O “meu” álbum de recordações - Por Rubens Pavão

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antigos empregados do DA - 1925

 

Ao preparar esta colaboração festiva que assinala o sesquicentenário do «Diário dos Açores» - hoje o mais antigo jornal diário, em papel, que se publica no nosso país - rendo-me à evidência do tempo que me permitiu chegar a este feliz marco histórico ocorrido na vida portuguesa e açorina.

Não é ainda de esquecer as ligações com as comunidades de emigrantes, então estabelecidas nos Estados Unidos, onde com especial implantação em New Bedford se publicaram edições na nossa língua, bem como funcionaram estações de rádio que muito permitiram que, por largos anos, mantivéssemos uma ligação afectiva e cultural com os núcleos de emigração fixados na costa leste daquele país, num trajecto que ainda hoje se observa.

Por via de meu Pai, o «Diário dos Açores» foi como que a minha segunda casa de acolhimento, tal era a ligação quase familiar que sempre me ligou aos seus mais antigos directores, a muitos dos seus trabalhadores e até colaboradores, pois este Jornal teve sempre uma implantação muito grande em vários sectores da nossa sociedade, incluindo as suas forças vivas. Daí que revendo agora algumas das suas venerandas páginas, (que guardo com especial enlevo), confirmo que o «Diário» mencionou desde sempre nas suas páginas o meu nome: primeiro sinalizando o nascimento, em 22 de Novembro de 1932; e, logo depois, o meu baptismo na igreja de S. José, em 25 de Dezembro, pelo pároco, Padre Adelino de Oliveira, pois era hábito, em anos que se perdem na memória, ver a vida social dos amigos, assinantes e colaboradores, merecerem sempre as honras duma notícia na secção «Dia-a-Dia»…

No decorrer da minha infância, tive ainda o privilégio de contactar diariamente com os dois jornais locais, pois tendo um tio, tipógrafo do «Correio dos Açores», (que enquanto solteiro vivia também na mesma casa da minha avó), ser habitual ouvir falar das notícias veiculadas por esses únicos meios de comunicação que aqui se publicavam e dos principais acontecimentos neles narrados quer a nível local, quer nacional e internacional, sobretudo no período difícil da segunda Grande Guerra. E, quem sabe se não foi já nesse período da minha vida que me despertou aquela vocação que só anos mais tarde vim a desvendar…?

Este Jornal foi ainda como que o meu primeiro manual de aprendizagem da leitura, pois tanto a minha avó como a minha mãe aproveitavam o meu relance de olhos pelas suas colunas, para verificar se já era capaz de juntar as sílabas e formar as palavras…

Suponho que, por volta dos meus 5 ou 6 anos, devo ter entrado pela primeira vez na sua Redacção, sempre situada na Rua da Esperança (depois denominada Rua Dr. Mont’Alverne de Sequeira), onde conheci o Patriarca da Família Carreiro, o senhor Manuel Resende Carreiro, Director e proprietário do «Diário», que como seu sobrinho-neto, foi o continuador do fundador Tavares de Resende, entre 1892 e 1939.

Decerto que o encontrei em outras ocasiões, mas poucas, uma vez que faleceu quando entrei para a escola; contudo, pareceu-me ser daquelas figuras venerandas que logo à primeira vista inspirava simpatia, pois soube contrariar, em afecto, o meu natural feitio acanhado… e, quando nos despedíamos, retirando do colete uma bolsa de prata, presenteou-me com uma moeda em prata de 2$50, o que era pouco comum para o tempo, pelo valor que representava...

Quando os seus filhos Carlos e Manuel ainda completavam em Lisboa os seus cursos superiores, era acompanhado na labuta diária do jornal por colaboradores próximos, como Manuel Pereira de Lacerda, então chefe da Redacção; e ainda um outro que conheci, Manuel de Medeiros e Câmara, que anos depois emigrou para o Brasil, mas que sempre me distinguiu com muita amizade. 

Com o rolar dos anos, consultando os jornais que testemunharam a morte do senhor Manuel Resende Carreiro, pude concluir - que se ficou a dever à sua persistente acção jornalística e humanitária - o facto do «Diário dos Açores» ser considerado um Jornal que sempre se ocupou das causas políticas e sociais que mais afectavam as famílias, abrindo mesmo subscrições públicas sempre que o mar e a terra foram os mais trágicos obstáculos à sobrevivência do nosso povo.

