Pedro Soares, Ordem dos Enfermeiros dos Açores: “Pandemia pôs a descoberto fraquezas do Serviço Regional de Saúde”

Pedro Soares

O novo titular da saúde alertou, depois de visitar o Hospital de Ponta Delgada, para a grave situação no sector, quase de colapso, por sub-orçamentação e falta de recursos humanos. A Ordem dos Enfermeiros alertou há meses para a mesma situação. Acha que já vamos tarde?

Julgo que perdemos tempo precioso, e embora nos possa agora sair caro, quero acreditar que podemos recuperar alguma coisa, vamos é ter de correr atrás do prejuízo e ter a noção que o caminho a percorrer é difícil e a ajuda de todos é essencial. 

Esta pandemia veio colocar a descoberto algumas fraquezas do nosso Sistema Regional de Saúde e, numa análise pormenorizada, fica claro que há uma necessidade de repensarmos algumas questões, sendo que uma delas prende-se efectivamente com os recursos humanos, no caso específico da Enfermagem. 

Era isto que defendíamos em Março, é isto que temos vindo a defender desde o início do nosso mandato, agora temos um problema grande para conseguir colmatar esta falta de Enfermeiros, é que neste momento, restam muito poucos profissionais disponíveis a serem contratados.

A experiência da primeira vaga diz-nos que o sucesso nesta batalha implica uma intervenção competente sobre um planeamento o mais precoce possível, claramente os resultados hoje mostram que não o fizemos no entretanto, note-se o exemplo de um dos pontos chaves neste combate, as testagens da população, está claro que não acautelámos as condições estruturais para melhorar os centros de testes, alertámos diversas vezes. 

Outro ponto nevrálgico, a linha de saúde, nota-se que não foi planeada para uma procura intensiva como a actual, e teríamos mais exemplos. 

Não vamos tarde, mas estamos muito atrasados, e é necessário que todos tenhamos a responsabilidade de participar neste combate, profissionais e população, não há outra forma.

 

A Ordem tinha proposto, em Agosto, a contratação de enfermeiros que estavam prontos a ingressar no sector. O que aconteceu entretanto?

Agosto era o mês chave para nós, enquanto hipótese da Região reorganizar as equipas e fortalecer o Sistema Regional de Saúde, aproveitando os 83 novos Enfermeiros que terminavam o seu curso e estavam prontos a ingressar no mercado de trabalho. 

Tivemos essa garantia por parte da tutela de que todos seriam contratados, ora, na realidade, isso não aconteceu, a Região não aproveitou metade desses Enfermeiros, sendo que muitos foram absorvidos pelos privados, instituições de solidariedade, e em meu entender, ficámos com um SRS manco, em especial porque muitos desse colegas foram colocados no programa de empregabilidade Estagiar L que, para além de ser uma afronta aos Enfermeiros, está a ser canalizado para suprimir falta de pessoal. 

Temos todos de perceber, de uma vez por todas, que neste programa o Enfermeiro recebe de remuneração menos 500€ que os seus colegas e em muitas situações faz as mesmas funções, ou seja, não são respeitadas as premissas deste programa onde, por exemplo, um Enfermeiro não tem grande autonomia nas suas funções, o horário tem particularidades, entre outros aspectos. 

Ora, para uma Região como a nossa com falta de mão de obra, estamos aqui a simplesmente não aproveitar um recurso na totalidade e, para além disso, a incorrer numa ilegalidade. Não são concursos feitos agora que vêm resolver esta questão, aliás, receio que venham mesmo atrapalhar pois em alguns casos vai levar a mobilidade entre Instituições, este é um tempo de concentração total no SRS.

 

Continuamos a perder profissionais para o estrangeiro?

Alguns países europeus acautelaram-se em termos de recursos humanos, nomeadamente contratando no estrangeiro, e os Enfermeiros açorianos foram de facto aliciados com condições profissionais muito melhores do que se oferece por cá. 

Perceba-se que estamos a desperdiçar dinheiro, recursos, e enquanto Portugal, os Açores, não perceberem que caminham em tempos normais, a passos largos, para um sistema de saúde débil, em ruptura, com cada vez menos mão de obra, estaremos muito mal de futuro. 

