Remodelação do Convento da Esperança e do Santuário do Senhor Sto. Cristo custará mais de 10 milhões de euros

Adriano BorgesAs obras de recuperação e remodelação do Convento da Esperança e do Santuário do Senhor Santo Cristo, em Ponta Delgada, estão avaliadas em mais de 10 milhões de euros. No Convento serão construídos quartos para receber doentes de todas as ilhas com problemas oncológicos. E as peças museológicas, de grande riqueza, terão lugar digno. Quem o diz é o cónego Adriano Borges, reitor do Santuário, que se deslocou aos EUA.

 

Como convidado às Grandes Festas do Espírito Santo da Nova Inglaterra, em Fall River, esteve entre nós o cónego Adriano Borges, reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres em Ponta Delgada, que aproveitou esta sua deslocação para promover através da comunicação social portuguesa nos EUA uma campanha de sensibilização junto da comunidade, no sentido de poder auxiliar com os seus donativos o enorme projeto que tem em mente, já delineado, com vista à recuperação e preservação do Santuário do Senhor Santo Cristo e Convento da Esperança. 

Trata-se de uma obra avaliada em mais de 10 milhões de euros, aguardando-se apoios do sector público (Governo Regional e Comunidade Europeia).

Em entrevista ao programa “Hora Quente”, do Portuguese Channel e ao Portuguese Times, conduzida por Ricardo Farias, o cónego Adriano Borges, 45 anos de idade, salienta que o cargo de reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo é para qualquer sacerdote uma honra e alegria, mas ao mesmo tempo representa uma enorme responsabilidade, presença constante naquele espaço junto das centenas de fiéis que ali acorrem diariamente e para além da vertente espiritual, há a questão financeira e económica: saber administrar e gerir este lugar e até recuperá-lo, como é o caso agora.

 

De Santa Maria 

até Ponta Delgada

 

Nomeado em julho de 2016 reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, sublinha:

“Provavelmente para qualquer sacerdote açoriano isso deve ser um privilégio e um prazer, depois de ter estado sete anos em missão em Santa Maria, onde fiz uma obra grande e estava sinceramente muito feliz ali e até pensava que iria ficar em Santa Maria o resto da minha vida, porque gostava muito de lá estar”.

Mas, a convite do bispo conhece nova etapa no seu percurso de serviço a Deus e aos fiéis:

“Nessa altura D. António convida-me para estudar para Roma a fim de tirar um curso de História da Igreja e não era apenas um convite mas também vi nisto uma oportunidade de estudar mais e conhecer gente de outras culturas e lá fui para a Universidade Gregoriana e confesso que foi uma experiência fantástica e após passagem pelo Seminário Episcopal de Angra passei pelas paróquias de São Pedro e São Carlos onde fui pároco e depois recebo novo convite do senhor bispo para ser cónego da Diocese e tive de aceitar e andei durante sete anos a percorrer os Açores de uma ponta à outra, em contacto com as diversas paróquias e fizemos algumas obras de teor económico e financeiro”.

 

Surpreendido com convite para reitor

 

Até que surgiu o convite para exercer aquele que considera o seu maior desafio desde que foi ordenado sacerdote: ser reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres em Ponta Delgada.

“Foi uma grande surpresa para mim o convite que o senhor bispo me endereçou para que fosse o novo reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, tinha eu nessa altura 42 anos para um cargo que era anteriormente ocupado por sacerdotes mais idosos do que eu... Claro que foi uma honra para mim, um misto de alegria e de alguma preocupação, porque na realidade se trata de uma função muito importante, mais no sentido da responsabilidade que o cargo acarreta”, sublinha o cónego Adriano Borges, adiantando que este cargo tem um prazo de seis anos, podendo vir a ser novamente reconduzida nestas funções ou substituído, uma decisão que pertence ao bispo da Diocese de Angra.