Aliás essa nota de solidariedade chegou mesmo aos Estados Unidos, onde quer em New Bedford quer em Fall River se organizaram várias comissões compostas de luso-americanos, no sentido de angariar fundos para remediar algumas das situações locais.

E, continuando nessa trajectória humanitária, creio que nos finais da década de 40, no auge do pós-guerra, devido às limitações impostas sobretudo à população trabalhadora, registaram-se situações de pobreza, por vezes irremediáveis. Daí que em New Bedford, um grupo de conterrâneos ali residentes – encabeçado pelo nosso conterrâneo Manuel Alves, criou a Sociedade «O Dia Micaelense», angariando centenas de dólares que pessoalmente entregaram aos dois directores deste jornal, para serem eles a distribuir pelas pessoas e instituições mais necessitadas…

Assim, o papel caritativo sempre desenvolvido por este jornal teve, neste gesto tão simbólico, a confirmação de que todo o dinheiro angariado seria criteriosamente distribuído… 

Nessa altura, a exclusão de outras partes «mais oficializadas» nessa partilha trouxe algumas veladas criticas, mas… tudo foi feito com base na experiência já naturalmente demonstrada por este Jornal em o ocasiões semelhantes; e, no fim, as contas foram publicadas com todo o relevo nas nossas colunas. 

Continuando nesta «Memória», recordo ainda que, com a minha entrada, em Outubro de 1939, para a Escola Central de S. José, então situada no Campo de S. Francisco, este Jornal passou também a fazer parte dessa caminhada diária; e, então, parava por mais tempo nas oficinas tipográficas e de obras para aos poucos ir conhecendo mais de perto as pessoas que ali trabalhavam e das tarefas que se ocupavam. Daí ter alargado o âmbito das minhas amizades, que sempre resistiram ao tempo e hoje, para a maioria, são só saudade!

O mais idoso de todos os trabalhadores do Jornal era o sr. Ernesto Costa, (então já naturalmente considerado como «chefe-emérito» das oficinas), ainda do tempo do fundador do Jornal: austero como era natural para a época, mas que me sabia esboçar sempre um sorriso…

Vim a saber que se encontrava à porta da oficina quando se apercebeu que do Campo de S. Francisco lhe soara como um tiro de pistola… e, ao correr para lá, vira um Homem já sem vida a ser levado para o Hospital, por um grupo de pessoas… era o Grande Antero que, sentado no «Banco da Esperança», havia posto fim à vida!

 Nas férias, a minha presença no Jornal era mais assídua; e, com a boa vontade de algumas compositoras (naquele tempo o «Diário» era o único jornal que mantinha mulheres-tipógrafas), ajeitava-me aos altos bancos e punha-me a procurar das caixas de tipo, letra a letra, linha a linha que colocava no galeão, com vista a elaborar um pequeno texto, talvez pensado num futuro jornalinho, mas foi uma ideia que ficou apenas em pensamento…

A senhora Maria Tavares, colega quase do tempo de meu pai, era aquela que melhor me acolhia, mas com certos limites (!), pois ao querer depois distribuir os tipos na caixa de composição ao ritmo que via aos tipógrafos, empastelava-a e era preciso recompor tudo de novo, trabalho que era feito longe das vistas do chefe João de Jesus que não tolerava outros trabalhos que não fossem os estritamente necessários à feitura do Jornal…

Recordo também a azáfama com que vi organizar as edições especiais comemorativas dos centenários de Antero e de Teófilo Braga e dos tipos muito avantajados que compunham em toda a largura da página o elogio de tão ilustres micaelenses.

A Foto Rápida sempre se encarregou de executar as gravuras que ilustraram as nossas edições, combinando meu pai com o senhor José de Melo Araújo (um artista de gravação e de desenho), os espaços que deveriam ocupar. Aliás, aquela casa esteve sempre dentro do meu imaginário de rapaz, pois gostava de ver executar os trabalhos que ali se desenvolviam, – incluindo a fotografia - durante as assíduas deslocações diárias que meu pai empreendia ao contactar o comércio local para conseguir a publicação de anúncios, uma das fontes de receita do jornal. 

 Também nas oficinas do Jornal recordo a figura bondosa do sr. Fernandino, pois tinha a paciência de me guardar os pedaços de papel de cor que restavam dos trabalhos de encadernação para os levar para a escola, a fim de realizar desenhos de recorte e colagem, que muitas vezes também os distribuía pelos meus colegas. 

