“Estamos a viver momentos de grande preocupação no Hospital”

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“Estamos a viver momentos de grande preocupação aqui no Hospital do Divino Espírito Santo e é preciso que alguém ponha mão nisto antes que fique descontrolado”.

Este é o desabafo de um profissional de saúde do HDES, em contacto  ontem com  o nosso jornal, depois de terem conhecimento de mais três casos positivos entre profissionais de saúde daquela unidade.

A mesma fonte garante que não há equipamentos de protecção para todos e que começam a escassear em várias unidades do hospital.

O Presidente da ordem dos Enfermeiros dos Açores, Pedro Soares, confirmou ao nosso jornal as preocupações existentes no Hospital de Ponta Delgada, revelando que “há muitas queixas por parte dos enfermeiros, várias denúncias de casos concretos, inclusive começam a colocar nas redes sociais as suas preocupações, porque principalmente no HDES simplesmente o material é escasso e em alguns casos demora a aparecer.”.

“Temos noção que adquirir o material no mercado está impossível, mas teremos de arranjar alguma solução. Eu já alertei várias vezes a senhora Secretária Regional  da Saúde, que me responde que o HDES tem material, mas, segundo os relatos, no terreno ele não aparece”, denuncia o Presidente da Ordem dos Enfermeiros.

O Serviço de Urgências terá sido o primeiro a sofrer essas faltas,  “mas neste momento já começa a generalizar-se; temos denuncias das Medicinas e de outros serviços”, acrescenta  Pedro Soares.

 

Demissão na Anestesia?

 

Fonte hospitalar contou ao nosso jornal que o contágio de um anestesista e dois enfermeiros terá sido através de um doente que veio da ilha Terceira para ser operado.

“A Directora do Serviço de Anestesia tinha proposto que a equipa se deslocasse à Terceira, mas não foi aprovado”, relata ao nosso jornal a mesma fonte, “pelo que a Directora agora demitiu-se”, informação que não conseguimos confirmar ontem junto da administração do hospital.

“Todos os doentes admitidos deveriam ser considerados potenciais covid 19 e ter uma abordagem de acordo com a situação. Há falta de equipamento de protecção e máscaras”, afirma ao nosso jornal outro profissional de saúde, acrescentando que “ainda ontem fui levar as únicas 7 de 10 que tinha comprado a uma pessoa e mandei fazer  mais 15 de pano, que tenho usado”.

O Presidente do Governo Regional dos Açores disse ontem que as informações que possui é que não faltam equipamentos e não acreditava que alguém lhe estivesse a mentir.

“É muito fácil: o Sr. Presidente que ligue para cada um dos Serviços do HDES e pergunte qual é a situação”, avança o profissional de saúde.

À Ordem dos Enfermeiros têm chegado relatos de profissionais em desespero, por causa da falta de equipamentos.

Um deles relata um episódio ocorrido no centro de Diálise, onde há utentes do concelho da Povoação, que, agora , decorrente da hemodiálise, o Enfermeiro tem de estar equipado apropriadamente com os EPI’s que estão preconizados . 

“Acontece que ontem não haviam EPI’s e o colega recusou, e bem, avançar sem protecção, pelo que foi prontamente apoiado por toda a equipa presente. Decorrente dessa falta de material, os 3 utentes previstos para efectuarem o seu tratamento de hemodiálise tiveram de esperar 3 horas na carrinha que os transportou até termos o material de protecção que precisávamos e teve de ser a chefe da equipa de Enfermagem a ir pressionar e obter o material ela própria”, diz ao nosso jornal Pedro Soares.

 

Ordem dos Enfermeiros preocupada

 

Entretanto, a Secção Regional dos Açores da Ordem dos Enfermeiros emitiu ontem um comunicado confirmando que acompanha “com preocupação a situação atual nos serviços de saúde da Região, em especial tendo conta dos vários relatos e denuncias que chegam diariamente relativo à falta de Equipamentos de Proteção Individual em algumas Instituições, em alguns serviços”.

“A nível regional observa-se um número crescente de profissionais afectados, fazendo perigar a resposta que se quer adequada, atempada e articulada, em especial na fase que nos encontramos”, lê-se na nota assinada por Pedro Soares.

“Tendo por premissa que as intervenções de enfermagem são realizadas com a preocupação da defesa da liberdade e da dignidade da pessoa humana e do enfermeiro julgamos urgente garantir o quanto um reforço dos equipamentos de proteção para todos os profissionais de saúde, em todas as valências” afirma Pedro Soares, Presidente da Secção Regional da Ordem dos Enfermeiros.

“A Ordem dos Enfermeiros compreende da dificuldade em adquirir o material em quantidade devido a constrangimentos do mercado, não pode é deixar de alertar a urgência em que o material cheque e seja distribuído o mais rapidamente possível”, acrescenta, sublinhando que “a falta destes equipamentos cria questões de segurança não só para os Enfermeiros mas também para os utentes. Os Enfermeiros estão com as populações e todos são precisos, não podemos ter enfermeiros infetados em grande número na Região”.

Para Pedro Soares, “os açorianos devem continuar a colaborar e ter toda a confiança nos Enfermeiros do nosso Arquipélago, estamos preparados e ao lado das populações, não iremos deixar ninguém sozinho.”

“A Ordem dos Enfermeiros e os seus membros encontram-se, como até aqui, disponíveis para colaborar na mitigação dos efeitos sentidos, desenvolvendo todos os esforços necessários em defesa da saúde individual e pública, e em particular dos profissionais envolvidos”, conclui a nota.

 

Faltam os testes

 

Outra crítica às autoridades de saúde dos Açores é a não realização de testes aos profissionais de saúde, sobretudo os que estão na linha da frente.

A Ordem dos Enfermeiros dos Açores já tinha alertado que se deve iniciar “urgentemente a realização de testes, em tempo útil”, a “todas as equipas” e profissionais de saúde que asseguram cuidados no âmbito da Covid-19.

A Ordem nos Açores diz ter apelado à tutela no sentido de se “iniciar urgentemente a realização de testes, em tempo útil, a todas as equipas que neste momento asseguram cuidados”.

Para a entidade, é preciso dar também início à realização de “testes periódicos a todos os profissionais, em particular aqueles que se encontram em áreas mais críticas da prestação, como sejam os lares, centros de diagnóstico pneumológico, serviços de urgência, serviços de infeciologia e de cuidados intensivos e áreas dedicadas à Covid-19”.

Para este efeito, e de forma a garantir a eficácia da decisão, a Ordem sugere que “os testes periódicos sejam realizados quando as equipas de profissionais fazem a rotação de descanso, devendo o teste ser feito no dia imediatamente anterior ao do seu regresso ao serviço, o que permitiria reduzir o risco de transmissão a outros profissionais e doentes”.

“A atual situação tem sido motivo de instabilidade e angústia entre os profissionais já diretamente abrangidos”, pelo que “urge cumprir a determinação da Organização Mundial de Saúde (OMS), começando por testar todos os profissionais”, afirma a Ordem dos Enfermeiros dos Açores.

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