“O projecto era um sonho antigo que foi empreendido com paixão, e o público devolveu na mesmíssima moeda”

Luis Filipe Borges e Nuno Costa Santos3

A série televisiva “Mal-Amanhados” saiu dos ecrãs e tem, desde o passado dia 23 de Dezembro, uma versão em livro. O livro tem a coordenação de Luís Filipe Borges e a colaboração de Alexandre Borges e Nuno Costa Santos, contando com a participação de Onésimo Teotónio Almeida, autor do prefácio, bem como dos três autores, além de contributos de protagonistas desta série que percorreu as nove ilhas dos Açores. Ao Diário dos Açores, Luís Filipe Borges, conta como começou toda esta aventura, desvendando novos projectos que já estão a ser delineados. A série televisiva “Mal-amanhados - Novos Corsários das Ilhas” foi emitida na RTP-Açores teve 10 episódios, um por cada ilha dos Açores e um especial com cenas exclusivas, ganhando agora um novo formato através do livro que reúne os testemunhos dos protagonistas da série, além de um acervo fotográfico do realizador Diogo Rola, crónicas de rodagem, contributos dos três argumentistas da série, episódios de bastidores, confissões, segredos e muitas curiosidades.

 

Diário dos Açores – Acabou de ser lançada a versão em livro da série televisiva “Mal-Amanhados – Os Novos Corsários das Ilhas”. O que o levou a transpor para livro a série televisiva?

Luís Filipe Borges – Um surpreendente desafio da Letras Lavadas, que surgiu quando a emissão da série na RTP-Açores ia sensivelmente a meio. Estava desconectado do meio editorial há pelo menos 4 anos, um pouco desiludido com o mesmo até, mas esta foi uma gratificante e desafiadora abordagem. Pedi uns dias para pensar, concluí que valia a pena o esforço, e avançámos.

 

DA – Como nasceu este projecto inicialmente?

LFB – Os seus primórdios estão algures em 1997/98, nos corredores da Faculdade de Direito de Lisboa, quando eu e o Nuno Costa Santos começámos a fantasiar com – um dia – fazer algo que celebrasse a nossa terra, e que contribuísse para reduzir aquele que era na altura um desconhecimento absurdo dos continentais sobre os Açores. Fast forward para o dia do meu 40º aniversário em que acordei saudavelmente obcecado com a seguinte pergunta: “O que é que te falta e queres absolutamente fazer?!”. Três anos depois cá estamos, com série, livro, e outros sonhos e missões açorianas a caminho.

 

DA – Como foi produzir a série?

LFB – Sou um indivíduo profundamente desastrado e distraído, que nunca tinha feito algo do género. Portanto foi uma aprendizagem constante, de tentativa e erro, a pensar várias vezes numa citação de Beckett: “Tenta. Falha. Tenta outra vez, falha outra vez, mas falha melhor”. Foi acreditar e nunca esmorecer, apesar de noites mal dormidas e angústias diversas. Acabou por se tornar num período de pelo menos 16 meses de pré-produção só para garantir os apoios e parcerias necessários para tornar a fantasia realidade. Ficarei para sempre em dívida para com todos os que acreditaram e viabilizaram este projecto: a Direcção Regional de Turismo, a TAP, a Blue, Marca Açores, Direcção Regional de Cultura, Bestravel, Autatlantis Rent-a-Car e Azores Easy Rent, Associação de Municípios da Região Autónoma dos Açores, Hunt Global, Quinta dos Açores, Chá Gorreana, ATA, Invest In Pico, Delta Cafés, Queijo Vaquinha, HA DigitalFilm, Masterdream, Câmaras Municipais de Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Calheta de São Jorge, Flying Sharks, Aldeia da Cuada, Grupo Bensaúde, Associação Agrícola de São Miguel, Nuvigrup, obviamente a RTP Açores, enfim. Foi mesmo grão a grão, e todos foram indispensáveis.

 

DA – Houve algum momento mais marcante em todo este processo?

LFB – Tantos, dramáticos e cómicos, tantos que se contasse aqui todos ocuparia pelo menos esta edição inteira do jornal (risos). Mas posso partilhar aqui um, do qual existe uma fotografia no livro mas não a história por trás: no episódio de Santa Maria tínhamos três dias de acção. Na manhã do 2º dia de filmagens o Nuno acordou com uma irritação na córnea ocular que acabou por se transformar mesmo numa lesão chata. Conclusão: teve de ir ao centro de saúde fazer um curativo… que consistia numa espécie de pala de pirata num dos olhos. O que significa que tivemos de o filmar de perfil em pelo menos metade das cenas do episódio para não se notar o problema e a incongruência narrativa (risos). 

