“Nunca devemos desistir dos nossos sonhos. Se não derem certo, tentamos recomeçar”

AAA Micaela

Micaela Roque, de 27 anos de idade, é a proprietária do restaurante “Sabores da Vizinha”, localizado em Vila Franca do Campo. Junto ao Largo Infante Dom Henrique, com vista privilegiada para o ilhéu, o espaço tem sido, desde Fevereiro de 2018, um ponto de paragem para muitos turistas que visitam o concelho. São também muitos os clientes locais que se tornaram habituais, depois de se renderem aos pratos que a própria Micaela confecciona. As lulas grelhadas são a especialidade da casa. Ao Diário dos Açores, a proprietária conta como tem corrido a actividade e faz um balanço positivo, apesar da sazonalidade. “Somos como as formigas, trabalhamos muito no verão para sobreviver no inverno”, afirma.

 

Diário dos Açores – Como é que surgiu a ideia para a criação do restaurante “Sabores da Vizinha”, em Vila Franca do Campo?

Micaela Roque – A ideia surgiu depois de eu já terganho alguma experiência na área da cozinha. Antes de abrir o restaurante, tive um quiosque na rua principal da Vila, onde trabalhei durante um ano e só depois apareceu a oportunidade de ter este espaço aqui, junto ao Largo Infante Dom Henrique. Ter um restaurante não era bem a mesma coisa do que ter um quiosque, mas eu e o meu namorado tínhamos esta vontade de abrir um espaço de restauração nosso. E assim o fizemos, com muito esforço. Como eu já tinha trabalhado na área da cozinha, num espaço que era dos meus sogros, já tinha os conhecimentos de base necessários. Vila Franca do Campo recebe muitos turistas, principalmente na época do verão, pois temos pontos de visita importantes, como o nosso ilhéu, a ermida de Nossa Senhora da Paz e também a fábrica das Queijadas da Vila, por isso penso que foi muito bom termos feito esta aposta.

 

Porquê a escolha do nome “Sabores da Vizinha”?

MR – É uma ideia que veio comigo desde que estava no quiosque. Lá, tinha uma relação de proximidade com os meus clientes e chamava-os de vizinha ou vizinho. “O que é que vai ser, vizinha?” e respondiam “um café, vizinha”. Fiquei conhecida por vizinha e achei que seria engraçado trazer isso comigo, dando este nome ao restaurante. 

 

O que a fez apostar nesta área da restauração? 

MR – Sempre gostei de cozinhar e, além disso, é uma área que pode ser muito lucrativa. Felizmente temos conseguido comprovar isso. Temos visto que cada vez conseguimos abranger mais clientes e o negócio tem corrido muito bem, apesar de ser um trabalho muito sazonal. Aqui no concelho, há muita sazonalidade. Ao nível do turismo, os meses fortes são de Abril a Outubro. Nos restantes meses, os nossos clientes são os locais. Apesar disso, penso que tem valido a pena.

 

E como é que o “Sabores da Vizinha” marca diferença em relação à concorrência?

MR – Marcamos a diferença sobretudo através de uma boa qualidade e mantendo um bom preço. É também muito importantes nós termossempre funcionários simpáticos, que saibam servir os clientes. Ter um bom serviço é essencial.

 

AAA sabores da vizinha

Sentem que vieram colmatar uma necessidade que existia em Vila Franca? Eram precisos mais restaurantes no concelho?

MR – Sim. Na altura que abrimos o espaço, senti que a Vila tinha pouca oferta para os visitantes ao nível da restauração. Para os locais, os espaços são mais do que suficientes, mas quando chegam os meses de verão, chegam também os turistas. A procura aumenta e tem de haver resposta. A procura é tanta no verão que chegamos a não ter lugar para todos, mesmo com a nossa esplanada montada. Temos capacidade para mais de 70 pessoas e ficamos lotados. Penso que o mesmo acontece com outros espaços aqui no concelho, o que prova que há realmente muita procura na época alta.

 

E qual é a especialidade da casa?

MR – A nossa grande especialidade são as lulas grelhadas. São o nosso prato mais pedido.

 

E o que têm de especial?

MR – O molho que envolve as lulas, a forma como são grelhadas e todo o sabor do prato tem deixado muitos clientes rendidos. Eles adoram. E quando fazemos as coisas com carinho, tudo sai bem. As lulas grelhadas são a minha imagem de marca aqui no restaurante, mas fazemos todo o tipo de pratos. Bifes, febras, costeletas, entre outros. Nós construímos a ementa de acordo com as preferências dos clientes. Por exemplo, para o próximo ano iremos apostar mais em salada porque têm sido muito pedidas. Ou seja, vamos introduzindo novos pratos e retirando outros com menos saída, de forma a agradar os nossos clientes. 

