Navio “Malena” chegou às Flores com 86 contentores a bordo

  • Imprimir

navio Malena nas Lajes das flores

O ‘Malena’ atracou no final da manhã de ontem no Porto das Lajes das Flores. O navio, com cerca de 87 metros de comprimento e quatro metros de calado, chegou quinta-feira a Ponta Delgada, onde recebeu a carga com destino às Flores, tendo saído às 18 horas de domingo.

De acordo com uma nota emitida pelo executivo, “nesta primeira viagem, o ‘Malena’ transporta 60 contentores de 20 pés e 15 de 40 pés, cheios, além de oito viaturas e outra carga transportada em ‘flats’, bem como 11 contentores vazios, para transporte de gado”.

Depois de  atracado, o ‘Malena’ começou “imediatamente a operação de descarga”.

O navio foi fretado pelo Governo para colmatar as dificuldades de abastecimento nas Flores, após o furacão Lorenzo ter destruído, no início de Outubro do ano passado, o porto comercial das Lajes das Flores, o que impediu os navios porta-contentores que operam na região de fazerem escala no grupo ocidental. A situação obrigou o executivo açoriano a recorrer a operadores de tráfego local, com recurso a embarcações mais pequenas.

Mas as condições climatéricas adversas  registadas nas últimas semanas impediram que esses operadores marítimos abastecessem as ilhas das Flores e do Corvo, privando a população da ilha de alguns bens essenciais. .

 

Comerciantes serão ressarcidos

 

 No dia em que atracou nas Flores o navio ‘Malena’, o Governo fez aos deputados regionais um comunicado sobre o abastecimento ao grupo ocidental, com a Secretária Regional dos Transportes de Obras Públicas, Ana Cunha, a revelar que os comerciantes florentinos e corvinos prejudicados pela situação serão ressarcidos.

“Consciente da responsabilidade que é atribuída aos comerciantes e de que estes, diariamente, se confrontaram com reduzidos movimentos comerciais e com as dificuldades de transporte, o Governo dos Açores comprometeu-se já a ressarcir os prejuízos comprovadamente sofridos na sua atividade económica, em termos de impacto nos seus resultados líquidos”, afirmou Ana Cunha na assembleia regional, na Horta.

A titular da pasta dos transportes salientou ainda que “os comerciantes do grupo ocidental têm sido os principais interlocutores, com quem o Governo dos Açores tem falado na busca de soluções que facilitem os percursos logísticos das mercadorias essenciais à vida quotidiana dos florentinos e dos corvinos e à dinamização da actividade económica destas ilhas”.

A governante avançou ainda a criação de regime de incentivo financeiro à renovação e ou aquisição das embarcações por parte dos armadores de tráfego local.

“Realçamos a importância que os armadores do tráfego local assumem no abastecimento a estas ilhas, evidenciada quando o Porto das Lajes das Flores ficou impossibilitado de receber embarcações de maior dimensão, e em tantas outras situações devido a condições meteorológicas adversas. Assim, o Governo dos Açores decidiu criar um regime de incentivo financeiro à renovação e ou aquisição das embarcações por parte dos armadores de tráfego local que prestam serviço na Região”, revelou.

Ana Cunha afirmou ainda que o abastecimento feito às ilhas das Flores e do Corvo desde Outubro “foi o possível”.

Segundo referiu, a ilha das Flores “foi sendo abastecida, com limitações, é certo, através do tráfego local, que escalou o Porto das Lajes a 11 e a 16 de outubro, a 2, 7, 13 e 26 de novembro e 8 e 12 de dezembro”.

Já para o Corvo foram realizadas viagens a 18 de outubro, a 4 e a 14 de novembro e ainda a 5 de dezembro, acrescentou.

Aa Cunha apontou ainda o trabalho complementar da SATA no abastecimento do grupo ocidental, recordando o recurso ao navio-patrulha oceânico ‘Figueira da Foz’ e à Força Aérea para o transporte de mercadorias para as Flores.

“Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, dentro dos constrangimentos por todos conhecidos, para que tudo corresse da melhor forma possível”, disse ainda.

