
Numa altura em que se mantém encerrada grande parte dos estabelecimentos de restauração da ilha de São Miguel, devido à pandemia covid-19, o projecto de solidariedade “Zero Desperdício” deixou de poder contar com a maioria dos seus fornecedores de excedentes alimentares, para distribuir por pessoas carenciadas.
“Damos alimentos às pessoas que deles necessitam com as sobras dos restaurantes, estabelecimentos de take-away e dos hotéis. Mas, tal como é do conhecimento geral, tudo isto, neste momento, está fechado”, frisa Leonor Anahory, presidente da Associação de Seniores de São Miguel, ao Diário dos Açores.
Segundo conta, “quase tudo encerrou e, quando entrámos no estado de emergência, não havia rigorosamente nada”. Uma situação que gerou grande preocupação junto dos voluntários que desenvolvem a iniciativa. “Ficámos preocupados, aflitos e angustiados, porque os nossos beneficiários, de uma forma geral, alimentam-se na dependência daquilo que recebem do nosso projecto”, relata.
Cerca de 70 açorianos de freguesias do concelho de Ponta Delgada recebem, diariamente, uma refeição através desta iniciativa, criada pela Associação de Seniores de São Miguel, que nestes últimos meses foi obrigada a repensar a sua estratégia. Em vez de recolher excedentes dos restaurantes, passOU a contar com a colaboração de produtores locais.
“Tivemos que dar uma volta: com o apoio da Associação Terra Verde, de alguns produtores do ‘nosso’ mercado da Graça, e também com o apoio da empresa ‘Servicater’, conseguimos dar refeições diariamente, incluindo feriados, sábados e domingos. A empresa faz 50 litros de sopa diariamente com os produtos frutícolas que nós recolhemos juntos dos produtores que nos apoiaram que depois são distribuídos”, explica a responsável.
Há ainda a colaboração das superfícies comerciais,” como o Continente, que ao longo do ano, costuma fornecer os seus excedentes” e que continua em funcionamento durante a pandemia.
Face às necessidade de isolamento, recomendada pela Autoridade de Saúde, o projecto viu também o seu número de voluntários activos reduzir. Mas, com uma estratégia diferente, conseguiu evitar que cerca de sete dezenas de pessoas perdessem as suas refeições. “Nós conseguimos realizar, com serviços mínimos, a nossa missão. As refeições foram sempre entregues diariamente”, garantiu Leonor Anahory. “A Associação de Seniores de São Miguel é uma instituição de utilidade pública e sentimo-nos gratificados por conseguir dar esta resposta, que era neste momento mais urgente para as pessoas que necessitam desta ajuda”, acrescentou.
O projecto tem nas freguesias de São Pedro e São Roque a sua área de actuação, mas também responde a alguns pedidos de apoio na Fajã de Baixo, onde está sediada.
Leonor Anahory admitiu que nos próximos tempos irão surgir mais pedidos de ajuda ao projecto, face ao previsível aumento do desemprego. “Seguramente vão aparecer mais pedidos de ajuda, porque o desemprego vai subir e muitos dos nossos beneficiários vêm de situações precárias, ao nível de emprego. São também pessoas com mais idade, com reformas muito baixas e insuficientes, por vezes com familiares doentes que estão dependentes da mesma reforma. É neste contexto que nós respondemos”, explicou.
Doação de computadores
Além do “Zero Desperdício”, a Associação de Seniores de São Miguel tem promovido outras acções no contexto de pandemia. Recentemente, doou computadores a dois jovens carenciados da Escola de Formação da Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada, “para que pudessem prosseguir os seus cursos”.
Defendendo cidadania activa e a participação cívica, a associação tem promovido várias conferências, no âmbito da crise sanitária. Hoje, a iniciativa realiza-se sobre a temática “Estado da Saúde nos Açores: o antes e o durante a pandemia COVID-19”, a proferir pela Secretária Regional da Saúde, Teresa Luciano. A conferência ocorrerá esta tarde, no espaço digital https://meet.jit.si/Conferencias, às 15h00.