 

A Micaela é a única que confecciona os pratos?

MR – De inverno sim, mas de verão tenho ajuda. Atendendo à sazonalidade, a equipa varia nos meses de época alta e baixa. De inverno não nos compensa ter muitos funcionários, pois o movimento é menor. Neste momento somos duas, eu na cozinha e a Jéssica a servir. Já no verão, chegamos a ser oito colaboradores.  

 

E sempre gostou de cozinhar?

MR – Sim. Não tirei nenhuma formação, mas aprendi com a experiência. A minha formação foi na área de Higiene e Segurança no Trabalho, mas não gostava muito. Sendo sincera, o curso serviu-me apenas para ter o 12.º ano de escolaridade concluído, pois consegui arranjar emprego na área da hotelaria e restauração. E era principalmente na restauração, na cozinha, que gostava de trabalhar. 

 

No próximo mês de Fevereiro, o restaurante completa dois anos de actividade. Que balanço faz?

MR – É positivo. Não posso dizer que queria mais, porque nestes dois anos consegui alcançar mais do que esperava quando abri o restaurante. Foi natural termos sentido algumas dificuldades no início. As dúvidas existiam… Vai dar certo? Não vai? Tínhamos algum receio, pois eu e o meu namorado investimos muito, sem qualquer tipo de apoio. Os primeiros meses foram difíceis, mas depois chegou o verão e as coisas melhoraram. Digamos que somos como as formigas, trabalhamos muito no verão para sobreviver no inverno. O primeiro ano correu bem, mas neste último ano a actividade melhorou ainda mais. Dobramos a actividade. Houve dias em que triplicamos o movimento de clientes. 

 

A vista para o ilhéu de Vila Franca do Campo deve ser certamente uma mais-valia…

MR – Sim, sem dúvida. Muitas vezes notamos que, por melhor que seja a nossa comida ou os nossos pratos, é pela vista que muitas pessoas vêm. Nos meses mais quentes, preferem esperar até ter lugar na nossa esplanada, em vez de comer na sala interior. Podemos ter a porta aberta até à uma da manhã que aparecerão sempre clientes.

 

Qual o vosso horário de funcionamento?

MR – De inverno, funcionamos das 11h às 16h e das 18h às 21h e encerramos às segundas-feiras. Já na época alta, não encerramos. Estamos sempre abertos, desde as 10h da manhã até à meia-noite. É uma área que exige muito tempo e dedicação. 

 

Já têm clientes habituais?

MR – Sim, entre locais e turistas. Há casos de turistas que vêm cá almoçar ou jantar a semana toda e quando terminam as férias vêm deixar-nos uma lembrança e mantêm contacto connosco através das redes sociais. Há também aquelas pessoas que nestes dois anos vieram a São Miguel várias vezes e que fazem questão de cá voltar. Uma vez estava a cozinhar, um turista inglês entrou pela cozinha para dizer que adorou a comida e foi lá dar-me um beijo! Fiquei muito surpreendida com o gesto. Temos clientes muito gratos e que demonstram muito carinho. Mas não podemos agradar a todos. O “Sabores da Vizinha” está presente no TripAdvisor, no Google Maps, no Facebook e há clientes que deixam algumas críticas menos positivas. Quando isso acontece a nossa preocupação é tentar perceber o porquê da crítica e tentar melhorar ao máximo.  

 

Com que expectativas encara o futuro do “Sabores da Vizinha”?

MR – Até agora tem sido uma boa aposta, por isso se daqui a algum tempo surgir a oportunidade de abrir um novo restaurante vou abrir. Quero expandir o negócio, quem sabe noutras localidades. 

 

Alguma vez pensou que teria o seu próprio restaurante?

MR – Não… Só que sou uma pessoa de ideias fixas e quando tenho algo em mente, vou até ao fim para concretizar o meu desejo. Se formos pelas opiniões dos outros, desistimos pelo caminho. Mas nunca devemos desistir dos nossos sonhos. Se não derem certo, tentamos recomeçar. Deixar de tentar é que não.  A verdade é que ainda hoje tenho dificuldades em lembrar-me que este restaurante é meu, pois considero-me uma funcionária como as outras. Trabalho da mesma forma, tenho as minhas tarefas, tenho o mesmo horário, etc. Claro que vejo o lucro no final do mês, mas não me considero patroa, mas sim mais um elemento da equipa. Felizmente, tenho uma boa equipa e damo-nos todos muito bem. Somos como uma família.