Pastelaria “Bolos do Vale” vai apostar na expansão para responder à forte procura por bolos lêvedos

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Abria em 2013, na Rua Dr. Hugo Moreira, em Ponta Delgada, a pastelaria Bolos do Vale, pelas mãos de José Francisco Machado. Com a receita antiga da tia, o empresário decidiu levar a produção do bolo lêvedo, típico das Furnas, para a cidade mais movimentada da ilha de São Miguel, fugindo assim à sazonalidade que afecta a freguesia de onde é natural. Uma aposta ganha, segundo garante ao nosso jornal o proprietário, tendo em conta o crescimento registado na produção. O actual espaço tornou-se pequeno para a elevada procura pelos seus bolos lêvedos, pelo que o próximo passo será a expansão. José Francisco Machado já decidiu que irá reformar-se e deixa agora os filhos, Nelson e Alberto Machado, a orientar a empresa.

 

Diário dos Açores – O que o levou a abrir a Pastelaria Bolos do Vale? Como surgiu a ideia?

José Francisco Machado – Tudo surgiu por volta de 2008 e, em 2010, vim para Ponta Delgada procurar um espaço até que encontrei o actual espaço, na Rua Dr. Hugo Moreira. Mas não o abri logo. Estive cerca de dois anos com isto fechado, sempre com a ideia de vir aqui abrir a pastelaria. Sou das Furnas e tinha um amigo que me incentivava muito e dizia que tinha de abrir algo em Ponta Delgada. Foi assim que comecei a pensar realmente nisso. A minha experiência profissional era na área da hotelaria. Cresci, praticamente, dentro de um hotel e lá fazia de tudo. Trabalhava em várias secções e fui desde ‘groom’ a empregado de mesa. Isso fez-me aprender muito. Além disso, tinha uma tia que, há muitos anos, fazia bolos lêvedos. Por volta dos anos 70, ela veio para Ponta Delgada fazer bolos lêvedos e fê-lo durante seis ou sete anos, mas acabou por ir viver para França com toda a família. Nunca perdemos o contacto e foi a quem recorri para aprender a fazer bolos lêvedos. Fui ter com ela a França aprender a receita que ela já fazia desde os anos 50. Abri então a pastelaria em 2013, tendo como principal produção estes bolos lêvedos, ao que depois se acrescentou a produção de outros doces típicos da nossa terra, como as malassadas, o arroz doce, biscoitos, também fazemos fofas da Povoação, entre muitas outras coisas.

 

E é o senhor quem faz ainda os bolos lêvedos?

JFM – A minha mulher está responsável por todos os outros doces e a minha função é preparar os bolos lêvedos. É esta a minha função. Já estou também a ensinar ao meu filho para que possa dar continuidade à produção dos bolos e com o negócio. 

 

Mas porquê abrir a Bolos do Vale em Ponta Delgada e não nas Furnas, de onde este produto é típico?

JFM – Eu já tive outros negócios nas Furnas e o trabalho é muito sazonal. Imaginemos que, com a pastelaria aberta nas Furnas, eu tinha sob minha responsabilidade os 12 funcionários que actualmente tenho. Durante seis meses, eu sustentá-los-ia, mas nos restantes meses do ano já não teria possibilidade para isso. Teríamos de vir distribuir bolos para outras partes da ilha, mas a logística seria mais complicada. Para lhe dar um exemplo, o meu filho, actualmente, percorre cerca de 60 quilómetros por dia só em distribuição em Ponta Delgada, vindo várias vezes por dia à pastelaria. Ora, se a pastelaria estivesse localizada nas Furnas, perderia muito mais tempo, além do custo ser maior. Isso aliado ao facto de a sazonalidade ser um problema grande nas Furnas, apesar de ter melhorado um pouco com o turismo. Aqui, em Ponta Delgada, estes problemas já não se colocam. Temos, talvez, 10 meses do ano fortes e dois mais fracos. 

 

O que tem de especial a receita dos bolos lêvedos da sua tia?

JFM – A receita é simples. É um pão de leite. Leva leite, farinha, ovos, açúcar, manteiga. Depois, claro, que tem um toque especial e isso não posso revelar. 

 

Como tem corrido a actividade da pastelaria, desde 2013 até ao momento?

JFM – Na altura, criámos uma casa para quatro pessoas, com um espaço pequeno, mas actualmente já somos 12 pessoas a trabalhar aqui. Isso significa que a actividade cresceu muito. O nosso produto está sempre vendido e não podemos fazer publicidade, caso contrário não conseguiremos dar resposta à procura. 

 

Quem são os vossos principais clientes?

JFM – Nós temos aqui a pastelaria, mas fazemos muita distribuição. Temos clientes por toda a cidade de Ponta Delgada e alguns na Lagoa. A nossa aposta é feita, principalmente na restauração e hotelaria, além do comércio tradicional. Não colocamos o nosso produto nas grandes superfícies e isto porquê? Primeiro, porque não temos capacidade, e segundo, porque não queremos. Não queremos ter os nossos produtos nas grandes superfícies porque lá o produto não é tratado da mesma forma. Também mandamos encomendas para Portugal continental, nomeadamente para o Porto e para Lisboa. Trabalhamos sempre sob a forma de encomendas e não aumentamos a produção porque não temos capacidade. Quando chega o verão a procura ainda é maior. 

