dia 27 será um “full day” nas furnas onde a oficina criativa ficará a cargo, no período da manhã, da professora Alexandra Batista, experiente ‘urban sketcher’ e formada em Belas Artes. Sendo que a tarde será passada no centro da vila das Furnas, onde os participantes poderão visitar a Poça da Beija, o Parque Terra Nostra, as fumarolas, os diversos jardins existentes nesta localidade. E no dia 28 a oficina criativa ficará a cargo da designer Suzana Nobre, autora de peças e acessórios de casa de banho da conhecida marca “Sanindusa”. Isso a par do “dring and draw” todos os dias à noite, em que o Grupo Anjos dá a possibilidade aos participantes de, com a apresentação do crachá do evento, terem 10% de desconto no consumo de bebidas e outros nos bares referenciados no dia.

 

Tendo em conta que pretendem fazer chegar à ilha de São Miguel participantes do continente e até de outros países, vêem este evento como uma forma de promoção dos Açores?

PB - A ideia inicial não é divulgar S. Miguel, mas é natural que estará intimamente ligado essa divulgação ao evento Simpósio Vadio. Devo referir que nós, desenhadores de rua, partilhamos os nossos desenhos nas redes sociais e temos amigos virtuais espalhados por tudo o mundo. Naturalmente que estas partilhas vão dar a volta ao mundo e, assim, a divulgação da ilha de S. Miguel será efectivamente feita. 

 

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Quantos participantes esperam receber? 

PB - Neste momento temos 55 inscritos. Desde Portugal continental, passando pela ilha Terceira e S. Miguel, de Espanha, de França e Brasil. O forte número é Portugal continental, a seguir Espanha, Açores, França e Brasil que, com a minha Amiga Nathalia Sá Cavalcante internacionaliza este evento. 

 

A sua experiência nesta área do desenho é vasta. Já participou em exposições e lançou, inclusive, um livro. Como e quando surge na sua vida este gosto pelo desenho em diário gráfico? 

PB - Nesta questão do desenho e da experiência sou um curioso. Até porque não consigo chamar desenho aos meus trabalhos, são rabiscos. Pois, não faço deste ‘hobbie’ o meu sustento. A característica do meu desenho é um misto dos artistas que aprecio e da compreensão plástica que apreendo desta visualização. Esta simbiose resulta numa expressão e essa expressão é aquilo que produzo para consumo próprio. Posso dizer que desenhar em cadernos surgiu com o tempo livre que tenho nas minhas viagens profissionais pelas diversas ilhas dos Açores. Por outro lado, ter e usar diários gráficos teve a ver com a necessidade de ter um suporte para explicar, por intermédio de desenhos, aspectos e pormenores de execução das obras por onde passava, como também tirar apontamentos gráficos destas visitas e reuniões de obras.

 

Considera desenhar uma paixão na sua vida?

PB - Não sei se estou a ser precipitado ao dizer isso, mas julgo que já foi “paixão”. Agora... agora é amor, é entrega a uma causa, divulgar o desenho em diários gráficos e noutros suportes. 

 

Na sua opinião, o que é preciso ter para se ser um bom urban sketcher?

PB - Eu não gosto de classificar nada com a expressão “bom e mau urban sketcher”. Todos nós temos a nossa forma de ver o que estamos a observar e a passar para o papel. Uns dão mais destaque a determinados pormenores, outros preferem destacar através de linhas gerais o que observam, outros utilizam aguarelas, outros lápis de cor… não há o bom e o mau. Aliás, e já referi isso noutras entrevistas, John Ruskin, intelectual inglês do século XIX disse: “Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar.” Portanto, desenhar aprende-se. E devia ser cada vez mais democrático desenhar, não fosse essa uma das formas de arte mais antigas da humanidade, basta referir os desenhos rupestres na idade das cavernas.

 

Já percorreu e desenhou por muitas cidades?

PB - Algumas. Não o número que desejaria, até porque sou novo e ainda tenho muito por onde viajar. Mas já passei por muitas cidades portuguesas, desde Lisboa até ao Porto. Em termos europeus, tenho nos meus diários gráficos Barcelona, Milão, Veneza, Florença e Roma. Mas não quero esquecer os meus Açores… Tenho tantos desenhos das restantes ilhas dos Açores.

 

Como analisa a evolução desta área nos Açores? Nota que têm vindo a aumentar os amantes do desenho em diário gráfico na região?

PB - Sim, sem dúvida que tem vindo a aumentar. Em Março de 2014 é fundado o grupo Usk Açores por mim, pela Cristina Moscatel e pela Sofia Carolina Botelho. Em Agosto de 2015 abandono o grupo organizativo em discordância não com as pessoas, porque continuo a nutrir estima e consideração pelas mesmas, mas com a dinâmica que na altura se estava a implementar no grupo. Achava que se podia fazer muito mais, continuo a achar, mas devo confessar que a dinâmica está bem mais activa do que até então. Se foi com a minha “pedrada no charco” ou não, não sei, nem é isso que importa. Mas há ainda muito por fazer e desenvolver à volta do desenho em diários gráficos. Todavia, não é esse o momento para referenciar tudo o que poderá ser feito e desenvolvido no sentido de tornar cada vez mais acessível e democrático esta vertente de desenhar em diários gráficos.

 

Será preciso organizar mais encontros, como o simpósio, na região para cativar a atenção para esta área?

PB - Não, mas todos os que se puderem realizar com a vinda de pessoas estrangeiras ou nacionais tanto melhor. Isso tem sido feito pelo actual grupo usk Açores. O que, em minha opinião, deverá ser realizado é procurar levar esta actividade a mais localidades, a casas de cultura, a juntas de freguesia, ou a museus etnográficos espalhados pela ilha, por forma a cativar os jovens destas mesmas freguesias. Levar até às escolas palestras sobre o acto de desenhar em diários gráficos e reforçar a importância do desenho no desenvolvimento cognitivo e enriquecimento das capacidades de observação a todos os aspectos culturais que nos envolve ou rodeia.

 

E para terminar, que expectativa tem para o Simpósio Vadio? 

PB - As expectativas são principalmente criar bons momentos de convívio, aprendizagem com a troca de experiências, promover a franca troca de amizades, conhecer através de outras pessoas culturas diferentes e mostrar a quem nos visita a nossa bonita ilha, desde as belezas naturais à gastronomia, passando por dar a conhecer o que aqui se produz. Enfim, mostrar um pouco do que é a ilha de São Miguel e as suas gentes. Transmitir de uma forma muito subtil que com pouco se consegue fazer muito. E com tudo isso, levar até outras paragens, espalhadas por este mundo fora, o nome dos Açores, da ilha de S. Miguel e da cidade de Ponta Delgada. 

 

Por: Alexandra Narciso