“Vamos ter um rombo económico, não sabemos a sua dimensão”

Mario Fortuna - novaMário Fortuna, Presidente da Câmara do Comércio

 

As medidas anunciadas ontem pelo Presidente do Governo dos Açores, agravadas pela decisão dos EUA em proibir voos da Europa para aquele país, indiciam que vamos ter um rombo bastante forte no turismo e na economia este ano?

MF - O rombo económico já estava garantido. 

Não sabemos, no entanto, qual será a sua dimensão. 

Esta dependerá da reacção das pessoas, que se teme ser de grande retracção, e da duração da situação, uma variável muito incerta. 

Ainda não há evidência suficiente para se determinar o ciclo exacto de acção do vírus e daí a incerteza quanto à duração da crise que lhe está associada.

O melhor cenário seria o de viragem antes do verão e recuperação a partir daí. 

O pior será o de um ciclo de recuperação que não produza efeito este ano.

 Vamos acompanhar as novidades dia a dia para poder aferir.

 

E a SATA como fica no meio disto tudo? Outro rombo? 

A SATA fica, naturalmente, afectada de forma muito negativa com o encerramento da rota dos EUA e com as quebras nas rotas com o resto do país. 

É mais uma contrariedade com a qual teremos de lidar. 

 

Vem aí mais desemprego, sobretudo no sector do turismo e restauração?

É o expectável. 

Certamente que haverá medidas de mitigação do fenómeno mas ele será de tal forma alargado que dificilmente se estancará todo o impacto. 

Estimamos que os empregos directos e indirectos do turismo montavam a cerca de 20.000. 

Esta será a base mais directa de incidência da crise que se está a esbater sobre nós. 

Estes valores incluem desde os agentes de viagens aos animadores turísticos, passando por transportes aéreos e terrestres e por hotéis, restaurantes e uma miríade de serviços associados a este “cluster”.

 

E as pessoas que apostaram tanto no alojamento local, nas restauração e noutras empresas familiares, recorrendo à banca, como vai ser?

O Governo da República já anunciou algumas medidas que ajudam a manutenção do emprego, como o lay-off, e a tesouraria necessária para fazer a ponte entre a situação actual e a situação de retoma da normalidade. 

Os Açores deverão tomar medidas próprias para este efeito também. 

É preciso ajudar a manter a capacidade instalada atual a fazer a ponte entre o que era antes desta crise e o que será depois da crise, que esperamos seja a retoma da tendência que existia até ao final de 2019.

 

O que é que se espera de políticas públicas para mitigar a crise?

Das políticas públicas já temos os anúncios nacionais no campo laboral e no campo financeiro. 

Algumas já se aplicam cá. Iremos analisar as circunstâncias que estão criadas para determinar que outras medidas poderão ser necessárias mas será de esperar que, na generalidade, elas se centrem na tesouraria e na manutenção do emprego.

 

O pior ainda está para vir?

Parece que sim porque até ao final de Fevereiro as expectativas dos viajantes ainda estavam normais. 

A grande retracção começou em março, que ainda nem vai a meio, com cancelamentos por um lado e a travagem de reservas, por outro. 

O cenário para a frente, com tanta incerteza já não era bom. 

Os últimos anúncios do Governo dos Açores e do Governo dos Estados Unidos, na salvaguarda de aspectos de saúde pública, aprofundam esta tendência consideravelmente.

Para além disso, ainda não há uma evidência clara nos locais iniciais de incidência do vírus de uma viragem evidente da sua propagação e impactos.

Sabendo isto, vamos ter de ter muita paciência e prestar muita atenção às circunstâncias económicas e sociais que daí advêm.

 É preciso lembrar que estes são efeitos externos que nos assolam de forma indelével. 

Temos de ser rápidos e oportunos na sua leitura e na preparação de soluções médicas, económicas e sociais. 

Por esta razão foi constituído um grupo de acompanhamento da evolução dos impactos económicos, o qual actuará a partir da próxima segunda-feira. 

O momento não é de pânico mas sim de  lucidez para seguir o rumo mais adequado e menos doloroso para a economia e para a sociedade.

 

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