 

Estamos a falar de uma produção de quantos bolos por dia?

JFM – É difícil quantificar. Podem ser cerca de 2 mil como 3 mil bolos lêvedos por dia. Nunca sabemos, pois as encomendas variam muito. 

 

Como se desenvolve todo o processo de produção?

JFM – O meu dia começa a partir das 4 horas da tarde. É quando começo a preparar a massa que vai levedar para o dia seguinte. Como o próprio nome indica, o bolo lêvedo é um pão que tem de levedar. E faz duas leveduras. A primeira dura cerca de 10 horas e é por esta levedura tão longa que ele se torna tão saboroso. Não se pode fazer um bolo com levedura curta, pois leva manteiga e ovos e, se levar muito fermento, vai fazer mal. Portanto, pouco fermento e longas leveduras, o segredo é este. É um produto sem conservantes, nem melhorantes, ou seja, exactamente como se fazia antigamente. Deixo às 4 horas a massa feita a levedar, depois entra uma pessoa ao serviço à meia-noite e mexe na massa, faz as bolinhas, que ficam a levedar novamente. À uma da manhã entram mais trabalhadores, depois, às 5 horas entram outros, e novamente às 6 da manhã. A equipa está organizada desta forma, de modo a que, pelas 6h30 da manhã, os bolos já estejam distribuídos pelos hotéis. Todos os dias os hotéis têm bolos bem fresquinhos. Começámos a fornecer a hotelaria logo no início da pastelaria. Recebi uma proposta da empresa Bensaude e, desde então, tenho servido os hotéis do grupo. Foi muito bom para o negócio. 

 

Sente, então, que foi uma aposta ganha vir para Ponta Delgada abrir a pastelaria?

JFM – Sem dúvida. Mas agora precisamos de melhorar. Talvez de separar a parte da produção da pastelaria. O espaço  tornou-se muito pequeno, para toda a produção que sai daqui. 

 

Pretendem investir num espaço maior?

JFM – Sim, porque está tudo a crescer na ilha e temos de nos preparar para ter capacidade de produzir mais. Não queremos dar o passo maior do que a perna, mas queremos crescer. A hotelaria está a crescer e haverá alturas do ano em que a oferta de produtos não chegará para todos. Portanto, vamos tentar expandir, sem exagerar. Queremos fazer uma fábrica com características regionais, que nos dê garantias de um bom futuro. 

 

Para além dos bolos lêvedos, o que procuram mais os vossos clientes?

JFM – Estamos agora na época das malassadas e todas as manhãs tem sido uma loucura! Muita gente vem cá buscá-las. O melhor é fazerem encomenda pelo menos no dia antes, pois arriscam-se a cá chegar e já não ter nada. É muito bom sinal para nós. Depois fazemos queijadas de leite, de feijão, bolos, biscoitos… entre outros doces. Aliás, tentamos fazer sempre mais quantidade do que é encomendado. Faço os possíveis para que todos os dias sobrem doces, pois temos sempre um fim para eles. Além de o projecto Zero Desperdício vir recolher o que não foi vendido naquele dia, também os funcionários podem levar. Temos que tratar bem os nossos funcionários. Tento fazer que se sintam em família e dar-lhes valor, para que também dêem valor à empresa onde trabalham, caso contrário as coisas não funcionam. 

 

Na sua opinião, qual é a chave para o sucesso da empresa?

JFM – Muita persistência. Trabalhar dia após dia, sempre com o foco no presente. Há também que haver muito rigor no que se faz. Isso é muito importante. Fazer tudo com o máximo rigor e organização até ao dia em que pensámos “ok, já posso deixar o ‘volante’ ser conduzido por outra pessoa”. É isso que tenho feito. É preciso saber entrar no negócio, mas também saber quando sair.

 

Vai reformar-se?

JFM – Sim, já decidi que vou reformar-me. Passei para a rectaguarda, deixando os meus filhos, Nelson e Alberto, à frente da Bolos do Vale. Não vou sair definitivamente, vou estar sempre por aqui, mas agora a gerência é deles. 

 

O que o futuro reserva para a Bolos do Vale? São boas as expectativas?

JFM – Sim, muito boas. Como já disse, precisamos de um espaço maior. Uma fábrica para aumentar a produção e também um espaço para servir um pequeno-almoço com o nosso bolo lêvedo, oferecendo, por exemplo, bolo lêvedo torrado, da sertã, com queijo, com fiambre, com ovo, etc. Podemos servi-los de tantas formas… Gostava realmente de criar algo com este conceito em Ponta Delgada. Penso que ia atrair os turistas. Aliás, no espaço actual já recebemos para tomar pequeno-almoço alguns turistas, que estão instalados em hotéis aqui perto, e gostam bastante, porque têm oportunidade de comer bolos lêvedos frescos logo pela manhã.

 

Sente-se orgulhoso pelo facto de os seus filhos continuarem o negócio?

JFM - Fico muito satisfeito e realizado. Consegui juntá-los numa empresa que, graças a deus, tem muito futuro e vai dar ainda muitos frutos.