Durante o tempo que frequentei o Liceu continuei a ter assíduos contactos com o Jornal, mas mais ao nível da sua Redacção, nomeadamente com os seus directores Drs. Carlos e Manuel Carreiro, ambos revelando-se, desde sempre, como meus Mestres não só no Jornalismo, como no aperfeiçoamento linguístico, na forma isenta e correcta como as notícias deveriam ser escritas. Igualmente comecei a aperceber-me de que só assim se manteria um jornalismo correcto, merecedor da credibilidade dos assinantes e do público em geral. Desta forma creio que ampliei muito dos conhecimentos que aprendera no Liceu: das coisas da nossa terra e do mundo; do que devia ser a unidade social e política açorianas; do conhecimento dos valores do seu povo.

 Também não esqueço os mais antigos colaboradores do dia-a-dia: Dr. Oliveira San-Bento, com os seus sonetos celebrativos de efemérides religiosas ou profanas; Silva Jr., com as informações referentes ao turismo e à Sociedade «Terra Nostra»; Dr. Carreiro da Costa, com as suas notas históricas e etnográficas para a sua habitual coluna de «Fim de Semana»; e Dinis José da Silva, utilizando a máquina de escrever, mesmo na Redacção discorria a sua secção habitual «De Relance», sempre muito apreciada por denunciar aspectos de interesse local que era preciso defender.

Em Lisboa: Rebelo de Bettencourt e o Padre Dinis da Luz, constituíam uma ligação estreita com o que se passava país e no mundo, sem esquecer o teatro me outros acontecimentos culturais e religiosos. E, em artigos de reconhecida projecção da política mundial e nacional, também nunca faltava a presença semanal do Almirante Botelho de Sousa. 

Outro colaborador, de imprescindível presença e que muito coadjuvou os já directores Carlos e Manuel Carreiro, foi Alcindo Coutinho, um auto-didacta, quer no jornalismo, quer ainda na comunicação com os leitores, realizando reportagens e entrevistas ainda hoje inéditas, e que muito valorizaram aquilo que considero como uma nova linha editorial do jornal. Apesar de ter deixado o Jornal para seguir a via profissional de pilotagem do nosso Porto, continuou a estar sempre presente nos grandes acontecimentos aqui registados, escrevendo editoriais às vezes de crítica muito contundente sobre problemas que se ligavam com a administração pública, mas sempre de forma muito subtil para fugir à censura... mas, como não eram assinados, a responsabilidade cabia ao editor.

Ainda todos os anos eram da sua autoria a descrição global das festividades em honra do Senhor Santo Cristo, publicadas na nossa edição de 3ª feira; enfim num conjunto de acertos jornalísticos a que me fui habituando a aprender… para futuros casos em que, mais tarde, me vi envolvido. 

Nesta «MEMÓRIA» revejo-me também nas paredes da Redacção recamadas de fotos numa evocação à memória de Amigos e de destacados colaboradores: Tavares de Resende, Manuel Resende Carreiro, Manuel Pereira Lacerda, o faialense Osório Goulart, amigo pessoal de Tavares de Resende, (que já quase centenário o conheci pessoalmente), o Almirante Botelho de Sousa, o historiador Aníbal Bicudo, o Poeta Manuel Augusto de Amaral; o Dr. Aristides Moreira da Motta, o Dr. Mont’Alverne de Sequeira e o Dr. Caetano de Andrade Albuquerque, estes três últimos muito ligados aos primeiros movimentos autonomistas, aliás sempre apoiados pelo «Diário», desde a sua fundação. 

Aliás, os irmãos Carlos e Manuel Carreiro nutriam uma admiração especial pela figura de Aristides Moreira da Mota, seu professor no Liceu e colaborador do Jornal e que anos depois celebrou, com uma edição especial, o centenário do seu nascimento.

Acrescento ainda, como mais uma curiosa e oportuna «Memória Autonomista» deste Jornal desde os primórdios da sua criação, os contactos pessoais que mantive com a única filha de Tavares de Resende, D. Maria do Carmo Carreiro Resende, minha explicadora particular das disciplinas de português, francês e inglês, quando nos tempos livres dessas lições, discorria sobre a sua juventude, por saber do meu relacionamento com o «Diário».

