
Natural do Nordeste, António Raposo com dupla especialidade de médico fisiatra e de medicina desportiva decidiu há 14 anos aceitar um desafio que lhe foi proposto e criar um centro de reabilitação na ilha de São Miguel. Um projecto que se revelou uma aposta ganha desde o início e que foi evoluindo até aos dias de hoje. O sócio-gerente da Açorclínica contou ao Diário dos Açores o percurso da empresa e quais as suas ambições para o futuro.
Diário dos Açores - A Açorclínica já conta com mais de 10 anos. Na altura o que o motivou a abrir a clínica?
António Raposo – A Açorclínica nasceu no ano de 2005 e surgiu depois de um convite que me foi endereçado pelo Dr. Faria e Maia que era o Director Clínico na Clínica do Bom Jesus em Ponta Delgada. Na altura eu prestava serviços no Centro de Fisioterapia, localizado na Rua de Lisboa, e também trabalhava no Hospital do Divino Espírito Santo. O Dr. Faria e Maia coloca-me então o desafio de montar um serviço de reabilitação num espaço na Clínica do Bom Jesus. Aceitei o desafio e, passados três anos, como o espaço que aluguei na Clínica era pequeno comecei a pensar como empresário.
Importa referir que um dos motivos que me fez também aceitar aquele desafio era porque tinha em mente um projecto que considerava que fazia muita falta nos Açores e que passava por criar um serviço de internamento para reabilitação. Estando na Clínica do Bom Jesus esse projecto poderia ser viável. Comecei a estudar a hipótese de adquirir um armazém que existia por detrás da clínica em parceria com a Clínica do Bom Jesus e um empresário de construção civil, mas questões burocráticas fizeram-me recuar e desistir da ideia. O certo é que, passados 14 anos, ainda não temos este serviço nos Açores.
Entretanto, o espaço onde exercia na clínica, passado um ano, já era pequeno para as minhas ambições e tive que mudar de localização. Recordo-me que comecei a trabalhar apenas com duas administrativas, sendo que uma delas trabalhava a tempo parcial, três fisioterapeutas e um auxiliar que só foi contratado mais tarde.
Uma realidade que hoje é bastante diferente?
AR – Sim. Depois de ter estado três anos na Clínica do Bom Jesus, a minha esposa que é enfermeira e é a gestora da Açorclínica, encontrou o espaço onde nos localizamos actualmente, no Paim. Na altura era um espaço que ainda estava em construção, com 600 m2, e que correspondia ao que procurávamos. Decidimos comprar e adaptar o espaço à nossa maneira de modo a transferir a Açorclínica para aquelas instalações, cumprindo o objectivo de ser um Centro de Reabilitação que é a nossa actividade principal. Para além das consultas médicas, apostamos muito na fisioterapia, mas também temos aos dispor o serviço de terapia da fala e terapia ocupacional, dando assim apoio a doentes externos. Também temos agora um psicólogo, que trabalha de forma independente, nas instalações do Paim para além da fisiatra, natural da Povoação, Dra. Daniela Amaral, e de um médico neurologista, Dr. Horta de Mendonça, que trabalha no Algarve, mas que vem cá uma vez por mês. Contudo, a actividade principal da clínica é a fisiatria cujas consultas são feitas por mim e pela Dra. Daniela repartidas pelos pólos onde temos clínica (Ponta Delgada, Vila Franca do Campo e Povoação).
Para além da Clínica no Paim, também estão em Vila Franca do Campo. Foi uma evolução natural?
AR - Fomos crescendo devagar ao longo dos anos. O espaço em Vila Franca do Campo surgiu também em 2005 e, actualmente, conta com cerca de cinco colaboradores a tempo inteiro e, há três anos, abrimos também um espaço na Povoação para prestar apoio ao Centro Médico daquela localidade.
No início começamos a nossa actividade com cinco pessoas e hoje somos mais de trinta.
É possível a Açorclínica crescer ainda mais?
AR – Neste momento, atingimos um patamar que não dá margem para crescer mais. Em 14 anos alcançamos o número de mais 14 mil doentes, sendo que o nosso crescimento foi sempre muito linear. Não é por agora trabalharmos em regime de convenções com o Estado que temos mais doentes. Trabalhamos sempre no limite das nossas possibilidades, porque as nossas instalações não nos deixam tratar mais pessoas isto porque fazemos questão de manter os nossos padrões de qualidade quer em termos humanos, quer em termos técnicos. Não fazemos “tratamentos a metro”, tratamos os doentes todos por igual, sejam com serviços privados ou convencionados.
Fazemos questão de tratar todos os pacientes com carinho e humanismo porque quem necessita dos serviços da nossa clínica são pessoas que têm um problema e, por isso, tentamos ser tecnicamente correctos sempre com muita alegria porque para a tristeza já nos basta a de alguns doentes que padecem de doenças graves. Se não adoptarmos esta postura de alegria e boa disposição também não podemos ajudar os nossos pacientes.
Ainda se sente com forças para continuar a trabalhar?
AR – Tenho 62 anos e, se tiver vida e saúde, espero deixar de trabalhar aos 65 anos, ainda sem estar reformado, quando fizer 40 anos de carreira. Neste momento andamos a pensar qual será a melhor forma de manter a clínica depois de eu deixar de trabalhar.
Tenho três filhas, mas nenhuma delas quis seguir o meu caminho ou o da mãe, foram todas para áreas diferentes e, pelos vistos, nenhuma delas ficará a gerir a clínica quando eu e a mãe nos reformarmos, por isso temos que ir pensando numa solução.
Quando abriu portas em 2005 acreditava que era projecto ganhador?
