Como contrariar a quebra de população? “Mobilidade, mais qualificação, novas mudanças”

estimativas da população

Os Açores perderam cerca de 4 mil habitantes entre 2012 e 2018, depois de um crescimento global até 2013, seguindo-se a partir desta data um declínio constante. 

“A tendência e, principalmente, o ritmo de evolução não é idêntico em todas as ilhas”, afirmam os autores do estudo sobre a “Caracterização da Dinâmica Populacional Recente dos Açores e Estratégias para a Recuperação Populacional, por Ilha” e a “Evolução das Qualificações da População Ativa dos Açores”, desenvolvidos por uma equipa conjunta do Centro de Estudos de Economia Aplicada do Atlântico – Açores (CEEAplA-A) e do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA.UAC), ambos da Universidade dos Açores (através da Fundação Gaspar Frutuoso) e elaborados no âmbito de um contrato de prestação de serviços celebrado para o efeito entre a Fundação Gaspar Frutuoso e a Vice-Presidência do Governo, Emprego e Competitividade Empresarial – Direção Regional do Emprego e Qualificação Profissional (DREQP), entregue ao Conselho Económico e Social, presidido por Gaulter Furtado.

Os autores do estudo deixam um alerta: “Se a concentração demográfica nas ilhas de maior dimensão aumentou a diversidade do arquipélago, a sua diminuição, particularmente em São Miguel e na Terceira pode colocar problemas adicionais a nível demográfico, uma vez que estas eram o suporte dos aumentos, ainda que ligeiros, da população residente nos Açores”.

 

Mobilidade pode ser solução

 

O estudo, a que o nosso jornal teve cesso, é composto por um vasto relatório, dividido em várias partes, sendo que na síntese final aponta para algumas soluções e desafios.

“Tendo em conta a dinâmica populacional analisada, e apesar de os Açores se posicionarem, nos últimos anos, como território pouco atrativo para a captação de população estrangeira de longa duração e, mesmo, de fixação de residentes, principalmente de mais jovens e qualificados, ao que tudo indica, é, principalmente, na mobilidade que cremos que se pode ter uma solução que minimize o decréscimo da população e o envelhecimento demográfico”, escrevem os responsáveis pelo estudo.

E acrescentam: “A desigualdade populacional entre as ilhas, que se acentuou ao longo do século passado, teve como base de desenvolvimento económico a passagem de uma sociedade rural, centrada na agricultura, para outra onde preponderam os serviços e alguma industrialização. Esta foi a tendência de desenvolvimento do passado da generalidade dos países e regiões, que dificulta, de modo particular, os de pequena dimensão e que, no caso dos Açores, tem sido agravada pela dispersão territorial, penalizando as ilhas mais pequenas”.

 

Aproveitar os novos tempos 

de mudança

 

“As transformações da época digital, de novas formas de trabalho, quer pela robotização das atividades, quer pela adoção do teletrabalho, por exemplo, são, em nosso entender, propiciadoras de um mundo distinto daquele que se baseava na quantidade e na proximidade do mercado, independentemente do tipo de produtos, e que favoreceu o desenvolvimento económico da maioria dos países na segunda metade do século XX”, lê-se no estudo, que adianta: “No século XXI, há espaço para outras atividades, que são, de algum modo, independentes da quantidade e da distância. Neste sentido, o arquipélago dos Açores, e cada uma das suas ilhas, podem desenvolver-se e, até, tornar-se uma região menos desigual, se souberem aproveitar as oportunidades destes novos tempos em que a população não necessita de ser numerosa, mas sim qualificada. Esta qualificação não deve ser levada a cabo unicamente num período pré-determinado, mas ao longo de uma vida, que se insere numa sociedade em constante mudança”.

O estudo destaca, “na perspetiva de uma Política de População integrada, que esta tenha em consideração a realidade de cada ilha, não só das suas potencialidades, mas, também, das características da sua população e daquela que considera necessária para alcançar os objetivos a atingir – Política de Natalidade e Família; Política de Mobilidade, Política de Formação e Política de Emprego”.

 

As principais

fontes  de riqueza

 

E mais adiante sugere: “Independentemente da transversalidade das Políticas Sociais e de População, no primeiro grupo deve atender-se, de modo especial, às Políticas de Família, nomeadamente às medidas de conciliação da vida familiar e profissional, uma vez que as ilhas que o compõem possuem maior dimensão, diversidade e uma população mais jovem; no segundo grupo, deverá considerar-se, sobretudo, as Políticas de Mobilidade, em especial de atração de população; no terceiro e último grupo, deverá atender-se às Políticas de Saúde, dado que as ilhas que o constituem possuem, no momento, uma população mais envelhecida”.

“Os Açores constituem uma pequena economia insular, arquipelágica e dispersa. As exportações, alicerçadas no aproveitamento dos recursos naturais e nas transferências provenientes do exterior, geram o emprego básico desta economia e fixam uma determinada população.

O contexto da estrutura produtiva acima referido não deverá sofrer alterações muito significativas nos próximos anos, não obstante a necessidade de pensar novas atividades, como anteriormente foi referido. 

O leite e derivados, o peixe fresco, congelado ou em conserva e o turismo, este com um peso tendencialmente crescente, serão as principais fontes de entrada de rendimentos associados à atividade exportadora, onde o desenvolvimento e a preservação da imagem de uma natureza saudável e de uma elevada qualidade ambiental acrescentam, necessariamente, valor e constituem uma vantagem competitiva”, lê-se, ainda, no estudo entregue ao CESA, acrescentando: 

“Contudo, exportar, ou seja, vender ao exterior, num mundo cada vez mais competitivo, requer conhecimento e capacidade de adaptação. A base do conhecimento é o investimento em capital humano, o qual se traduz na geração de ideias, na capacidade de inovação e de adaptação, na adoção de novas tecnologias e na implementação de sistemas de gestão. 

A mudança tecnológica é rápida e o sucesso na sua utilização (produtiva) assenta, cada vez mais, no conhecimento, o qual depende da existência de uma população devidamente escolarizada e constitui um pilar fundamental para o desenvolvimento de políticas de inovação (as quais têm sido oportunamente reconhecidas e enfatizadas no âmbito de vários documentos, como é o caso da Estratégia de Investigação e Inovação para a Especialização Inteligente da Região Autónoma dos Açores (RIS3 Açores), entre outros)”.

E depois de avançar com outras sugestões, conclui: “Tudo isto sem descurar a necessidade de estudar e monitorizar, numa base regular, a articulação entre a procura de educação e a sua ligação com o mercado de trabalho nos Açores, de forma a delinear medidas conducentes à promoção de uma escolaridade mais elevada no seio da população ativa”.