 

Voto de protesto do Bloco de Esquerda

 

O Bloco de Esquerda, por sua vez,  apresentou ontem no parlamento um voto de protesto pela “incapacidade do Governo Regional em garantir o abastecimento à ilha das Flores nas últimas semanas de 2019 e nas primeiras de 2020, deixando a ilha com falta de produtos alimentares e bens de primeira necessidade”. 

O voto de protesto mereceu o apoio de todos os partidos da oposição, mas foi rejeitado pelos votos dos deputados do PS. Para o bloquista Paulo Mendes, “embora a senhora secretária regional das Obras Públicas e Transportes tenha afirmado que o abastecimento de mercadorias ao Grupo Ocidental ‘é uma preocupação do Governo todos os dias’, a verdade é que o Governo não tomou as medidas necessárias para evitar a situação de escassez de produtos nos estabelecimentos comerciais que se veio a verificar”.

 

CDS-PP aponta “falha grave” do Governo

 

Já o líder do CDS-PP/Açores, Artur Lima, afirmou que, apesar da urgência na resposta, “passados três meses, ainda não foi reposta a regularidade no abastecimento às Flores e Corvo”. “É uma falha grave do Governo Regional e das várias instituições envolvidas, manifestando uma falta de solidariedade regional e nacional para com o povo das Flores e do Corvo”.

 

PSD: Governo “andou a reboque” dos acontecimentos

 

O líder parlamentar do PSD/Açores afirmou ontem que o Governo Regional “andou a reboque” dos acontecimentos na forma como lidou com os problemas de abastecimento das ilhas das Flores e Corvo, tendo só recorrido às Forças Armadas em “situação extrema”.

“O Governo foi actuando sempre a reboque da posição dos empresários locais e dos partidos da oposição. Só em situação extrema é que reconheceu que era necessário apelar à Marinha e à Força Aérea para reabastecer as ilhas das Flores e Corvo”, disse Luís Maurício, no parlamento.

O social-democrata salientou que a decisão do Governo Regional de solicitar a colaboração das Forças Armadas foi “tardia”, tendo considerado que “faltou eficácia” ao executivo para “atender de forma célere as necessidades das populações” das ilhas do Grupo Ocidental.

 

PS: Malena vai repor “alguma normalidade”

 

Por seu turno, o deputado do PS/Açores Manuel Pereira reconheceu que “nem tudo correu como planeado” no abastecimento do grupo ocidental após a passagem do Lorenzo, mas considerou que com o navio “Malena” “vai ser possível repor alguma normalidade”.

 

Vasco Cordeiro: Tudo o que é possível e necessário “foi, está e será feito”

 

O Presidente do Governo Regional interveio também ontem no parlamento, e garantiu que “foi, está e continuará a ser feito” tudo o que for possível e necessário para assegurar o abastecimento às ilhas das Flores e do Corvo, apesar das perturbações provocadas pela destruição total do Porto das Lajes das Flores.

“Tudo o que pode e necessita de ser feito para minorar os prejuízos e os efeitos provocados pela passagem do furacão Lorenzo foi, está e continuará a ser feito”, afirmou Vasco Cordeiro, ao referir que, face à destruição total do molhe e do cais das Lajes das Flores, é normal que se verifiquem incómodos e perturbações nesta matéria.

Desde 13 dezembro, a ilha das Flores recebeu cerca de 30 toneladas de carga de vária ordem por via aérea e marítima, também com o apoio das Forças Armadas, enquanto o Corvo foi abastecido, desde 05 de dezembro, com cerca de sete toneladas de bens, por via aérea.

Na sua intervenção, Vasco Cordeiro adiantou ainda que, agora que está testada a capacidade de atracagem do navio ‘Malena’ nas Flores, o Corvo poderá voltar a ser abastecido a partir desta ilha, retomando-se, assim, o circuito logístico que funcionava antes da passagem do Lorenzo.

A passagem deste furacão pelos Açores provocou prejuízos estimados em cerca de 330 milhões de euros, destacando-se a destruição do Porto das Lajes das Flores, cuja recuperação está orçada em cerca de 190 milhões de euros, incluindo as medidas provisórias de protecção para a operação portuária, já objecto de procedimento de contratação por parte da empresa Portos dos Açores.