“Há enfermeiros a fazer 15 turnos seguidos porque não há ninguém para os substituir”

00Pedro Soares

Em Janeiro deste ano, a Organização Mundial de Saúde decretou o ano 2020 como o Ano Internacional do Enfermeiro, longe de imaginar que uma pandemia vinha a caminho e iria afectar toda a humanidade.

Neste Dia Internacional do Enfermeiro, Pedro Soares, Presidente do Conselho Directivo Regional da Secção Regional da Região Autónoma dos Açores da Ordem dos Enfermeiros, recordou as mais recentes lutas dos enfermeiros pela valorização da carreira profissional, estando certo que “com esta pandemia pudemos perceber que o papel dos enfermeiros é fundamental na saúde da nossa população”.

 

Diário dos Açores - Hoje assinala-se o Dia Internacional do Enfermeiro numa altura em que o mundo luta contra o coronavírus. Que significado tem hoje esta data para a classe?

Pedro Soares – Principalmente este ano, esta data tem um significado muito importante porque veio trazer uma tomada de consciência daquilo que é a real importância do enfermeiro no nosso dia-a-dia. Por outro lado, vem também levantar um pouco a questão sobre a real situação da profissão e da necessidade do reconhecimento e de uma maior valorização profissional. Recordo que até há bem pouco tempo tivemos as nossas lutas, com greves, para tentarmos demonstrar não só esta falta de reconhecimento e de valorização profissional, mas também as más condições dos sistemas de saúde como é o caso, por exemplo, da falta de equipamentos e da falta de profissionais.

 

A seu ver, esta pandemia veio expor, ainda mais estas dificuldades que os enfermeiros sentiam no dia-a-dia?

PS – Sem dúvida. A Secção Regional da Ordem dos Enfermeiros começou o seu mandato em Janeiro deste ano e, desde então, que temos vindo a alertar que havia falta, nos Açores, de enfermeiros no terreno. Com esta pandemia, ficou visível que o número de enfermeiros na Região é apenas o mínimo e indispensável e a qualquer momento que ocorra uma situação fora do normal cria muitas dificuldades ao Sistema Regional de Saúde. Isto pode ver-se, por exemplo, nos lares onde há uma sob lotação ao nível de colocações seguras de enfermagem, havendo, neste momento, enfermeiros a fazer 15 turnos seguidos, sem descanso, sem fins-de-semana, porque não há ninguém para os substituir.

 

Neste combate à pandemia qual foi o maior desafio que a classe teve que ultrapassar?

PS – O grande desafio passou por combater o próprio nível de ansiedade dos enfermeiros. Há um estudo que irá sair muito em breve que revela que 40% dos enfermeiros apresentam níveis de ansiedade muito altos. A necessidade de adaptação a este combate, o medo de infectar a família, o excesso de carga horária – estamos a falar de cargas horárias de 12 horas por dia, muitas vezes seis ou sete dias seguidos. Há enfermeiros que fizeram, em algumas instituições, sempre noites, durante 15 dias. Ou seja, a grande questão aqui foi o combate à ansiedade e ao desgaste que isto provoca e, claro, a uma total adaptação que teve que ser feita a uma situação completamente nova para todos. Embora estejamos preparados ao nível técnico, foi sempre necessário haver uma adaptação.

 

Acredita que após esta fase pandémica surgirá uma nova consciência quanto à necessidade da valorização profissional dos enfermeiros?

PS – Eu quero acreditar que sim. Quero acreditar que se perceba, de uma vez por todas, e que se tome consciência do profissionalismo que temos ao nível da enfermagem nos Açores, da entrega e do sacrifício que foi e têm sido estes dias, que haja uma maior valorização e que se ouçam mais estes profissionais de saúde. Entendo que com esta pandemia pudemos perceber que o papel dos enfermeiros é fundamental na saúde da nossa população. O cansaço já é muito, já há um grande desgaste em toda a enfermagem, mas continuamos naquela linha que é única e que separa o Covid de toda a nossa população. Acredito mesmo que os Açores perceberam isto.

 

A emigração é ainda um problema bem patente na classe?

PS – Infelizmente sim, este continua a ser um problema e por uma razão muito simples: se não são abertas vagas para novas entradas no mercado de trabalho, os enfermeiros são obrigados, praticamente, a procurar outras paragens. Neste momento, a nível mundial, tudo mudou. Estamos atentos a esta situação e vamos iniciar um estudo para tentarmos percebermos, a nível mundial como está a situação com os nossos enfermeiros portugueses. 

 

Curiosamente a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou em Janeiro que 2020 seria o Ano Internacional do Enfermeiro. Se na altura, poderia ser uma matéria que passaria ao lado de muitas pessoas, hoje faz todo o sentido tendo em conta todo o contexto em que vivemos?

PS – Absolutamente! A OMS estava longe de prever toda esta situação que estamos a viver. E que maneira de celebrar este ano, precisamente com o combate a este vírus pela frente. Mas é o que a vida nos deu, e é o combate que, de certeza, vamos, todos juntos, ganhar e marcar, sem dúvida, este ano da melhor maneira.

 

Neste dia do enfermeiro qual a mensagem que deixa não só à sociedade, mas também a todos os enfermeiros?

PS – À sociedade digo que deve ter cada vez mais presente o quão vulneráveis somos e o quão ligados e dependentes estamos uns dos outros. Aos enfermeiros, deixo uma mensagem de esperança, parabenizando toda a classe pela forma profissional como está a enfrentar toda esta situação e como se adaptou e este novo contexto, com a certeza que [os enfermeiros] já são um exemplo inesquecível na vida da comunidade do nosso arquipélago.

 

Por Olivéria Santos

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