Estudo da Parceria CCIA, FAA, UGT-A e AICOPA: “Se nada for feito, turismo vai perder 16 mil postos de trabalho”

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grafico turismo mario fUm estudo elaborado pela Parceira Câmara do Comércio e Indústria dos Açores, Federação Agrícola dos Açores, UGT-Açores e AICOPA (Construção Civil), apresentado ontem por Mário Fortuna na reunião do Conselho Económico e Social, alerta que, se nada for feito, os Açores vão perder 16 mil postos de trabalho só no sector do turismo. 

“Para os Açores, a CCIA tem vindo a defender, desde 17 de março, quando ficaram claros alguns contornos da crise, um cenário de quebra de cerca de 80% no turismo. Este cenário no turismo implica, só por si, uma quebra de cerca de 10% do PIB (430 milhões de euros) e uma redução de cerca 16 mil postos de trabalho, se nada for feito. Este cenário é equivalente ao assumido a 7 de maio pela OMT”, lê-se no referido estudo, a que o nosso jornal teve acesso.

Outra abordagem mais completa para os Açores, segundo o documento, coloca as quebras da economia dos Açores, para cenários de variação do turismo de -80%,  entre os 20 e os 27%, conforme o cenário.

O emprego total pode cair até 18% e o rendimento disponível até de 18 a 25%. 

O número de desempregados pode mais do que duplicar. 

 

O que propõem os especialistas

 

Para lidar com a crise, os economistas da London Business School propõem que, qualquer que seja o “mix” de políticas, estas devem, adianta o estudo:

Ser rápidas e massivas, da mesma ordem de magnitude das perdas de produção. O Reino Unido anunciou um pacote que corresponde a 15% do seu PIB. Valor sem precedente;

Começar por despesas na saúde: investindo em testes e expansão da oferta. É tarde para a primeira vaga mas ainda há tempo para conter a segunda que deverá vir no outono de 2020;

Assegurar transferências de dinheiro para as famílias e para as empresas, assim como incentivos à manutenção e criação de postos de trabalho. A redução de impostos ou incentivos fiscais e  crédito de emergência, mesmo que em condições privilegiadas, só por si, não deverão ser suficientes para prevenir o colapso da procura agregada. 

A Alemanha e Itália já aprovaram pacotes em excesso de 20% do seu PIB.

De acordo com o documento apresentado no Conselho Económico e Social de ontem, o Programa de Estabilidade 2020, que Portugal apresentará à Comissão Europeia, é admitido que cada 30 dias úteis (cerca de um mês e meio) de confinamento tenham um impacto negativo no PIB anual de 6,5 pontos percentuais (Os três meses para que caminhamos implicariam uma quebra de 13%). 

O Eurostat, por seu turno estima uma quebra do PIB português perto dos 7%, depois de considerado o efeito das medidas adotadas.

Para lidar com esta situação o Governo apresenta medidas com impacto orçamental da ordem dos 1.900 milhões de euros (0,9% do PIB) e medidas com impacto financeiro mas sem impacto orçamental da ordem dos 25.138 milhões de euros (11,84%) do PIB, para um total de 12,7% do PIB.

Esta intervenção fica muito aquém das intervenções de outros países da EU mas deverá aguardar reforço em função dos apoios europeus cujo anúncio ainda se aguardam.

 

O caso dos Açores

 

Para o caso dos Açores, com um PIB de cerca de 4.351 milhões de euros, em 2019, 10% corresponde a 435 milhões e 20% a 870 milhões.

A Parceria (CCIA, FAA, UGT-A e AICOPA), em comunicado de 6 de Abril de 2020, avançou já com esta ordem de grandeza. 

Citando “A tarefa com que a sociedade está confrontada para a recuperação da economia é de tal ordem elevada que leva a CIP a reivindicar um pacote de intervenção pública nunca inferior a 10% do PIB (20 mil milhões de euros para Portugal). 

A dimensão da intervenção nos Açores, dada a sua vulnerabilidade aos efeitos da Covid19, nunca poderá ser inferior a 20% do seu PIB de 2019 (870 milhões euros).

No estudo que continuamos a citar foi proposto a adopção de dois princípios: 

1. Salvaguarda determinante da capacidade produtiva das cadeias de valor fundamentais (clusters) para a economia dos Açores, dados os seus efeitos multiplicativos: cadeia agroindustrial; cadeia marítimo-industrial-recreativa; cadeia do turismo e; cadeia da construção.  

Estas cadeias de valor (clusters) trazem consigo uma multiplicidade de efeitos que arrastam positivamente a atividade económica. 

2. Ampliação extraordinária do orçamento público para a implementação das medidas de mitigação da Covid-19. 

“Concretizando, no primeiro princípio, foi proposta a adopção das seguintes medidas: 

Mobilização massiva de liquidez para a sustentação das empresas através de medidas nacionais e medidas regionais complementares e próprias para manter a capacidade produtiva da economia, com especial enfoque nos sectores críticos, transformando-a em apoios a fundo perdido no curto/médio prazo;

Redução conjuntural muito significativa dos custos de contexto para as empresas, incluindo os custos burocráticos, os custos dos transportes e os custos das diversas energias; 

Melhoria das condições de aplicação do lay-off como medida temporária de suspensão de empregos que noutras circunstâncias são perdidos para o desemprego, com desestruturação da capacidade produtiva”, refere o documento apresentado por Mário Fortuna.

E acrescenta: “Concretizando, no segundo princípio, foi proposta a adopção das seguintes medidas: 

Reivindicação de verbas nacionais de solidariedade pelos impactos acrescidos das medidas nacionais (à semelhança do que aconteceu para cobertura dos danos associados ao furacão Lorenzo); 

Aumento do endividamento da Região, através de empréstimo do Tesouro com taxa de juro nula; 

Aumento do endividamento da Região, através de empréstimo contraído no mercado; 

Revisão dos critérios de fixação dos limites de endividamento previstos na LFRA;

Saneamento, com ajudas de Estado próprias, assistido pela EU, do grupo SATA;

Pronto pagamento de todos os contratos de aprovisionamento do sector público e de todos os trabalhos de empreitadas de obras públicas”.