 

Santuário Santo CristoDesafios imediatos

 

“Em primeiro lugar, o desafio que senti foi esta responsabilidade de substituir grandes padres que exerceram o cargo, nomeadamente os saudosos monsenhores Jacinto da Costa Almeida, oriundo da minha terra, a Ribeirinha, Agostinho Tavares, da Maia, que toda a gente conheceu e que cativava multidões e falava ao coração das pessoas e ainda Augusto Cabral, natural da Fazenda do Nordeste, meu antigo professor e reitor do Seminário Episcopal de Angra, um homem exigente mas muito próximo de nós e claro que substituindo estas pessoas foi para mim uma grande responsabilidade e depois sabendo que o Santuário do Senhor Santo Cristo recebe diariamente centenas de pessoas e senti que isto exigiria muito a minha presença.

O outro grande desafio, para além do contacto directo com as pessoas na vertente espiritual e respetivos serviços religiosos, é a parte material, no sentido de gerir o santuário e o convento e como todos sabemos o Convento da Esperança encontra-se neste momento em franca degradação e há muitos anos que não se fazem obras no convento e era necessário planearmos um projeto, que seja exequível, um projeto que fosse também ao encontro daquilo que é um património, uma vez que o santuário e o convento são património regional e não temos a liberdade de fazermos o que quisermos e que nos desse uma resposta social àqueles que nos procuram e que precisam da nossa ajuda e de apoio nos momentos difíceis e esse é o nosso projeto que temos para o santuário e que vai incluir essa parte de acompanhamento das pessoas no momento da maior fragilidade humana, que sejam também acometidas de doenças, sobretudo doenças como o cancro e esta é a nossa principal missão, dar conforto a essa gente”.

 

O encontro com o Papa

 

Um dos momentos muito especiais para o cónego Adriano Borges, e para os seus dois irmãos gémeos, foi o encontro com o Papa Francisco no Vaticano.

“Sim foi sem dúvida um momento muito especial. Foi em janeiro de 2017, estava no Santuário há apenas três meses. Tivemos oportunidade através de um outro açoriano, o arcebispo D. José Bettencourt, natural de São Jorge e que se encontra neste momento na Arménia e na Geórgia, como Núncio Apostólico e naquela altura era chefe de protocolo do Papa e em contacto com ele falámos na possibilidade de podermos estar numa audiência geral com o Papa, mas uma audiência destas compreende duas mil pessoas e o nosso pedido foi aceite... Já tinha tido oportunidade de quando fui estudante em Roma, de cumprimentar o anterior Papa Bento XVI. O que é certo é que dois dias antes, D. José Bettencourt disse-nos que íamos ficar na primeira fila, uma posição privilegiada que permite cumprimentar pessoalmente o Papa. Foi uma alegria muito grande e tivemos oportunidade de falar com o Papa e recordo que o meu irmão José, sem saber italiano, estava a tentar dizer ao Papa que era gémeo com o irmão que estava ao lado ao que o Papa respondeu: “Isso eu já sabia” e eu disse-lhe que também era irmão e o Papa surpreendido afirmou em latim: “Beata Mater” (Bendita Mãe) e recordo-me que Sua Santidade pediu que rezássemos por ele”, sublinhou o reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres em Ponta Delgada.

 

O grande projecto

 para o Santuário

 

Sobre o projeto para o Santuário do Senhor Santo Cristo e para o Convento da Esperança, o cónego Adriano Borges, salienta:

“Uma das razões ou até mesmo a principal razão do senhor bispo me ter colocado no santuário e no convento foi precisamente a ver com este projeto, que já está bem delineado com todas as secções e tudo aquilo que queremos fazer, e em fase de licenciamento, entregue à Câmara Municipal de Ponta Delgada e à Direção Regional da Cultura do Governo dos Açores, pois como sabe o santuário é património regional e há certas regras que temos de cumprir obrigatoriamente e essas regras passam por não fazer alterações profundas, apenas adaptações àquilo que nós queremos e de facto queremos fazer duas partes bastante distintas: uma parte será museológica, haverá um percurso museológico onde tentaremos recriar aquilo que era a vivência das irmãs conventuais Clarissas, as primeiras que foram para aquele convento, das quais fazia parte a Madre Teresa d’Anunciada e experienciar um pouco aquilo que era a vida do convento, onde as religiosas rezavam, onde se reuniam, a cozinha das irmãs, etc... e vai ser permitido as pessoas circularem nestes espaços... Ao mesmo tempo pretendemos criar um outro espaço museológico que incluirá uma amostra daquilo que nós temos, desde as capas que foram ofertas ao Senhor Santo Cristo e que estão identificadas (32 capas já foram oferecidas ao Senhor) e que estarão colocadas num espaço denominado o Quarto das Capas, mas também temos muitas outras peças que têm de ser mostradas, sobretudo as jóias do Senhor Santo Cristo dos Milagres, como o ceptro, a coroa, o esplendor e a corda”, refere o cónego Borges, salientando que para além do seu significado espiritual representa um valor artístico incalculável, recordando um seu professor de História da Arte ao afirmar que se a arte não é mostrada deixa de ser arte, não podendo ser apreciada.