 Já septuagenária - mas possuidora de brilhante memória a que aliava uma cultura humanista muito considerável - falava com muita saudade sobre os breves e felizes momentos passados junto de seu Pai, que a chamava de seu «oficial às ordens», acrescentando que na Redacção do Jornal via quase diariamente figuras como o Dr. Caetano de Andrade Albuquerque, o Conde de Albuquerque, o Visconde da Praia e tantos outros que, em tertúlia amena discutiam os novos e promissores projectos que nos viria a conduzir ao já proclamado «Governo dos Açores pelos açorianos».

Mas deixemos o que foi o meu conhecimento desse passado distante, (que em alguns casos me vi envolvido), para entrar no que chamo «o meu ciclo de vida jornalística…», no «Diário dos Açores», pois essa caminhada representou a minha segunda grande escola saber e de abertura ao conhecimento mais aprofundado da nossa terra, da nossa história, talvez do nosso destino como povo.

Assim, terminado o Curso Geral dos Liceus, frequentei a Escola do Magistério Primário e, após o mês de Julho de 1953, quando terminei o Exame de Estado, tinha completado 20 anos, apresentei-me «oficiosamente» aos meus Amigos, os directores do «Diário», oferecendo os meus serviços, como colaborador, na continuidade dum sonho que sempre acalentara e que sei foi, emotivamente, apoiado por meu Pai.

Aliás, antes já havia elaborado umas pequenas notícias: uma relacionada com um espectáculo de circo; outra sobre a inauguração dum pequeno bar-restaurante na nossa cidade; e ainda outras sobre os dois dos primeiros natais do Gaiato e a «Obra da Rua», ainda instalada na Quinta de S. Gonçalo.

O meu primeiro companheiro dessas lides foi o Manuel Jorge Raposo, então recém-formado em contabilidade pela Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada e ainda possuidor, por distinção, dum curso de estenografia. 

Era um autodidacta no verdadeiro sentido da palavra, pois todo o seu trabalho de muitos anos não se limitou apenas à organização, em novos moldes, de todo o sistema da administração do Jornal, como participou activamente na sua vida redactorial em todas as suas diferentes facetas, incluindo reportagens.

Esse percurso fê-lo um jornalista de grande mérito, apreciado não só pelo que escrevia, mas ainda por uma dedicação sem limites ao Jornal, assegurando mesmo a sua publicação nos mais penosos momentos da sua vida editorial.

Pela minha parte, creio que foi com geral afeição de todos que iniciei esta nova - e bem no meu intimo - auspiciosa tarefa de vida… mas não escondo as responsabilidades pessoais que daí poderiam advir quanto a essa nova ocupação em «part-time», aliás, que sempre sonhara...

(Continuação da pág. 33)

 

Habituei-me a ver trabalhar junto de mim, partilhando a mesma mesa da Redacção, o Dr. Manuel Carreiro, sempre bem disposto para começar um novo dia, a que se juntava também o Dr. Carlos Carreiro, (que estava sempre em casa), trazendo vários recortes retirados dos jornais de Lisboa, sobretudo do «Diário de Notícias», fruto dum trabalho de pesquisa que por vezes ia noite dentro…

Nessa mesa e por obrigação, estava sempre presente o Dicionário e o Prontuário Ortográfico, uma espécie de «tira teimas» para quem escrevia, pois gralhas ou erros de sintaxe, eram coisas que estavam fora da função dum jornalista… e, como revisor, o Dr. Carlos Carreiro era muito exigente!

Daí que notícia ou reportagem que lhe passasse pela mão tinha de primar pela correcção, tanto no seu conteúdo como na sua linguagem escrita. Dizia-me muitas vezes que o Jornal era um meio de transmissão de saber, pelo que os leitores tinham o direito a merecer uma informação correcta na forma como se comunicava.

Aprendi muito com esses conselhos e, ainda hoje, primo por os seguir… 

Quase sempre ao lado, na máquina de escrever, estava o Manuel Jorge, pois já tendo começado pela leitura dos jornais da manhã, iniciava a feitura das primeiras notícias, para a edição do «Diário» ou procurava a confirmação dum ou de outro caso mais em evidência. 

Anos depois juntou-se a este grupo o Couto Alves, cooperando sobretudo nos trabalhos externos.

