“Violência doméstica” eleita Palavra do Ano 2019

Violência doméstica“Violência” [doméstica] foi eleita a Palavra do Ano 2019, segundo foi ontem anunciado pela Porto Editora, na Biblioteca Municipal José Saramago, em Loures.

A palavra recebeu mais de 20 mil votos, numa votação que terminou no último dia do ano passado. 

Para a presidente da UMAR Açores – Associação para a Igualdade e Direitos das Mulheres, a eleição tem um significado ambíguo, pois ao mesmo tempo que mostra que o fenómeno não passa ao lado dos portugueses, é consequência do aumento do número de casos de violência no país.

“O meu primeiro pensamento sobre a palavra do ano de 2019 foi: ‘que bom!’. É mais uma forma de alertar e quer dizer que há uma maior visibilidade do fenómeno. Esta maior visibilidade pode trazer bastantes contributos positivos para as respostas sociais, para as respostas de acompanhamento, de segurança destas vítimas. Mas há aqui uma ambiguidade”, afirma Maria José Raposo ao Diário dos Açores. “Se nós falamos mais de violência doméstica é também porque o fenómeno está a atingir números deveras preocupantes”, sublinha.

A responsável recorda que, a nível nacional, até ao dia 12 de Novembro de 2019, segundo o Observatório de Mulheres Assassinadas da UMAR, foram 29 as mulheres mortas no nosso país, vítimas de violência, faltando contabilizar o resto de Novembro e o mês de Dezembro. “Mesmo que fosse apenas uma mulher, já seria assunto para nós pararmos e reflectirmos”, alerta.

Maria José Raposo reitera que a eleição da Palavra do Ano revela haver este aumento da visibilidade e que “as pessoas estão a falar mais destes acontecimentos tenebrosos no nosso país”. 

“As pessoas estão mais sensíveis à questão. Aquele ditado que diz que ‘entre marido e mulher não se mete a colher’ já não tem sentido. Não. Entre marido e mulher eu vou meter a colher!”, acrescenta, apontando que além de estarem mais sensíveis face ao fenómeno da violência, “as pessoas sentem-se também mais responsáveis para ajudar”. 

A presidente da UMAR Açores aponta que há também uma maior “indignação” da sociedade perante aquilo a que chama de “mentalidades retrógradas” existentes no sistema judicial. 

“Nós, enquanto portugueses, somos muito benevolentes, pacatos, deixamos as coisas andar, mas sabemos nos insurgir perante situações tristes e avassaladoras a que se assiste a nível judicial, numa sociedade patriarcal que ainda existe no nosso país”, salienta.

A palavra “Violência” [doméstica] obteve 27,7% dos votos, ficando a palavra “sustentabilidade” em segundo lugar na votação, a escassos 0,1% da vencedora. Em 2018, o vocábulo escolhido tinha sido “enfermeiro“.

Uma lista de 10 palavras candidatas foi conhecida a 1 de Dezembro do ano passado, depois de um processo de selecção levado a cabo pela Porto Editora a partir de sugestões de leitores e de uma análise aos termos mais populares na comunicação social, nas redes sociais e nos dicionários online. A votação decorreu até 31 de Dezembro e um dia antes a editora já tinha feito saber que “sustentabilidade” e “violência [doméstica]” competiam lado a lado pelo título.

Com aprovação de 27,7 %, correspondente a mais de 20 mil votos únicos registados no site palavradoano.pt, “violência doméstica” alcançou o estatuto de Palavra do Ano, o que os responsáveis da editora consideraram ser “consequência dos inúmeros casos que foram sendo conhecidos ao longo do ano e que infelizmente resultaram em vítimas mortais”. 

A estatística oficial mais recente, divulgada pelo Governo a 22 de Novembro, indica que 33 pessoas morreram em 2019 em contexto de violência doméstica: 25 mulheres, uma criança e sete homens.

A votação relativa a 2019 ficou assim ordenada: violência doméstica – 27,7%; sustentabilidade – 27,6%; desinformação – 13,8%; jerricã – 7,5%; nepotismo – 5,7%; seca – 4,3%; trotinete – 4,2%; lítio – 4,2%; influenciador – 4,0%; multipartidarismo – 1,0%. A palavra “sustentabilidade” liderou a votação quase até ao último momento, mas acabou em segundo lugar. É interpretada pela Porto Editora como uma escolha resultante da “crescente preocupação que o tema desperta na sociedade portuguesa perante as sérias ameaças que pendem sobre a vida colectiva em consequência das alterações climáticas”. Quanto à terceira eleita, “desinformação”, mostra que “o problema da difusão de informações falsas através das redes sociais não passou ao lado dos portugueses.”