 

Receber doentes 

com problemas oncológicos

 

 “A peça do esplendor do Senhor Santo Cristo é a peça mais valiosa da Península Ibérica!”, afirma o cónego Adriano Borges, para adiantar:

“Para além da parte museológica há o espaço do convento, que durante muitos anos serviu para receber meninas que vinham estudar para São Miguel, vindas de outras ilhas e até em alguns casos de zonas da ilha mais afastadas de Ponta Delgada, nomeadamente da Povoação e Nordeste e que necessitavam de alojamento em Ponta Delgada e ficavam a residir no próprio convento e vinham para aprender com as irmãs, administrando cursos como dactilografia, bordados, culinária, etc.... Chegámos a ter 16 religiosas que ensinavam estes cursos internos e depois começámos a receber jovens que iam estudar para o Liceu Antero Quental, Escola Domingos Rebelo, universidade e outras escolas... O que é certo é que depois de falarmos com os pais eliminámos esta secção e esta parte do convento ficou vazia. Então o que fazer? Há cerca de 30 anos que não se pregava um prego no convento e uma casa desta dimensão sem ter uma manutenção constante é natural que se degrade e depois não está adaptada à realidade atual, ou seja, este projeto compreende quartos duplos com quarto de banho privado e servirá para receber pessoas de outras ilhas e até mesmo de S. Miguel que venham com problemas oncológicos, e que dentro do convento tenham não apenas o acompanhamento necessário, com voluntários e profissionais de acompanhar as pessoas aos hospitais, com serviço de refeições e proporcionar às pessoas todo este conforto sem terem a necessidade onde vão comer ou lavar a roupa, etc.... e no verão organizarmos excursões a diversos pontos da ilha”, explica Adriano Borges, afirmando que a concretização do projeto depende do financiamento vindo do sector público (Governo Regional e Comunidade Europeia) e privado, nomeadamente das comunidades na diáspora.

 

Apelo do Bispo

 

D. João Lavrador, bispo da Diocese de Angra e Ilhas dos Açores, afirma sobre a importância de preservar e remodelar o santuário:

“Há que criar melhores condições para que o Santuário possa ser um local de acolhimento, em que as pessoas se sintam bem. E que, pela recuperação, pela beleza que está a envolver e que está presente neste Santuário, se possa realmente traduzir em força e dinamismo evangelizador que é para isso que o Santuário serve. Evangelização, tendo em conta a pessoa na sua totalidade. E, por isso, desde a beleza exterior, até ao acolhimento humano, até o estar atento e sensível àquilo que são as realidades daquelas pessoas que aqui vêm ter a este Santuário, até à palavra de Esperança, até aos sinais da presença de Jesus Cristo, que quer confortar toda a pessoa, tudo isto tem de estar aqui. Estes são os grandes desafios que se colocam ao Santuário e a que este Santuário procura estar atento para eles”.

 

Os donativos

 

Os donativos podem ser enviados por carta, cheque ou em dinheiro para contas bancárias deste projeto: Caixa Geral de Depósitos, Banco Santander, BPI.

“Trata-se de um enorme projeto que na globalidade ultrapassará os 10 milhões de euros e já tivemos apoios do Governo Regional dos Açores e da Câmara Municipal de Ponta Delgada, mas são apenas grãos de areia para fazer face aos elevados custos da obra”, conclui o cónego Borges, adiantando que todos os donativos são bem vindos.

 

Por: Francisco Resendes, nos EUA

Exclusivo Portuguese Times/Diário dos Açores