Quase sempre o Dr. Manuel Carreiro trazia de casa o editorial do dia, que lia ao Irmão, ouvindo-o sobre os prós e os contras que o seu conteúdo teria na aceitação e clarificação dos leitores, uma vez que quase sempre focava assuntos de interesse público, pondo as entidades oficiais numa atitude de alerta, que nem sempre gostavam… e, às vezes, havia que ter em conta «as recomendações» do oficial sensor!

Outros tempos…

A primeira grande reportagem de que fui incubido surgiu em Setembro de 1953, a fim de acompanhar a visita a S. Miguel do Ministro do Interior, Dr. Trigo de Negreiros, um cargo governamental que era considerado como que «os olhos e os ouvidos de Salazar», porquanto era responsável por toda a politica de administração pública, com competência para nomear ou exonerar os governadores civis.

Recordo que naquele tempo tínhamos fraquíssimas estruturas aéreas, sendo apenas a SATA, com os seus pequenos «Doves», a única ligação com Santa Maria e Terceira. Daí que naquela altura se levantava já a reclamada hipótese da construção dum novo aeroporto, em Ponta Delgada que servisse convenientemente os interesses de S. Miguel. E, a visita ministerial tinha precisamente a intenção política de acalmar os ânimos e definir uma posição. 

Nas suas primeiras declarações à Rádio, o Dr. Trigo de Negreiros afirmou que os Açores não podiam ter três Aeroportos, mas que S. Miguel necessitava de possuir uma estrutura capaz de satisfizer os seus interesses sociais e económicos... enfim um acontecimento que só foi resolvido muitos anos depois!

Daí por diante – e porque os horários da minha vida oficial o permitiam – assegurei a presença deste Jornal em muitas outras ocasiões, contactando com Chefes de Estado, ministros, secretários de Estado, directores gerais e entidades oficiais das mais diferentes origens.

Localmente também pude participar em numerosos eventos, quer oficiais quer particulares, o que me proporcionou ter um conhecimento o mais possível aperfeiçoado da situação político-social do distrito de Ponta Delgada e dos sectores industriais e agrícolas que o envolvia.

Enfim, creio que em todo este percurso, actualizei conhecimentos que muito úteis foram para a minha vida como cidadão, educador... e, por vezes, até político.

A Redacção do «Diário dos Açores» era lugar de visita obrigatória de altas entidades oficiais que aqui se deslocavam em serviço ou assumiam cargos públicos ou militares de relevo, manifestando assim uma atitude de cortesia e de respeito pelo percurso centenário do jornal em prol do interesse açoriano.

Assim conheci ainda os actores Vasco Santana, João de Vilarett, Raúl de Carvalho, Brunilde Júdice e Ales da Costa Raúl Solnado, Mariana Vilar, Carlos Wallenstein e outros.

Vitorino Nemésio, sempre que passava por S. Miguel não deixava de cumprimentar os seus amigos Carreiros, com momentos inéditos de conversa...

E, ainda por via do seu considerado quadro de redactores e de colaboradores, de tarde, quando o Jornal já iniciara a sua impressão e as primeiras edições já tinham saído para o correio – de modo a chegar todas as tardes aos seus numerosas assinantes das freguesias rurais, - de novo a Redacção era lugar de tertúlia e de amena cavaqueira sempre com a discussão dos grandes problemas da política local e até nacioinal.

Por vezes juntava-se o jornalista Joaquim Maria Cabral, o Padre Edmundo Manuel, o Dr. Carreiro da Costa, o Dr. Jorge Gamboa de Vasconcelos; e, se o tempo era de férias, Rebelo de Bettencourt e Padre Dinis da Luz.

O Gustavo Moura, responsável pela secção desportiva, também por ali aparecia.

O Dr. Oliveira San-Bento estava também presente; e, ao serão, as suas conversas continuavam, quase sempre antes de passar pela Cervejaria do Eugénio Pereira para tomar um café que dizia lhe era propício ao sono...

E, a janela da Redacção continuava de luz acesa... pois o Dr. Carlos Carreiro tinha sempre mais uma prova a rever ou então procurava minuciosamente mais uma noticia para acrescentar à Secção sempre muito lida dos «3/4 de Século».

Acompanhei-o muitas vezes nesse trabalho, sempre entremeado por uma agradável conversa.

Igualmente sempre me habituei a observar que a linha editorial do Jornal se pautou sempre pela defesa dos direitos da Família e da Doutrina Social da Igreja, valores sempre muito defendidos nos seus escritos pelo senhor Padre Maia. Aliás, quando o venerável Padre Cruz visitou na nossa ilha, teve sempre um apertado relacionamento com o «Diário», por via da missão quem o aqui trouxe a pedido do Bispo D. Guilherme.

