“Mais dois dias em casa e teria entrado em coma diabético”, conta Joaquim Viegas, que esteve 14 dias internado no HDES com covid

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Joaquim ViegasCasal que esteve infectado dá o seu testemunho e lança críticas à delegação de saúde 

Joaquim Viegas, diabético, de 45 anos, passou 14 dias internado no Hospital do Divino Espírito Santo de Ponta Delgada, infectado com o novo coronavírus. Deu entrada no hospital sem ter sido testado, após 8 dias com sintomas e a tentar, sem sucesso, ser testado para a covid-19. 

A febre, a falta de apetite, a perda de olfacto e a dificuldade em respirar foram piorando de dia para dia e, sem conseguir realizar a análise através da delegação de saúde do seu concelho, Ponta Delgada, acabou por ir “pelo próprio pé” para as urgências, tendo sido dado aviso prévio ao hospital. Nessa altura, tinha já uma pneumonia viral grave e, por consequência disso, uma descompensação grave da diabetes. Hoje está já curado, mas o desfecho da sua situação podia ter sido outro. “Mais dois dias em casa e poderia ter entrado em coma diabético. Foi o que me disseram os médicos. Poderia até ter morrido”, recorda, admitindo mesmo que chegou a temer pela sua vida.

A situação deixou o sentimento de revolta em Joaquim e na companheira, Teresa Teixeira - que entretanto também contraiu o vírus -, pela falha na resposta por parte da delegação de saúde. “Entre o dia 5 e o dia 13 de Novembro, dia em que fui para o hospital, estive sempre a tentar fazer o teste e não consegui de maneira nenhuma. E isto gera-me revolta, pois estava a piorar em casa”, conta. “Se não tomo a iniciativa de ir para o hospital podia ter morrido em casa. Os meus pulmões podiam ter chegado a um ponto de não retorno”, alerta. 

“Mas o que me deixa ainda mais revoltado”, continua, “é que, depois de já estar internado, como eu não estava em condições de atender telefonemas e a delegação de saúde nessa altura não conseguia entrar em contacto comigo, enviaram a 14 de Novembro a Polícia à minha procura para eu ir realizar o teste. Estive dias e dias a tentar fazer o teste e, 9 dias depois da minha primeira chamada para lá, é que mandam a polícia atrás de mim?”, questiona, mostrando indignação. “Se tivesse esperado, podia já estar morto”, acrescenta. 

 

De 5 a 13 de Novembro à espera 

Joaquim Viegas e Teresa Teixeira, entretanto já curados, contam agora como tudo aconteceu. “No dia 30 de Outubro tinha feito um teste à covid-19 por causa da suspeita de uma possível contaminação no ginásio que frequento. Fiz dois testes e ambos deram negativo. Mas dias depois, já no dia 5 de Novembro comecei a sentir sintomas de gripe. Nessa altura, ligámos para a Linha Saúde Açores a informar do surgimento de sintomas e para saber se não seria melhor fazer novo teste. A resposta que recebi foi que tinha obtido dois testes negativos há pouco tempo, por isso não tinha covid. E eu pensei ‘ok, se dizem que não tenho nada, é porque não tenho nada”, conta.

Mas os sintomas persistiram e agravaram-se. “Comecei a ter cada vez mais sintomas, como febre, falta de apetite, perda de olfacto, do gosto… A própria água não me sabia a nada! E a minha situação foi-se deteriorando”, explicita.

A 10 de Novembro, cinco dias após a primeira chamada para a Linha Saúde Açores, volta a ligar para a mesma linha a dar conta do agravamento dos sintomas. “Disseram-nos, então que a situação já estava referenciada e que a delegação de saúde de Ponta Delgada nos iria contactar para a realização do teste”, conta Joaquim.

Entretanto, Teresa Teixeira começou também a ficar sintomática. “Voltei a ligar dois dias depois, no dia 12, às 6 horas da manhã, porque já estava com sintomas e referenciaram-me, juntamente com o Joaquim”, explica Teresa Teixeira. “Referi ainda que ele estava cada vez pior, que já nem se levantava da cama, e perguntei o porquê de não o terem ainda contactado para fazer o teste. Informaram-me que através da Linha não me podiam ajudar e que contactasse a delegação de saúde do meu concelho. E assim o fiz”. 

Fez a chamada telefónica para a delegação e saúde, mas o atendimento não foi o esperado. “Liguei para lá, expliquei a nossa situação e a resposta que obtive da senhora que me atendeu foi: ‘não ouviu a comunicação social? Tem que esperar, todos vão ser contactados para fazer o teste. Bom dia.’ E desligou o telefone na minha cara”, relata Teresa. Uma atitude que para Joaquim foi uma “falta de respeito gritante” e que mereceu uma reclamação por escrito para a delegação de saúde de Ponta Delgada, mas até ao momento não receberam feedback. 

