Terminou a Web Summit: a tecnologia agora precisa de mais humanidade para evoluir

  • Imprimir

Cosgrave e Marcelo

No começo era tudo sobre digitalizar os livros, montar uma biblioteca virtual e venda de livros online. Foi assim que a Amazon, a marca mais valiosa do mundo e a Wikipedia, a maior plataforma colaborativa do globo, iniciaram os seus negócios. 

Em três décadas, ambas mudaram completamente de rumo, ao se tornarem um espelho do estilo de vida digital. A Amazon passou a ser a maior plataforma de compras online, valendo-se da realidade virtual, rastreamento e dados, machine learning e também mobilidade, com camiões autónomos e drones, a Amazon Air. Conveniência e eficiência máxima para quem não tem tempo a perder é o core business da empresa que nem de longe é uma loja, mas sim, um reduto dos mais brilhantes desenvolvedores e cientistas digitais. 

“95% dos serviços e produtos prestados pela Amazon vêm do estudo do comportamento do nossos próprios clientes”, afirmou Werner Vogels, PhD e Diretor de Tecnologia da Amazon. No entanto, parece inacreditável, mas no meio de tanta pesquisa computacional, aparecem as curiosidades do homem trapalhão, onde um simples estendal transforma-se em obstáculos a toda a logística dos drones, como mostrou Vogels, no palco do Web Summit.  Isto porque, a cada nova rota mapeada para desviar drones de um estendal, pode surgir um outro problema, no dia seguinte, com mais um novo estendal noutro lugar. 

Para muitas famílias, a roupa ainda precisa de secar ao sol e este simples detalhe do cotidiano soa incompreensível a dinâmica  tecnológica e mostra as discrepâncias entre a hiperconectividade e o dia a dia das pessoas comuns. Será que a tecnologia pode moldar-se aos nossos hábitos de séculos de existência? “O conhecimento está em colapso? Estamos sim numa crise de confiança”, afirmou Katherine Maher, CEO da Wikipedia. 

Segundo Maher, o problema está na infraestrutura invisível que impulsiona tudo o resto, aquilo que as pessoas não conseguem compreender e, por isso, não confiam. Do governo ao jornalismo, da ciência à medicina. É mais fácil acreditar em quem está ao nosso lado do que acreditar em quem é referência no assunto. E isso é uma grande reviravolta na convivência humana que está a prejudicar relações e até a reversão da mudança de clima. 

Entre facto e opinião existe muita manipulação da informação. Segundo a CEO da Wikipedia, a humanidade é movida pela curiosidade, mas “não é o conhecimento, mas sim a partilha, o legado que ultrapassa fronteiras, livre de restrições, censuras e pode ser replicado com independência é o que garante a nova integridade”. 

Ainda que a pergunta mais frequente na Wikipedia seja se o urso pertence ou não à família dos cães, são mais de 17 milhões de consultas mensais ao conhecimento colaborativo, oferecido por ilustres desconhecidos. A conexão com propósito é algo maior que o domínio da informação. E novamente, essa foi a cobrança da dinamarquesa Margrethe Vestager, vice-presidente executiva da comissão europeia para os assuntos digitais, na Web Summit. 

Considerada a “xerife” do mundo digital, sempre atenta aos movimentos das grandes empresas como Google e Facebook, Vestager afirmou que “é preciso mais coerência entre discurso e prática”. Vestager acrescentou que só tem visto as ambições crescerem entre as gigantes da tecnologia e que já é possível investigar aquilo que ainda está a ser criado, numa alusão clara à Libra, a nova moeda do Facebook, que tem causado muita polémica entre a tradicional indústria financeira e está sob forte pressão de reguladores e bancos centrais. 

Segundo Vestager, o que tem sido o dia a dia da democracia tem que ser o dia a dia na esfera tecnológica: “estamos sempre a discutir a fundo, no mundo real o que é aceitável ou inaceitável. Seria incompreensível não ser da mesma forma no mundo digital”. Assim como acontece no mundo real, no digital não seria justo que algumas empresas paguem impostos e outras não. Tem que haver equidade de taxação. 

Igualdade também foi a tónica do presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o último a brilhar no palco da Web Summit. O dirigente fechou a cimeira com uma mensagem simples e profunda: “precisamos de uma democracia forte. Estamos sob cultura cívica quando ninguém é deixado para trás”. Esta tem sido uma grande preocupação: afinal a tecnologia vai contribuir para que existam mais ou menos excluídos? Por ironia do destino, depois de sair da Web Summit, o compromisso seguinte do presidente foi conhecer o sem abrigo que salvou um bebé abandonado pela mãe, também sem abrigo, num contentor de um ecoponto, em Lisboa. 

O inconformismo na fala do presidente, ainda contaminado pelo entusiasmo da Web Summit, resumiu bem as dificuldades debatidas neste ano na cimeira. Manifestando-se publicamente a um canal televisivo, o presidente questionou como dois mundos tão distantes poderiam coexistir? De um lado a realidade fantástica do digital e do outro uma realidade social tão dura e precária nas ruas. Encerrou bem a Web Summit o presidente ao afirmar que ninguém pode ser deixado para trás. 

A comunidade tech aplaudiu Marcelo Rebelo de Sousa na Altice Arena, mas será que no futuro vai conseguir chegar a uma sociedade justa para todos? Chegamos a um ponto admirável em que os maiores desafios e conflitos no avanço tecnológico giram em torno dos mesmos desafios e conflitos do mundo offline: desenvolvimento humano, políticas públicas, impostos, direitos iguais, regulação... Se o poder agora é o poder de compartilhar, as novas tecnologias ainda têm um longo percurso a percorrer na área da democracia. 

 

Por Marisa Furtado, em Lisboa, para o Diário dos Açores