Após a comemoração do centenário da sua publicação, o «Diário dos Açores» foi o primeiro jornal a alterar profundamente o seu parque gráfico: primeiro com a introdução do «telétipo» - sistema de teletype do inglês – que imprimia as notícias veiculadas para as edições diárias através de teclado semelhante ao de uma máquina de escrever; depois seguiu-se um outro mais moderno - «o linótipo ou linotype (do inglês): que compunha os caracteres a partir da fundição dos caracteres tipográficos, mas por linha inteiras . Deixou de constituir preocupação para Gil de Oliveira, então chefe das oficinas de composição, que o jornal já composto ao ser conduzido para máquina de impressão caísse e ficasse tudo empastelado...

Se bem que nem sempre fosse do conhecimento público, este jornal manteve sempre uma linha de possível independência com o poder político institucionalizado no país e no então distrito de Ponta Delgada, nunca aceitando quaisquer subsídios que lhe fossem atribuídos.

Contudo, o advento do 25 de Abril trouxe-lhe injustos dissabores, que chegou mesmo a um premeditado assalto às suas instalações, acto abominável que foi impedido com o apoio dum leal grupo de trabalhadores de todas as secções, que passaram a noite em vigília!

O Dr. Carlos Carreiro já muito alquebrado pelo falecimento do Irmão e pela doença que o atingiu, foi conseguindo sobreviver por uns tempos, tendo falecido em 23 de Setembro de 1977.

Naquela altura e já antes já colaboravam na Redacção o Duarte Xavier, (revisor e comentador cinematográfico) e ainda no apoio ao jornal à feitura do Jornal Eduarda e a Isilda (duas auto-didactas de grandes recursos na feitura dum jornal, por sinal vindas da composição). Ainda por ali passou o jovem e promissor jornalista Carlos Tomé. 

Uma referência especial desejo também assinalar neste percurso – o funcionamento da sua secção de obras, sempre muito valorizado pelo trabalho dos seus tipógrafos, o que permitiu que ali se executassem várias obras literárias, nomeadamente editadas pelo Instituto Cultural de Ponta Delgada, nomeadamente as «Saudades da Terra» e a revista «Insulana», para além de outras notícias históricas e literárias.

Daqueles que ali conheci a trabalhar, penso quem um só ainda sobrevive, o Daniel Cardoso, que fixou residência no Canadá e que de vez em quando nos saudamos, pois o resto é só saudade!

Com a morte do Dr. Carlos Carreiro, o Jornal de Família que era o «Diário dos Açores» sofreu os revezes que são naturais a uma 3ª geração, se bem que a Maria Isabel filha do Dr. Manuel Carreiro tivesse durante os anos que se seguiram, assumido a sua direcção, coadjuvada pelos directores-adjuntos Silva Júnior e Eduardo de Medeiros.

Tentou, até que foi capaz - com os prejuízos naturalmente inerentes - assegurar o Jornal dentro da linha de parentesco iniciada com Tavares de Resende, mas os tempos eram outros ... 

Hoje a Empresa «Diário dos Açores» é proprietária, do Jornal com o mesmo título, assumindo a direcção o Dr. Paulo Hugo Viveiros, tendo como directores – adjuntos: primeiro, o jornalista Manuel Moniz e hoje Osvaldo Cabral.

Com esta auspiciosa mudança, o «Diário dos Açores» abriu novos rumos ao seu pensamento editorial, primando por ser um forte baluarte na defesa dos interesses de toda a Região.

Creio que todos os dias o «Diário» procura consciencializar os seus leitores e assinantes para os grande problemas que constituem a sobrevivência do nosso povo, pois fá-lo reflectir sobre o dia que passa e o futuro que se prevê nos reserva...

Relembrar este 150 anos de vida é ter em conta que – apesar das dificuldades com que se depara hoje a sobrevivência dum órgão de comunicação social por maior expansão que tenha – o «Diário dos Açores» sobreviverá, porquanto os quem gerem a sua Empresa sempre estiveram interessados em prestar um dever de cidadania que, neste caso, torna indispensável a sua publicação.

Parabéns a todos que aqui trabalham e um olhar de muita saudade para aqueles nos antecederam!

 

Por Rubens Pavão