Criado nos Açores programa de apoio para cuidadores informais de pessoas com depressão e bipolaridade

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Encontram-se abertas as inscrições para o programa Self-care to Care. Trata-se de um programa grupal baseado na compaixão e mindfulness destinado a cuidadores informais de indivíduos com transtornos de humor. Esta intervenção destinada a “cuidar de quem cuida” de pessoas que estão sujeitas a sofrimento psicológico, tem um carácter inovador e encontra-se a ser desenvolvida e testada no âmbito de um projecto de doutoramento em Psicologia Clínica pela Universidade de Coimbra, tendo a Universidade dos Açores como entidade parceira e o Fundo Regional para a Ciência e Tecnologia como Entidade co-financiadora do Projecto.

São autores e responsáveis por este programa Joana Moura Cabral, Psicóloga e Doutoranda da Universidade de Coimbra, Célia Barreto Carvalho, Psicoterapeuta e Professora Auxiliar da Universidade dos Açores, Paula Castilho, Psicoterapeuta e Professora Auxiliar da Universidade de Coimbra e Carlos Pato, Psiquiatra e Professor Catedrático da SUNY Downstate Health Sciences University.

À conversa com o Diário dos Açores Joana Moura Cabral explicou como se vai desenvolver este programa.

 

 

 

Diário dos Açores - Em que consiste esta intervenção?

Joana Moura Cabral - O programa Self-care to care é uma intervenção de apoio a cuidadores informais de pessoas com diagnóstico de perturbação de humor. Este programa, tal como o seu nome sugere (Self-care to care), convida e guia os participantes a aprofundarem as suas práticas de autocuidado, experienciando e tomando consciência da sua relevância na redução do stress, desgaste e sobrecarga associados ao processo de cuidar e, por sua vez, na melhoria da sua capacidade de prestar cuidados, melhorando assim o seu bem estar e o do doente. Por outras palavras, a chave deste programa está em auxiliar os cuidadores a cuidarem melhor de si para cuidarem, ainda melhor do outro (seus familiares doentes). 

Deste  modo, este programa tem como principais objectivos ajudar os seus participantes a ampliar a capacidade de autocuidado e de regulação emocional, a partir do desenvolvendo de habilidades de consciência plena (mindfulness) e de autocompaixão e lidar com o impacto negativo da doença e a reduzir a sobrecarga ou a fadiga da compaixão.

 

O que motivou a criação do programa Self-care to care? 

JMC - De acordo com a Organização Mundial de Saúde, as perturbações afectivas (humor) (por exemplo depressão e bipolaridade) estão entre as doenças físicas e mentais que causam maior nível de incapacidade, gerando grande sofrimento não só no doente como nas pessoas que lhes são próximas. Cuidar informalmente de um doente com problemas desta natureza, muitas vezes, implica uma dedicação constante que, por si só, pode ser extremamente exigente e desgastante, especialmente se os cuidadores não possuírem os recursos necessários e não receberem o devido suporte. Apesar de ser reconhecido internacionalmente a importância de se prestar o devido apoio a estes cuidadores informais, no que se refere à realidade da Região Autónoma dos Açores (RAA), em particular, as intervenções disponibilizadas a este nível revelam-se escassas e insuficientes. Assim, de modo a procurar minimizar esta lacuna, propusemo-nos a criar uma intervenção inovadora de apoio a estes cuidadores tendo por base as características e dificuldades específicas dos familiares/cuidadores informais de pessoas com psicopatologia a residir na RAA (inferidas dos resultados de um estudo exploratório, realizado previamente no âmbito deste projecto, envolvendo uma amostra de 120 cuidadores desta natureza de cinco ilhas (Santa Maria, São Miguel, Terceira, Faial e Flores)) e os princípios da Terapia Focada na Compaixão e da atenção plena (mindfulness) que são abordagens de intervenção com múltiplos benefícios comprovados.

 

Quem poderá participar neste programa?

JMC - Este programa destina-se a familiares e/ou cuidadores informais de pessoas com perturbação afectiva. Recomenda-se que os participantes tenham mais de 18 anos e sejam a pessoa que assume a principal responsabilidade pelo doente e preste a maioria dos cuidados e apoio que este necessita, há pelo menos um ano.

 

Os interessados em participar como devem proceder? 

JMC - A participação no programa é gratuita mas as inscrições são limitadas, logo recomenda-se que os interessados em participar inscrevam-se previamente a partir dos seguintes meios: 926658907 | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. | www.selfcaretocare.com

Os interessados poderão inscrever-se durante o mês de Março. 

Os inscritos serão, posteriormente, contactados pela equipa deste projecto para receberem mais informação sobre este programas e confirmar a sua participação. 

Se houver um número de inscritos superior às vagas disponíveis, os indivíduos que não forem chamados a participar nesta edição do programa, ficarão em lista de espera para serem incluídos numa próxima aplicação do mesmo. 

 

Como será desenvolvido o programa com os interessados?

JMC - Os inscritos terão a possibilidade de participar em 8 sessões de grupo, realizadas com o espaço de uma semana entre sessões. Cada sessão terá a duração aproximada de 2 horas.

As sessões serão realizadas aos Sábados de manhã (entre as 10h00 e as 12h00), numa sala (a definir) em Ponta Delgada. 

Em cada sessão serão trabalhados temas relacionados com as experiências próprias de cuidar de uma pessoa com perturbação de humor, através de actividades e metodologias diversas (como por exemplo psicoeducação; dinâmicas de grupo; reflexões individuais; práticas formais e informais de cultivo da mente compassiva; exercícios experienciais de atenção plena (mindfulness) e partilhas de experiências entre os participantes).  

O programa será ministrado por técnicos(as) devidamente qualificados (psicólogos(as). 