AR – Sim. Ainda antes de abrir a empresa em São Miguel já tinha aberto um Centro de Fisioterapia na ilha do Faial em sociedade com o fisioterapeuta Rui Goulart isto porque era uma lacuna que existia na Região, por isso acreditava que era um projecto que fazia falta. Existiam muito poucos centros de fisioterapia nos Açores, excepto em Ponta Delgada e na ilha Terceira. Quando abrimos no Faial não existiam centros do género nas ilhas do Pico, Faial, Flores, Corvo ou São Jorge e o problema é que não existiam técnicos para desenvolverem este trabalho. Felizmente, com a evolução das universidades e do ensino politécnico e da própria sociedade começaram a aparecer muitos mais fisioterapeutas e foi então possível poder prestar estes serviços que defendo que devem ser de proximidade porque acaba por ser uma grande mais-valia ter este tipo de centro em localidades mais afastadas dos centros urbanos.
Em 14 anos de actividade quais foram as fases mais complicadas da empresa?
AR – O momento mais difícil foi há cinco anos quando lutei pela manutenção de um sistema de parceria público-privada com o Governo Regional. Conseguimos estabelecer esta parceria com o Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada e, em Janeiro deste ano, com a Unidade de Saúde de Ilha de São Miguel. Mas, antes disso, depois de publicada uma portaria pelo Governo, que mais tarde foi suspensa, praticamente foram impedidos que os serviços que se prestam nas clínicas privadas fossem feitos sem ser através do Estado. Perante uma sociedade açoriana cujos recursos económicos de muitas famílias são escassos, era praticamente impossível manter uma clínica unicamente para privados. Nos últimos anos até reparamos que houve um aumento progressivo de pessoas com seguros de saúde, realizados com diversas entidades, que não nos pagam nada bem e que fizeram com que baixássemos a rentabilidade da nossa empresa.
Depois de publicada aquela portaria, cheguei mesmo a equacionar a hipótese de fechar as portas e emigrar para os Estados Unidos da América. Aliás, o meu irmão chegou mesmo a fazer a carta de chamada, mas ainda estou à espera de uma resposta.
Esse foi, de facto, o momento mais difícil da Açorclínica principalmente porque a nossa mudança de instalações para o Paim obrigou-nos a fazer um grande investimento. Concorremos ao SIDER, apoios que acabamos de pagar este mês de Novembro, 10 anos depois da nossa abertura. O investimento pessoal, meu e da minha esposa, na clínica do Paim foi de 1 milhão de euros e em Vila Franca de 200 mil euros. Felizmente o mês passado saldamos toda a nossa dívida bancária. A Açorclínica é uma empresa estável e saudável do ponto de vista financeiro, sendo que nos últimos anos temos recebido o prémio PME Excelência do IAPMEI. Tudo isso fica a dever-se à minha esposa que é a gestora financeira da empresa. Dou algumas indicações quando se trata de tomar grandes decisões, mas de resto o mérito da gestão da empresa é todo da minha esposa.
Já o mérito da qualidade dos nossos serviços e atendimento fica a dever-se a toda a nossa equipa de colaboradores que abraçam o nosso projecto e se integram no nosso espírito. Somos muito exigentes no que toca à qualidade e disso não prescindimos.
Costumo dizer que trabalhar na área da saúde é ser como um artista circo, temos que estar muito atentos, porque a mínima distracção pode ser a morte do artista. Trabalhamos com pessoas e para as pessoas e não podemos correr o risco de falhar. Obviamente que também temos as nossas falhas, mas tentamos estar próximos de uma eficácia na ordem dos 100 por cento.
A área da reabilitação tem vindo a crescer nos Açores?
AR – Esta é uma área onde não se podem cortar nas verbas governamentais e que necessita sempre de um carinho especial, porque estamos a falar de pessoas com alguma deficiência e que têm vindo a aumentar e porque os recursos que temos disponíveis, apesar de serem muito superiores aos que tínhamos há 16 anos, ainda não são suficientes e porque ainda não se concretizou o meu sonho de existir na Região um centro de reabilitação com internamento.
Também a minha luta para que houvesse na Região um centro de produção de próteses para amputados e ortóteses ainda não se concretizou, bem como a aquisição de material técnico para as pessoas com deficiência ou material técnico de ajudas de apoio para as escolas destinado às crianças com necessidades educativas especiais. Do ponto de vista tecnológico já há muito material que existe e que pode fazer a diferença na qualidade de vida de uma pessoa com deficiência, mas as famílias não têm dinheiro para estes materiais.
A função principal da reabilitação não é curar, mas sim melhorar a qualidade de vida das pessoas, mantendo a mesma doença. Estamos a falar, por exemplo, de doentes com patologias graves crónicas, porque as agudas são tratadas ao nível hospitalar. Temos muitos pacientes com patologias na área degenerativa, doenças reumatológicas, alguns na área neurológica, algumas crianças com deficiência e pacientes na área da medicina desportiva. Atendendo à minha dupla especialidade de médico fisiatra e de medicina desportiva tenho também uma grande procura pela parte de atletas.
Sente-se um empresário realizado?
AR - Tudo o que meto é com amor e paixão, é só assim que sei estar na vida. Creio que consegui criar um centro de muito boa qualidade com uma equipa de colaboradores de qualidade e empenhados que também contribuem para o sucesso da Açorclínica.
Sou um homem realizado em todos os aspectos da minha vida, não me queixo da nada. Sinto-me realizado com a minha família, sou realizado porque trabalho onde gosto e sou realizado ao nível empresarial porque consegui montar uma empresa de sucesso com capitais próprios e ter tudo pago neste momento.