“Com a restauração encerrada, diminui mais de 70% o movimento das peixarias”

Goraz1A evolução do surto do Covid-19, que levou Marcelo Rebelo de Sousa a decretar na quarta-feira o estado de emergência em Portugal, está a mexer com todos os sectores da economia e a pesca não é excepção.

Em São Miguel, as peixarias já estão a sentir os efeitos desta crise e os proprietários queixam-se de uma diminuição drástica nas vendas. Os principais compradores locais de peixe – os restaurantes – estão encerrados e com a necessidade de as pessoas se manterem em suas casas, os clientes que se deslocam às peixarias são escassos. A tudo isso alia-se ainda a desvalorização – também drástica – do preço do pescado.

O cenário é traçado ao Diário dos Açores por um responsável de uma peixaria da freguesia de São Roque, concelho de Ponta Delgada. Apesar de compreender que a saúde pública está acima de tudo, não deixa de lamentar as fortes quebras no seu negócio. 

“As vendas não estão como eram antes. As pessoas estão com receio de sair de casa e acho bem, mas as vendas estão a baixar drasticamente”, diz Ludgero Moniz em declarações ao nosso jornal. 

“E houve uma baixa muito grande no valor do pescado de alto valor. Se compararmos com os preços de há duas semanas, vamos perceber isso. Alfonsim, boca negra, peixão, goraz… este tipo de peixe de mais valor sofreu uma baixa muito grande”, revela.

O responsável revela ainda que o encerramento dos restaurantes é a maior preocupação: “com a restauração encerrada, pára mais de 70% do movimento das peixarias”.

O lado positivo é que tem havido mais peixe para venda ao público em geral. “Temos muito mais peixe disponível”, garante. Mas com as pessoas a não saírem de casa, a alternativa encontrada é a entrega no domicílio. 

“Vamos fazer entregas ao domicílio durante a manhã, entre as 9h e as 12h30, e depois vamos encerrar a peixaria”, explica Ludgero Moniz. 

O mesmo panorama é traçado por Mariano Vieira, também proprietário de uma peixaria na Ribeira Grande. “O valor do peixe teve uma quebra enorme. Comprava o peixe caríssimo e agora está a metade do preço”, dá conta ao Diário dos Açores.

“Comprava-se o boca negra a 10 ou 11 euros e agora desceu para os 5/6 euros. O mesmo com a abrótea. O peixão também estava a valer entre 13 e 15 euros e já desceu para 3 ou 4 euros… Tudo desceu”, frisa o comerciante de peixe.

Mariano Vieira também encontrou nas entregas ao domicílio uma forma de compensar a falta de clientes na peixaria: “as pessoas ligam para fazer as encomendas e nós vamos levar a casa delas. É uma forma de nos safarmos de alguma forma no negócio. Se não for assim, não vendemos”, afirma. 

 Segundo diz, toda a situação tem se agravado “nas últimas semanas” desde que se intensificaram as notícias sobre o surto do novo coronavírus e com as medidas que têm sido adoptadas pelo Governo Regional. 

No seu estabelecimento, diz que tem reforçado as medidas de higiene e a entrada de clientes está limitada a dois de cada vez, “tal como acontece em todos os estabelecimentos”, e não esconde a preocupação. 

“Os restaurantes estão todos encerrados. Esta manhã já fui levar peixe a uns particulares a Ponta Delgada e vi que está tudo fechado. Os restaurantes, cafés, esplanadas… tudo fechado. Dá para ficar assustado... Ponta Delgada está deserta. Não tem ninguém. Na Ribeira Grande está igual… A situação é preocupante não só para o meu negócio, mas para todos”, afirma Mariano Vieira.

A preocupação com o negócio não se sobrepõe, no entanto, à preocupação com a saúde. Na opinião de Ludgero Moniz, as dificuldades no negócio são um preço que está disposto a pagar em prol da sua saúde: “Eu estou muito mais preocupado com a minha saúde, da minha famílias, dos meus funcionários e das pessoas em geral. E se tivermos que ter uns meses menos bons no negócio… que seja. Veremos como vai correr no futuro”, afirma.