“Como é possível nós fazermos tudo o que nos é recomendado, ligarmos e sermos atendidos desta forma? Esta pessoa, sem querer, colocou em causa a minha vida! Isto é muito grave”, considera Joaquim Viegas.

O casal continuou a esperar que o contactassem, mas os sintomas de Joaquim agravavam-se cada vez mais. “Já nem conseguia comer. Tinha a febre sempre nos 39 graus”, conta.

No dia seguinte, dia 13 de Novembro, decidiram que já não podiam esperar mais, pois “ele já não aguentava mais”, relata Teresa. “Liguei para a Linha Saúde Açores a informar que íamos para o hospital e o HDES foi informado da nossa ida, enquanto casos suspeitos de covid”, acrescenta.

Nem quiseram esperar por uma ambulância, foi mesmo Teresa quem transportou Joaquim para as urgências, onde  foram finalmente testados e obtiveram resultado positivo. “Fui muito bem atendido, isolaram-me num quarto, tiraram-me sangue, viram os meus níveis de oxigénio, fizeram-me um raio-x e fizeram me o teste à covid, que deu positivo. Tinha os níveis de oxigénio muito baixos. Fui transferido para o serviço de doenças infecto-contagiosas onde fiquei totalmente isolado”, explica.

A situação de Joaquim já havia evoluído para uma pneumonia viral grave, pelo que se seguiram 14 dolorosos dias de internamento. “O médico informou-me que os meus pulmões estavam a deixar de saturar o oxigénio e eu tinha que estar a ser ventilado e a receber medicação para poder recuperar. Fiquei muito assustado”, confessa ao nosso jornal.

Joaquim Viegas não esconde os dias difíceis que viveu. “Levava várias medicações intravenosas por dia. À noite dormia muito pouco, pois tinha que mudar de posição constantemente, para que os pulmões não ficassem sempre na mesma posição. No que toca à oxigenação, no primeiro dia colocaram-me apenas uns pequenos tubos no nariz, mas no dia seguinte já fui entubado para poder receber mais oxigénio. Era um sistema muito desconfortável”, descreve, acrescentando que foi-lhe administrada também penicilina. O que “custou mais”, conta ainda, “foi fazer diariamente a análise na artéria para analisar os níveis de oxigénio. Doeu imenso”, recorda Joaquim. Segundo relata, também os níveis da diabetes teimavam em não descer. “Tentavam estabilizar os níveis, mas não desciam para baixo dos 400”, conta.

O facto de não ser fumador ajudou na sua recuperação. Ao Diário dos Açores, Joaquim Viegas conta que nunca, na sua vida, tinha estado naquele estado. “Sempre fui uma pessoa saudável, apesar de ter diabetes. Pratico exercício, não sou pessoa de ficar doente. Nunca estive sem comer, sem beber ou com febre como agora aconteceu… No fundo suspeitava que tinha contraído a covid-19 quando os sintomas se foram agravando. Antes de ir para o hospital estivemos praticamente sempre em casa. Cheguei a ir uma vez a casa dos meus pais, mas felizmente não ficaram infectados. A família mais próxima teve de ser testada, mas obtiveram todos resultado negativo”, frisa.  

 

População desvaloriza a pandemia

Joaquim teve alta a 25 de Novembro, já curado da covid-19 e sem perigo de transmitir o vírus a terceiros, garantiram-lhe os médicos. “O que mais me soube bem, depois de estar sem me poder levantar vários dias, foi tomar o meu duche sozinho. Algo tão simples, mas que agora dou muito valor. Também não podia ir à casa de banho… foi tudo muito desconfortável. Mas fui muito bem tratado e tenho que agradecer publicamente aos profissionais de saúde, que foram incansáveis comigo”, garante. 

Teresa Teixeira também já recuperou e teve alta no dia 27. A sua situação não foi grave, pois teve apenas alguns sintomas, pelo que fez o tratamento em casa. “Mas foram dias de muita ansiedade”, conta Teresa, que temeu que a sua situação também se agravasse pelo facto de ser asmática.

 

Medidas mais restritivas

Agora a tentar retomar o quotidiano com normalidade, o casal é da opinião que a população açoriana não está a valorizar a pandemia e defende medidas mais restritivas para combater a propagação. “Não respeitam os distanciamentos, não usam bem as máscaras. Desvalorizam o vírus como se fosse uma gripe. É certo que há infectados assintomáticos, mas são estes que representam o maior perigo”, considera Joaquim Viegas. 

Até hoje, continua sem saber onde contraiu o vírus. Não acredita que tenha sido no ginásio que frequenta, uma vez que realizou dois testes que deram negativo, mas não tem certezas. “Se foi no ginásio? Não sei. No supermercado? Também não sei…”, diz. “O perigo é este… O vírus está por aí e não sabemos quem nos pode contagiar”, afirma ao Diário dos Açores.

 

Por Alexandra Narciso