Floricultura e produção de ananás entre as áreas mais afectadas pela pandemia

estufa flores

É com “muita apreensão” que a Terra Verde - Associação de Produtores Agrícolas dos Açores olha para o que será o futuro da agricultura na região. Um sector que sairá “fragilizado” da situação de pandemia em que actualmente se vive, pelo que a associação exige “soluções rápidas e eficazes” do Governo Regional para reforçar a liquidez dos produtores. 

Entre as áreas agrícolas mais afectadas pela pandemia, a floricultura é a que mais preocupa a Terra Verde. “Este é, até ao momento, o sector mais afectado pela pandemia, na medida em que todos os eventos foram cancelados, e consequentemente toda a produção planeada para as datas festivas foi para o lixo”, lamenta o presidente da associação.

Manuel Ledo refere ao Diário dos Açores que os produtores descrevem a situação como “uma dor de alma”, afirmando que “não há memória de uma época em que essa situação acontecesse”.

De acordo com o responsável, a situação agrava-se ainda mais “pelo facto de não se perspectivar melhorias para este ano, e portanto, exige uma solução rápida e eficaz por parte do Governo Regional dos Açores para reforçar a liquidez destes produtores”.

 

Crise na produção de ananás 

 

A Terra Verde manifesta ainda “bastante apreensão” com a produção do ananás. Segundo explica, parte da produção regional foi planeada há mais de um ano para a época alta do turismo e “a falta de turismo será um grande desafio para o escoamento da produção que mais uma vez, encontrava na hotelaria um parceiro de excelência para o escoamento, mas agravado também pela diminuição do consumo através da compra directa”.

“Sabemos que neste momento, o preço pago ao produtor é consideravelmente inferior ao valor pago em período homólogo no ano anterior, teme-se que com o aumento da oferta nos meses seguintes e diminuição da procura, o preço baixe ainda mais. Ainda que haja mercado para a exportação, a verdade é que o preço pago ao produtor, neste momento, dificilmente assegura os custos de produção”, refere Manuel Ledo.

No sector hortofrutícola, o responsável fez um ponto de situação, frisando que o problema foi o escoamento, com a redução do consumo: “Os produtores não deixaram de produzir, mas a verdade é que o consumo diminuiu consideravelmente, e isso é o que nos preocupa”, afirma.

Segundo explica, “o planeamento de uma produção é efectuado com a devida antecedência e, portanto, logo aí, a produção existente no campo hoje, foi pensada, para uma época em que o turismo estaria em alta e para fornecer restaurantes, hotéis, escolas, etc.”, espaços estes que encerraram “de forma imediata” e continuam encerrados. 

“Além disso, não nos podemos esquecer que apesar das grandes superfícies, frutarias e distribuidores continuarem em funcionamento, as idas às compras foram reduzidas, a aquisição de produtos mais perecíveis diminuiu”, acrescenta. 

Uma das formas de tentar contornar a situação foi a entrega de cabazes no domicílio por parte dos produtores. Uma medida que ajudou, mas não resolve o problema. “Precisamos perceber que nem todos os produtores têm capacidade para se adaptar a este modelo de funcionamento e que esta foi uma aposta dos produtores que comercializam habitualmente no mercado da Graça”, salienta. 

Percebendo a necessidade de fazer chegar os produtos aos consumidores, a associação criou a página Fome Zero/Desperdício Zero na rede social Facebook, “disponibilizando todos os contactos dos produtores para que qualquer pessoa pudesse contactá-los directamente e agilizar a entrega ao domicílio”. A medida permitiu “uma proximidade entre produtores que, não tendo capacidade de resposta para todos os produtos, encontraram nesta lista os contactos de outros produtores que lhes permitiram complementar a sua oferta”, aponta Manuel Ledo. 

 

Capacidade de “resiliência e 

de adaptação” dos agricultores

 

Apesar das dificuldades, Manuel Ledo destaca a “incrível capacidade de resiliência e de adaptação” dos agricultores “que, em momento algum deixaram de produzir e exercer a sua actividade para garantir o abastecimento da cadeia, inclusivamente, se predispuseram para fazer entregas ao domicílio a todos os cidadãos em situação de confinamento”.

Nota positiva também para a forma como interagiram os intervenientes da cadeia agroalimentar, entre produtores, empresas, associações, organizações e a tutela: “Desde o primeiro momento, assistiu-se a uma proximidade e disponibilidade de todos para evitar quaisquer constrangimentos no acesso à alimentação, e esse objectivo foi conseguido”, realça o presidente da Terra Verde, salientando ainda que “felizmente, apesar do risco, não houve, até ao momento, casos positivos para o novo coronavírus nos produtores regionais”. 

Agora, diz, é tempo de “todos os envolvidos na cadeia agroalimentar se sentarem à mesma mesa e definir uma estratégia a médio, longo prazo”.

 

Reforço da liquidez dos produtores 

e antecipação de subsídios

 

A associação transmitiu as suas preocupações, na semana passada, ao Secretário Regional da Agricultura e Florestas, em reunião com o grupo de acompanhamento, onde subscreveu o pedido da Federação Agrícola dos Açores para que, este ano, não exista rateio das verbas do POSEI, bem como a necessidade de reforçar este apoio. 

“No nosso entender, sendo uma situação excepcional, o importante é que se reforce a liquidez dos produtores, seja através do POSEI ou de outra medida de apoio. Foi ainda solicitada uma antecipação do subsídios, de forma a que os mesmos sejam pagos em duas tranches mas no ano corrente”, explica Manuel Ledo.

 

Levantamento de perdas e quebras

 

Na sequência da reunião de acompanhamento, a Terra Verde vai agora proceder ao levantamento das perdas e quebras dos produtores. E irá fazê-lo, “não só com base na facturação deste ano em comparação com o período homólogo do ano anterior, mas também trabalhar com os nossos parceiros e intermediários que estão neste momento a facultar informação sobre a previsão de compras que tinham para cada produtor e o que, por força da situação actual, efectivamente estão a comprar”, explica o presidente da associação. 

“Esta informação será um importante contributo para perceber a real situação do sector. No nosso entender, o contributo dos intermediários é fundamental para a definição de uma estratégia de apoio aos produtores, na medida em que, com base no que adquiriram ao produtor conseguimos perceber facilmente o que não foi comercializado e resultou em perdas para o produtor”, explicita Manuel Ledo.

Com muito ainda por fazer para “alavancar e apoiar o sector que sairá desta situação fragilizado”, o presidente da Associação de Produtores Agrícolas dos Açores conclui, afirmando ser “fundamental que o Governo Regional disponibilize medidas de apoio à medida das necessidades excepcionais desta situação”.