Entre 450 a 500 açorianos recorreram à cirurgia para tratar a obesidade, nos últimos 15 anos

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Margarida Andrade - médica cirurgia geralOs números relativos à obesidade nos Açores têm seguido uma tendência de diminuição, mas não deixam de ser preocupantes quando comparados com o resto do país. Segundo o Inquérito Nacional de Saúde com Exame Físico (INSEF), a população adulta com obesidade no arquipélago atinge os 33,8%, enquanto a nível nacional a percentagem situa-se 5 pontos percentuais abaixo, nos 28,7%. 30,5% dos açorianos estará em risco de obesidade.   

Em declarações ao Diário dos Açores a propósito do Dia Mundial da Obesidade que hoje se assinala, a médica de Cirurgia Geral Margarida Andrade realça que “estes números na Região já estiveram mais altos, mas não deixam de ser preocupantes, porque estão mais elevados do que a nível nacional”. 

A especialista é responsável pela equipa cirúrgica do tratamento da obesidade no Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), em Ponta Delgada, que foi implementada em 2005. Cerca de 15 anos depois, já recorreram à cirurgia bariátrica cerca de 500 doentes. 

“Desde que começámos a trabalhar, em 2005, já operamos cerca de 450 a 500 doentes aqui no hospital”, revela, explicando que o serviço tem vindo a evoluir ao longo do tempo.

“Começámos com as bandas gástricas, depois evoluímos rapidamente e a partir de 2008 passamos a fazer, de forma sistemática, outras cirurgias mais avançadas como o bypass gástrico, a gastrectomia vertical e o mini bypass. Ou seja, evoluímos para métodos cirúrgicos mais complicados que vão além da banda gástrica, que é um método já menos utilizado”, revela a médica. 

Antes de chegar à cirurgia, a situação do doente é primeiro avaliada pelos nutricionistas. “Nos centros de saúde, os nutricionistas podem sinalizar os doentes com mais riscos e com obesidade mórbida, que se identifica quando o IMC (índice de massa corporal – relação entre peso e altura) está acima de 40. Independentemente de terem outras doenças associadas, caso tenha um IMC acima de 40, já podem ser operados”, frisa Margaria Andrade.

Com um IMC entre 35 e 40, explica ainda, “podem ser operados aqueles que tenham doenças que estão habitualmente associadas à obesidade, como a diabetes, hipertensão ou a dislipidemia, que tem a ver com o colesterol, para além de outras doenças de ortopedia ou apneia do sono”. 

A médica realça que a cirurgia da obesidade é também chamada de cirurgia metabólica “precisamente por tratar as doenças metabólicas associadas à obesidade, que são a diabetas dislipidemia e a tensão alta”. Margarida Andrade salienta, a este propósito, que nos Açores a diabetes tem também uma incidência “muito elevada”.

Após sinalizado nos cuidados primários, os doentes são encaminhados para o HDES para serem acompanhados equipa cirúrgica do tratamento da obesidade, que se distingue pela multidisciplinaridade que apresenta no tratamento da doença crónica.  

“A equipa engloba um nutricionista, um endocrinologista, também temos apoio da gastroenterologia para exames gástricos, da psicologia e da cirurgia geral. Há ainda um acompanhamento a nível do planeamento familiar, pois há muitos doentes novos que carecem deste apoio antes, durante e após a cirurgia. Recentemente, passamos a ter também apoio ao nível da fisioterapia, da Medicina Física e Reabilitação”, realça a médica.

“No hospital, os doentes são avaliados pela endocrinologia, por uma psicóloga, pela nutricionista e após avaliados todos os parâmetros é que se verifica se há condições ou não de avançar”, acrescenta.  

As cirurgias para redução de peso podem ser realizadas a pacientes entre os 18 e os 65 anos de idades, mas segundo avança ao Diário dos Açores, a maioria pertence a uma faixa etária mais nova.

“Maioritariamente são novos. Temos muito poucos doentes acima dos 60 anos de idade. O ‘grosso’ das cirurgias regista-se em pessoas com idades entre os 20 e poucos anos e até aos 50 anos”, sublinha. 

A especialista realça que a aposta na prevenção é muito importante, destacando que “muito tem sido feito na região a esse nível”. “Uma das medidas que foram implementadas na área da endocrinologia foi o colocar um nutricionista em cada centro de saúde dos Açores. Na perspectiva de cuidados primários, foi uma medida boa para trabalhar no combate à obesidade”, referiu, salientando ainda o facto de a obesidade infantil ter registado um decréscimo.

 

Redução da esperança de vida

em cerca de 3 anos

 

Na média dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) e da União Europeia, entre 2020 e 2050 o excesso de peso e as doenças associadas vão reduzir a esperança de vida em cerca de 3 anos. Em Portugal, a estimativa aponta para uma redução de 2,2 anos nesse período, segundo o relatório The Heavy Burden of Obesity: The Economics of Prevention, que a OCDE divulgou recentemente.

Segundo destaca a Sociedade Portuguesa Para o Estudo da Obesidade (SPEO) num comunicado divulgado ontem, a obesidade tem um “enorme impacto na saúde”, estando associada a mais de 200 outras doenças e cerca de 13 tipos de cancros, “sendo ainda responsável por alterações musculoesqueléticas, infertilidade, depressão, diminuição da qualidade de vida e mortalidade aumentada, o que faz com que represente também um grande “fardo” do ponto de vista económico, pelos seus custos directos e indirectos”. A SPEO aponta a doença como “complexa e multifactorial” e como “um dos principais problemas do século XXI, tendo já atingido proporções epidémicas”.