150 anos

AAAOsvaldo Cabral11Faz hoje 150 anos que um pequeno grupo de entusiastas, liderados por Manuel Augusto Tavares de Resende (1849-1892), entrava ansiosamente na Tipografia de Manuel Correia Botelho, na Rua do Provedor nº 6, para imprimir, pela primeira vez, este jornal.

Mantinham todos uma expectativa elevada, com o natural nervosismo de um pai que vê a primeira criança a nascer, cientes de que não tinham os mesmos recursos do “Diário de Notícias” de Lisboa, em quem se tinham inspirado quando apareceu cinco anos antes.

150 anos depois cá estamos, com as mesmas expectativas e com o mesmo entusiasmo dos nossos fundadores, mas com outros recursos e dificuldades diferentes, cumprindo a senda do sucesso que muitos almejaram nesta casa e labutaram ao longo deste século e meio.

Por aqui passaram centenas e centenas de nomes que marcaram a História dos Açores nos últimos 150 anos, rumo a uma luta que não acaba aqui, em defesa dos valores dos Açores, da nossa histórica Autonomia, contra as injustiças, ao lado dos mais carenciados e num escrutínio rigoroso aos poderes constituídos.

Hoje os desafios são outros.

E o maior de todos é manter o “Diário dos Açores” na procura da verdade, sem ceder às modas globais do presente, onde impera muita desinformação e interesses obscuros.

Se ainda há quem procure veracidade nas notícias, ela só pode ser confirmada na comunicação social de qualidade, com profissionais sérios e sob o escrutínio dos reguladores.

O cenário não é igual nas redes sociais, onde é cada vez maior o número de utilizadores que consultam apenas este meio para se informarem (63% da população), sendo que a maioria não consegue distinguir as notícias verdadeiras das ‘fake news’.

Toda esta permeabilidade abre uma caixa de Pandorra, em muitos sectores, mas sobretudo na política, com muitos a aproveitarem-se da ausência do escrutínio, da fragilidade dos média tradicionais e da ignorância dos leitores, para mentirem à vontade e apresentarem os seus factos sem contraditório.

Cabe à sociedade a responsabilidade de assumir a procura da verdade, exigindo da imprensa tradicional um maior investimento na formação dos seus quadros e a apresentação de provas de ‘fact checking’, que dêem maior credibilidade à esfera comunicacional.

Trata-se de um acto de cidadania e, como tal, devem os cidadãos exigir dos poderes públicos uma postura de apoio aos instrumentos que combatem a mentira.

As escolas são um dos veículos essenciais nesse combate, pelo que os média tradicionais devem colaborar assiduamente com os estabelecimentos de ensino, ajudando a uma outra interpretação do mundo, mais séria, mais factual e sem as dúvidas das redes sociais.

O fim da disciplina de jornalismo no ensino secundário foi uma das piores decisões tomadas pelo Ministério da Educação em Portugal, desqualificando ainda mais os alunos e as escolas nesta luta global.

O jornalismo de confiança tem que se impor à fluidez da desinformação que grassa nas redes e, também, nalguma comunicação social sem qualidade.

Em Portugal há um projecto inovador nesta matéria, criado pelo jornal Público já há alguns anos, denominado “O Público na Escola”, que ajuda os estudantes e professores a perceberem a importância e a linguagem dos jornais.

Devia ser replicado em todo o país, incluindo aqui nos Açores, terra histórica em matéria de jornais e comunicação, mas que tem vindo a perder influência à medida que os poderes políticos ganham mais protagonismo e afastam a imprensa do seu papel.

É também do Público, em conjunto com várias empresas nacionais, o projecto de oferecer a alunos de cursos universitários assinaturas de jornais durante um ano (Projecto PSuperior), ao mesmo tempo que promovem conferências e seminários de modo a proporcionar um debate público à volta do exercício de uma cidadania mais esclarecida e mais interventiva.

