Assinala-se hoje o Dia Mundial da Diabetes, sendo que este ano a Federação Internacional de Diabetes (IDF) está a consciencializar a população sobre o impacto que a diabetes tem na família e na necessidade da implementação de uma rede de apoio às pessoas afectadas, promovendo o papel da família na gestão, cuidados, prevenção e educação das pessoas com diabetes.
Em declarações ao Diário dos Açores, Rui César, Director do Serviço de Endocrinologia e Nutrição do Hospital do Divino Espírito Santo, dá conta, a propósito, que as famílias devem ser incentivadas a aprender mais sobre os sinais de alerta da diabetes e descobrir no seu próprio seio o risco de ter diabetes tipo 2. Conforme explicou, “o seio familiar é muito importante, desde logo porque se a família está sensibilizada para um determinado tipo de problema, fica mais vigilante e mais atento ao que se passa em seu redor”.
Estudos realizados pela (IDF) mostraram que os pais estariam dispostos a fazer tudo para detectar a doença nos seus próprios filhos. Apesar da maioria das pessoas avaliadas ter um membro da família com diabetes, quatro em cada cinco pais, teve dificuldade em reconhecer os sinais de alerta. Um em cada três não os identificaria. Daí que os resultados realçaram a necessidade da educação e da consciencialização para ajudar as pessoas a identificar precocemente os sinais de alerta sobre a diabetes. De acordo com Rui César, “como esta doença é silenciosa e tem muito pouca sintomatologia pode passar despercebida, mas se houver alguém na família que esteja sensibilizado e saiba mais sobre esta doença, provavelmente podem chegar a um diagnóstico mais rapidamente”.
De acordo com este especialista, “muitas vezes a doença é tão silenciosa que chega a levar entre sete a oito anos até ser diagnosticada, sobretudo na idade adulta”.
A falta de conhecimentos sobre a diabetes significa que detectar os sinais de alerta não é apenas um problema para os pais, mas sim um problema que afecta transversalmente a sociedade, sendo esta uma grande preocupação principalmente devido ao facto dos sinais serem mais indeléveis na diabetes tipo 2, a forma mais prevalente da doença e responsável por cerca de 90% de todos os casos. Ainda assim, Rui César chama a atenção que a diabetes tipo 2 pode ser prevenida em 50% dos casos, caso “as pessoas mudem os seus hábitos”.
Também aqui a família pode ser uma grande ajuda porque, como adianta o Director do Serviço de Endocrinologia e Nutrição do Hospital do Divino Espírito Santo, a família poderá, nestes casos, “acarinhar e ajudar o familiar diabético nas suas restrições alimentares”, sabendo de antemão que a pessoa doente já não poderá “usufruir do gozo de comer mais ou melhor, mas que lhe custará ver os outros a poderem fazê-lo”. Ou seja, avança o especialista, “a família deve ser solidária com os diabéticos”, até porque poderá estar a ajudar não só o doente como a si próprio, pois, “se está no seio de uma família que tem diabetes, também corre o risco de vir a ser diabético”. Assim, frisa Rui César, “quanto mais cedo conseguirmos diagnosticar a doença, mais capazes seremos de evitar a sua progressão ou as complicações que advêm da diabetes”.
Mais de 20.500 açorianos sofre da doença
De acordo com os dados apurados pelo Observatório Nacional da Diabetes (OND) da Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD), nos últimos três anos verificou-se ainda um número muito elevado de novos casos de diabetes diagnosticados anualmente em Portugal.
Estima-se a existência de entre 605 a 618 novos casos de diabetes por cada 100 000 habitantes em 2018, de acordo com cada uma das fontes considerada. Ao compararmos com os anos anteriores, verifica-se uma tendência para a estabilização da incidência da diabetes em Portugal desde 2008.
Em 2018 a prevalência estimada da diabetes na população portuguesa com idades compreendidas entre os 20 e os 79 anos (7,7 milhões de indivíduos) foi de 13,6%, isto é, mais de 1 milhão de portugueses neste grupo etário tem esta patologia.
Uma em cada duas pessoas que actualmente vive com diabetes não é diagnosticada. A grande maioria deles tem diabetes tipo 2.
Nos Açores trata-se de um número que tem vindo a aumentar “enormemente”. Ao Diário dos Açores Rui César, explicou que “há 30 anos estimava-se que existiam três mil diabéticos nos Açores”. Entretanto, passado este tempo e sabendo-se que a população não oscilou assim tanto, actualmente, só registados nas Unidades de Saúde do arquipélago constam 20.500 pessoas com diabetes. “Se pensarmos que já há muitas pessoas que têm seguros de saúde e que só usam as clínicas privadas, mais as pessoas que são diabéticas e que não estão diagnosticadas”, é possível que este número seja muito superior. “Se tínhamos uma prevalência, há 10 anos, de 14,3%, estou convencido que é possível que hoje este número ronde os 18 ou 20%”, ressalvou, considerando ser “um drama” esta situação, uma vez que “só de registos, temos a mesma prevalência do que Portugal Continental no seu todo em termos estimados”.
A diabetes sem tratamento ou sem controlo pode levar a complicações que alteram a vida, como sejam cegueira, amputação dos membros inferiores, insuficiência renal, ataque cardíaco e acidente vascular cerebral. Por isso mesmo, o endocrinologista apela para que todos trabalhem no mesmo sentido. “É preciso estarmos todos de mãos dadas, Governo, autarquias, escolas e todo o tipo de instituições, só assim poderemos melhorar”, avança, advertindo que a “própria sociedade tem que entender que tem que ser muito mais agressiva na tentativa de diagnóstico da doença e olhar para a diabetes de uma maneira muito mais esclarecedora”, porque é, de facto, uma doença que “mata mais cedo”.
Uma sensibilização e conhecimento que, diz Rui César, muitas vezes nem são tidos em conta pelos próprios doentes que “continuam a ter mesma postura” após anos de consultas. Este responsável sublinha que “somos uma população pequena e de proximidade e, é evidente que não é só o médico que tem que estar ao lado do doente, mas também outros serviços de saúde como enfermagem ou nutrição e, nestes campos, tem havido uma grande melhoria, mas infelizmente ainda não conseguimos ter resultados práticos, por exemplo, em reduzir o número da prevalência da obesidade que é uma doença que também leva à diabetes”.
Rui César ressalva que todos os profissionais de saúde da área de Endocrinologia e Nutrição estão sensíveis ao problema da diabetes, mas, adverte, que é “preciso que as pessoas entendam que um problema destes, que é uma doença crónica, tem que ser olhado de forma séria pelo próprio doente”, porque apesar da diabetes não ter cura “pode viver-se com a diabetes controlada, como se não tivéssemos diabetes”, conclui.
O Serviço de Endocrinologia e Nutrição do Hospital de Ponta Delgada irá assinalar hoje o Dia Mundial da Diabetes com actividades de sensibilização que vão decorrer na ala norte da Igreja Matriz de Ponta Delgada entre as 11h00 e as 14h00.