É preciso que as pessoas percebam que a nível mundial os Enfermeiros portugueses são tidos como de excelência, são remunerados condignamente com as suas responsabilidades, têm outras oportunidades que cá não existem. 

Em Portugal, os Enfermeiros são destratados, bate-se palmas quando a situação aperta, chama-se de selvagem quando passa, e isso é um claro convite à emigração. 

Contrariamos isto com uma coisa simples chamada justiça em relação às demais carreiras, não podemos apresentar bónus para alguns encapotado publicamente de que é para quem esteve na linha da frente quando todos foram importantes, contar o tempo de serviço quando se percebe que a forma varia de Instituição para Instituição criando assimetrias, os Enfermeiros estão fartos, atingiu-se todos os limites, a todos os níveis.

 

Está preocupado com o crescente aumento de casos positivos nesta segunda vaga? Que medidas é que se devem tomar?

Este aumento nos Açores, em especial com um sistema de saúde como o nosso, muito limitado em termos de recursos, preocupa-me sem dúvida, tanto que elaborámos um documento a que demos o nome de “Visão estratégica para uma actuação imediata”, com vista a um controlo e gestão da saúde nos Açores no contexto da pandemia de COVID-19, visto defender a necessidade de colocar um ponto de reorganização no terreno tendo em conta o aumento de casos na região.

Apresentámos neste documento propostas concretas e exequíveis no imediato, complementares às políticas em curso, estruturadas em três pilares: a gestão de recursos humanos, a responsabilização social e a coordenação efectiva, as três com urgência na sua implementação e indissociáveis.

No que confere à gestão de recursos humanos, o plano foca-se no objectivo de garantir que a atividade assistencial ao doente Covid é garantida, ao mesmo tempo que os circuitos não Covid são minimamente mantidos, sendo que temos de ter a noção que temos recursos limitados nos Açores, logo apontamos algumas medidas no sentido de precaver a “perda” de profissionais por contágio. 

No que diz respeito à responsabilização social, defendemos estratégias de comunicação que promovam a adesão voluntária da população a várias medidas, como o distanciamento físico, o uso de máscaras, entre outras. 

A colaboração da população é fundamental. 

Quanto à coordenação efectiva, pretende-se garantir um posicionamento activo no terreno, promovendo a coordenação interpares, com ênfase no tempo de decisão e actuação, sendo que, entre várias medidas, apelamos à criação daquilo a que chamámos um Gabinete Regional de Crise constituído, para além da tutela, por vários parceiros da saúde e peritos, facilitando uma actuação mais rápida e eficaz. 

Já fizemos chegar este documento à tutela, tivemos uma primeira reunião onde sentimos abertura para um trabalho conjunto, aliás, algumas medidas entretanto emanadas pela tutela vêm de encontro a este documento.

 

Que avaliação faz da nova equipa da saúde e da nova autoridade de saúde?

É uma equipa que tem pela frente tempos muito difíceis logo de entrada, sei dar o valor porque estávamos com 2 meses de mandato quando aconteceu nos Açores os primeiros casos, não é fácil, terá de haver humildade em ouvir os parceiros da saúde, conhecer e sentir o terreno, e depois decidir.

A nova equipa da Autoridade de saúde, recebe duas realidades complicadas de gerir, por um lado uma estrutura de combate à pandemia enfraquecida, gasta, por outro, um sistema de saúde deficitário, com necessidade de reanimação, em especial devido a consequências pandémicas. 

Julgo que será fundamental rodear-se de profissionais de várias áreas, não só médica, mas também por Enfermeiros, em particular de Saúde Comunitária, que estão preparados para uma boa colaboração.

O novo Secretário vem de um ramo político e jurídico, terá de ter presente o conceito de decisão assertiva, a resolução dos problemas no presente e a importância da comunicação com os parceiros. 

Possui a seu lado um Director Regional que se espera o mesmo. 

Esperamos que se possam rodear de vários profissionais ligados ao terreno, nomeadamente de Enfermeiros, para que haja uma actuação mais terra a terra, essencial neste momento.

Da parte da Ordem dos Enfermeiros, já o disse publicamente que poderá contar com uma equipa fortemente dedicada, que já demonstrou vontade e capacidade de trabalhar em conjunto com a tutela, no sentido de se conseguir ultrapassar os grandes desafios que enfrentamos!

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