Nos EUA, a Columbia Journalism Review criou uma plataforma onde replica notícias falsas que circulam nas redes sociais, para ajudar os leitores a distinguirem o verdadeiro do falso, alertando para o perigo das notícias falsas.

Em Portugal, a SIC Notícias criou um programa, O Polígrafo, com efeito semelhante, desmontando as notícias falsas ou a desinformação que circula na nossa esfera nacional.

Colocar o leitor frente a frente com as notícias falsas ajuda a alertá-lo para a corrente de informação que o bombardeia no dia a dia e que pode não corresponder à verdade.

Inês Amaral, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, explica que a principal alteração no que toca ao consumo de notícias por parte dos jovens é na questão do acesso: “Até diria que os jovens consomem mais informação do que consumiam antes, mas o acesso passou a ser feito através do digital, das redes sociais. Agora não vem da procura por informação, mas de um acesso espontâneo”.

E é nas redes sociais que existe terreno fértil para a desinformação e notícias falsas, por não haver mediação, regras, contraditório ou confirmação.

Ao contrário, no bom jornalismo isto não é possível. Combater a corrente é sugerir que os jovens dêem mais atenção aos média tradicionais.

Tem que haver a noção de que quando se quer informação credível e fidedigna, tem que se procurar nos média tradicionais feitos por profissionais credíveis e com provas dadas no jornalismo.

É uma luta e um desafio que deve abranger toda a sociedade. 

Tem sido esta a luta, também, do “Diário dos Açores” nestes novos tempos.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi dos primeiros a compreender e a abraçar esta luta, lançando um repto aos outros poderes públicos, para que se juntem a esta prioridade estratégica: “Tudo o que a sociedade civil possa lançar, animar, suscitar, desde a reorganização de grupos de média, com ou sem estrutura fundacional, à mobilização de mecenato para assinaturas ou estímulos e apoios à comunicação social e, desde logo, à leitura; Passando por acção cívica com incidência no sistema tributário ou solidariedades transversais em campanhas públicas, é bem-vindo, chegando mesmo à imaginação geradora ou apoiante de novos modelos de comunicação social digital, a merecer compromisso estável de apoio por parte de fundações de referência na nossa sociedade”.

E o Presidente da República avisa os que que recusam e estão em negação em relação à crise dos média, que esses vão levar com a crise em cima e em força, porque ela vai chegar a todos.

Na mensagem que escreveu para esta edição de aniversário, o Chefe de estado volta à carga: “(...) numa época, como a nossa, que tem assistido a uma crise sem precedentes da imprensa escrita, facto que, como tenho referido em diversas ocasiões, representa uma grave ameaça ao nosso modo de vida de cidadãos esclarecidos de uma democracia”.

Pôr em marcha uma série de compromissos de apoio à comunicação social não pode ser visto como uma forma de quebrar a credibilidade dos jornais, nem a perda de sua independência e pluralidade, mas um contributo para a cidadania e para uma sociedade mais livre e plural.

Num dos últimos relatórios do Reuters Digital News Report 2019 é dito que Portugal é um dos países onde os leitores mais confiem nas notícias, ocupando o segundo lugar em mais de 38 países analisados.

A imprensa regional, mais uma vez, assume um papel de relevo junto dos leitores portugueses, com um quinto deles a afirmar ter lido alguma publicação local ou regional em formato tradicional.

O relatório diz que a imprensa regional tem maior impacto na Madeira (37,3%), região Centro (21,9%), Açores (21,3%), Alentejo (18,8%) e Área Metropolitana de Lisboa (10%).

Confiar na imprensa regional é um dos maiores desígnios que o nosso jornal sempre perseguiu, trabalhando diariamente (agora o único quotidiano diário impresso mais antigo) para obter dos leitores essa confiança e partilha histórica de 150 anos.

Os que fazem este jornal, desde os seus proprietários a todos os seus trabalhadores, agradecem a confiança dos leitores, anunciantes e colaboradores.

A caminho de mais 150!

 

Por Osvaldo Cabral