 

Em que âmbito se enquadra esta iniciativa? 

JMC - A intervenção Self-care to care encontra-se a ser desenvolvida no âmbito do projecto de doutoramento em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Contando com o apoio da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade dos Açores, da ANCORAR- Associação para a Promoção da Saúde Mental. Este projecto é cofinanciado pelo Fundo Regional para a Ciência e Tecnologia, através do Eixo Prioritário 10: “Ensino e Aprendizagem ao Longo da Vida”, do programa AÇORES2020, por reconhecer a sua pertinência, o seu carácter inovador e os contributos que poderá trazer no campo da saúde mental na RAA. 

 

Quem são os autores e responsáveis deste programa? 

JMC - O desenvolvimento, aplicação e análise da eficácia do programa Self-care to care será realizada pela doutoranda e psicóloga Joana Moura Cabral, sob a orientação científica de Célia Barreto Carvalho (Psicoterapeuta e Professora Auxiliar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade dos Açores); de Paula Castilho (Psicoterapeuta e Professora Auxiliar da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade de Coimbra) e por Carlos Pato (Psiquiatra e Professor Catedrático da SUNY Downstate Health Sciences University).

 

Referiu que é um programa baseado na compaixão e mindfulness, o que vos levou a recorrer a esta abordagem de intervenção? 

JMC - Optamos por desenvolver um programa baseado nos princípios do estar no presente com consciência plena (mindfulness) e compaixão dirigido à sobrecarga e fadiga do cuidador, inserido nas terapias cognitivo-contextuais, por existirem evidências científicas de que esta abordagem é eficaz na redução do stress e na melhoria do bem-estar social e emocional de cuidadores de doentes com outras patologias. Para além disso, este tipo de terapias disponibilizam um conjunto de ferramentas que, no nosso entender, estão entre as mais adequadas para dar respostas às dificuldades identificadas no público a que se dirige (é o caso, por exemplo da incapacidade de lidar com a sensação de impotência perante o sofrimento vivenciado pelo doente de quem cuidam; as incertezas em relação ao futuro do doente; o sofrimento e o stress provocado pelas recaídas e/ou pela não adesão do doente ao tratamento (dados extraídos do estudo exploratório referido anteriormente)). 

As componentes deste programa incidirão na aprendizagem de competências de compaixão e minfulness, visto que as mesmas, tal como pretendemos com este programa, facilitam o desenvolvimento de competências adaptativas de regulação emocional, que sejam alternativas a processos desajustados que geram sofrimento ao cuidador e se reflectem no estado de saúde do doente.

 

Sendo um programa de carácter inovador, quais as suas expectativas quanto à adesão e aplicação na prática?

JMC - Os cuidadores informais deste tipo de doentes estão tão desprovidos de apoio que é expectável que haja uma grande adesão a esta intervenção. O facto de ser uma intervenção de cariz inovador, pensamos que poderá favorecer a adesão dos participantes visto que será uma oferta de apoio diferente de outras disponíveis (que já possam ter beneficiado). Para além disso, trata-se de um programa feito à medida, isto é criado no sentido de ir ao encontro das especificidades do público a que se dirige, o que aumenta a possibilidade de responder às necessidades e dificuldades sentidas pelas pessoas que se inscreverem neste programa. 

Da experiência que temos na aplicação de outros programas de apoio a cuidadores informais em que estivemos envolvidos, a adesão dos participantes é muito boa (tanto pelo número de participantes que se inscrevem, como pela forma como se envolvem) e os resultados são visíveis. Exemplo disso é o facto de alguns dos participantes do ANCORAGEM – Programa psicoeducacional dirigido a familiares/cuidadores informais de indivíduos com esquizofrenia (desenvolvido, aplicado e testado por dois elementos desta equipa) terem-se oferecido para colaborar, na promoção e divulgação do programa Self-care to care, por pretenderem contribuir para que outros familiares/cuidadores informais tenham a oportunidade de serem apoiados como eles foram.

 

Que mais-valias este programa pode trazer a quem nele participar?

JMC - Espera-se que os participantes do Self-care to care adquiram competências que os permitam melhorar os seus comportamentos de autocuidado e a sua capacidade de gerir emocionalmente as dificuldades e vicissitudes próprias do processo de cuidar. Deste modo, é expectável que este programa contribua para que os seus participantes se tornem mais aptos a desempenhar o papel de cuidadores, o que poderá traduzir-se em diversas mais-valias para os doentes de quem cuidam. 

 

Qual a importância da participação neste programa?

JMC - Em primeiro lugar é importante as pessoas aproveitarem a oportunidade de participar neste programa para usufruírem dos seus benefícios. Adicionalmente, a participação nesta edição (piloto) do programa será determinante para procedermos ao aperfeiçoamento e validação desta intervenção, para posteriormente ser aplicado a outros cuidadores. Pelo que, apelamos aos leitores que nos ajudem a “cuidar de quem cuida” inscrevendo-se ou divulgando o Self-care to care junto de possíveis interessados. 

 

Depois desta iniciativa outras se seguirão, quais?

JMC - Após aplicarmos e testarmos a eficácia do programa Self-care to care, pretendemos descrevê-lo num manual clínico estruturado, facilitando, assim, o processo de disseminação desta ferramenta. A manualização deste programa permitirá que o Self-care to care possa ser aplicado por outros profissionais da área, permitindo que a comunidade açoriana em geral e outras populações externas à RAA, possam beneficiar das potencialidades desta intervenção. 

Uma vez que este programa é inovador e será sujeito a um estudo de validação empírica, pretendemos, ainda, produzir conhecimento relevante e inovador para a comunidade científica, divulgando os resultados parciais e globais desta intervenção como em encontros científicos e em artigos publicados em revistas científicas da área.

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