“Precisamos da leitura de jornais para conhecermos o mundo à nossa volta”

Ana Gil

Docente de jornalismo e cultura portuguesa na Universidade dos Açores, Ana Cristina Gil, a presidente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Uaç acredita que “os Açores têm muito para dar para o futuro, mas já têm uma memória em termos do jornalismo e do trabalho jornalístico que é admirável”. A propósito dos 150 anos do Diário dos Açores, Ana Cristina Gil deu a sua visão quanto ao mundo actual da Comunicação Social.

 

Diário dos Açores – Numa altura em que vivemos cada vez mais numa aldeia global, com as tecnologias a entrarem em praticamente todas as casas e onde prolifera informação das mais variadas plataformas, como olha para os meios de comunicação mais tradicionais e para a sua posição actual neste mundo globalizante?

Ana Cristina Gil – O posicionamento do jornalismo tradicional deve continuar a ser um posicionamento de muito valor para a sociedade e é bom que a sociedade o reconheça enquanto tal, o que parece-me, tende a não estar a acontecer e é algo por que também pugno que é o reconhecimento dos jornalistas e do seu trabalho.

No caso particular do Diário dos Açores, é um jornal com uma perspectiva regional. O jornalismo regional é muito importante para a informação de proximidade. Se pensarmos em acontecimentos que nos interessam, que se passam nos Açores e que nos implicam directamente, sabemos que este tipo de acontecimentos não pode passar em órgãos de comunicação social nacionais ou internacionais. É de todo o interesse que tenhamos sempre um jornalismo regional, de saúde, com rigor, com seriedade, com certificação das fontes e isso é fundamental. É esse valor que as pessoas devem reconhecer porque, de facto, hoje estamos inundados de informação a toda a hora, no imediato, e em todas as plataformas. Mas, de facto, o grande problema de hoje é certificar a informação, não é tê-la, mas sim certificá-la. Saber se ela é verdadeira ou não. E como queremos saber se é verdadeira ou não, onde é que recorremos? Precisamente ao jornalismo tradicional; aos nomes de referência. No caso dos Açores, vemos, por exemplo, quando há um sismo ou um acontecimento trágico começamos logo a ver nas redes sociais a informação do cidadão comum, mas precisamos sempre da certificação e mesmo nas redes sociais vamos ao Diário dos Açores, ou a outros jornais locais porque sabemos que é aí que está a informação rigorosa, certa e objectiva.

 

Não acredita que a imprensa digital irá dar lugar à imprensa escrita?

ACG – Isso é mais difícil de prever. Contudo já vimos falando nisso há mais vinte anos. Creio que se, de facto, a imprensa digital vier substituir a de papel não será num futuro muito breve. Ainda há gerações muito ligadas ao suporte em papel. Mas entendo que mais importante do que isso está o valor do jornalismo e do jornalista, independentemente do suporte, sendo igualmente muito importante fazer com que as novas gerações percebam essa referência e a necessidade de terem essa referência e de lerem jornais, porque precisamos da leitura de jornais para conhecermos o mundo à nossa volta. Muito daquilo que sabemos é através da comunicação social. Claro, sem esquecer o outro lado, que é o espírito crítico do leitor e saber filtrar aquilo que pode ser enviesado ou manipulado mas isso já entra no campo de literacia para os media que, às vezes, também falta na nossa sociedade.

 

Está directamente ligada às gerações mais novas de jornalistas. Diria que nos dias de hoje os jovens jornalistas são muito diferentes dos de antigamente?

ACG – O que penso que é comum a todas as gerações, seja hoje, seja no passado, é a vontade de comunicar e de perceber como se comunica. É claro que quem aprende hoje a fazer jornalismo, aprende uma série de estratégias e métodos diferentes de antigamente. Até no âmbito da tecnologia existem novas aprendizagens. Hoje pede-se a um jornalista que faça tudo, como seja fazer peças para todas as plataformas, tirar fotos, etc. Antigamente tínhamos um jornalista que executava um trabalho mais seccionado. Hoje pede-se uma muito maior versatilidade aos jornalistas, mas a base ética e profissional continuam a ser as mesmas.

 

O que procuram os jovens que querem esta área na Universidade dos Açores?

ACG – Actualmente temos o Curso de Relações Públicas e Comunicação que, de certo modo, passou a ocupar o lugar do curso de Comunicação Social e Cultura. É claro que nem todos os estudantes que vão para este curso querem o mesmo, mas muitos deles vêm precisamente porque não há o curso de Jornalismo ou Comunicação Social, mas há esta vertente da comunicação nas Relações Públicas. Às vezes os alunos ainda não sabem bem para o que vêm, mas sabem que têm essa apetência para comunicar e depois, ao longo do curso, vão percebendo qual a área que querem efectivamente seguir. No fundo, o que estes alunos têm todos em comum é o fascínio pela comunicação.

 

Acredita na hipótese de um dia deixar de existir jornalistas?

ACG – Não! Precisamos sempre da fonte da informação rigorosa e dos profissionais que procuram essa mesma informação e o contraditório. No fundo, que nos dão aquilo que não temos tempo de procurar e nem o sabemos fazer. Também se dizia que a televisão ia matar a rádio, que o jornal ia matar o livro, agora fala-se que o digital vai matar o papel, mas não acredito que o papel do jornalista possa ser substituído. Acredito que, num futuro remoto, que o jornalismo talvez se vá transformar. Contudo, temos vindo a assistir a tantas transformações; basta pensarmos na internet, aquilo que nos chega por esta via parecia que ia substituir o jornalismo tradicional e no entanto temos o jornal Diário dos Açores a completar 150 anos.

Actualmente já há muitos jornais de referência que optaram apenas pelo digital, no entanto espero que os jornais em papel não desapareçam. 

Importa contudo estar atento às novas gerações que têm uma nova rotina de leitura. Estes jovens querem uma leitura rápida e digital. Neste aspecto entendo que os Órgãos de Comunicação Social têm é que fazer a ponte para chegarem a todos e estarem em todas as plataformas. Servindo quem ainda gosta do papel, onde se incluem também muitos jovens, mas também já garantindo os futuros leitores.

 

Quando fala de jornalismo e de jornais aos seus alunos que referências lhes aponta?

ACG – Sobretudo os fundadores e directores dos jornais são sempre referências que não podem ser esquecidas. Para além disso, importa referir que temos nos Açores muitos bons jornalistas, sejam os actuais como muitos que já se reformaram e que agora dão outros contributos através, por exemplo, da publicação de livros. Os Açores têm muito para dar para o futuro, mas já têm uma memória em termos do jornalismo e do trabalho jornalístico que é admirável. Algo que é sempre de louvar e de passar às novas gerações. 

Em dia de aniversário desejo ao Diário dos Açores e a toda a equipa muitos parabéns. Gostava de deixar uma mensagem de esperança, de alegria, entusiasmo e resiliência. Que mantenha o bom trabalho e que continuem a servir como fazem muito bem todos os açorianos.

 

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