 

DA – Tem um episódio preferido?

LFB – Pessoalmente os meus favoritos são os episódios do Pico, Flores e Santa Maria. Acho que são aqueles em que o contributo dos protagonistas locais, a inspiração do texto-base do qual partimos, a qualidade estética do realizador Diogo Rola, a música, a relação entre os dois hosts, e a abertura constante à surpresa e ao improviso melhor resultaram numa bonita combinação de ingredientes para o cocktail final (risos). Mas gosto muito de perguntar pelo Top 3 de diferentes pessoas e as opiniões são também elas muito heterogéneas, o que só engrandece esta aventura. Só há um episódio ao qual gostaria de fazer um par de alterações, mas agora é tarde. Talvez para a edição em DVD. (sorri)

 

DA – O que ficou, ao nível pessoal, depois da série estar concluída?

LFB – Um maravilhoso sentimento de realização, amizade e gratidão por todos os envolvidos, e sobretudo uma emoção permanente pelo carinho com que a aventura foi e é retribuída. Percebi que, de facto, o amor paga-se com amor. O projecto era um sonho antigo que foi empreendido com paixão, e o público devolveu na mesmíssima moeda. 

 

DA – Sendo açoriano, o que aprendeu sobre os Açores e os açorianos após ter percorrido todas as ilhas e que não sabia ou foi surpreendido?

LFB – Que o açoriano encontra sempre maneira! Que é muito mais aquilo que nos une do que o que nos separa. Que açorianos somos todos, os de solo e sangue, e os que escolheram estes territórios para viver – e por eles pugnar. E aprendi ainda, com a versatilidade e riqueza da nossa centena de protagonistas, que há pistas imensas para outras histórias, outras personagens, outros locais, muitos outros capítulos. Descobrir os Açores é saber mais e ao mesmo tempo ter a humildade de reconhecer que ainda falta desvendar tanto.

 

DA – Em que difere o livro da série? Ambos complementam-se?

LFB – Creio que o livro consegue um interessante “dois em um”: pode e deve ser gratificante para quem não viu a série mas quer saber mais sobre os Açores e, para quem viu, complementa a viagem televisiva. Porquê? Porque metade do volume é material inédito, são estórias de bastidores, excertos do diário da rodagem, curiosidades, desabafos, alguns segredos… e depois tem a particularidade de ser um livro com pelo menos 300 autores. Porque fiz absoluta questão de preservar em papel algum do avassalador feedback que chegou literalmente de todo o lado. E essas mensagens, comentários, partilhas… incluem novas perspectivas, personagens, retratos impressionistas e impressionantes de açorianidade. Não tenho as palavras certas para descrever o orgulho e a honra sentidos por poder guardar, em papel e num volume tão bonito, esta experiência feita de centenas de pessoas, locais, afectos e histórias.

 

DA – Foi um desafio transpor para o livro a série?

LFB – Enorme, sim. Porque tinha uma coisa como certa: não queria simplesmente plasmar a série em páginas, isso seria não só preguiçoso como impossível. A experiência audiovisual é isso mesmo, feita de som e imagem. A do livro não tem esses componentes mas tem cheiro, outro tempo, e é palpável, de potencial eterno. Assim o que fizemos foi: a editora assegurou a transcrição das conversas mantidas na série com todos os nossos protagonistas e eu pude concentrar-me na escrita de material inédito, nos contributos do Alexandre Borges e do Nuno, no convite a Onésimo Teotónio d’Almeida para um prefácio que nos deixa estarrecidos, enfim, na coordenação de um volume que tivesse o ADN da série mas fosse mais além. Conseguiu-se, creio, uma segunda vida dos “Mal-Amanhados”, e essa era a meta. O volume terminar com um encarte visual criteriosamente seleccionado pelo Diogo Rola, ilha a ilha, episódio a episódio, acaba por ser a cereja no topo do bolo.

 

DA – A série foi um sucesso. Estava à espera daquele feedback?

LFB – Sinceramente esperávamos que corresse bem porque toda a equipa tinha uma impressão muito compensadora vivida nos 47 dias de filmagem. Sabíamos que era um projecto feito com alma e coração, e havia portanto a forte esperança de que esse sentimento passasse para os espectadores. Mas a avalanche de feedback foi realmente avassaladora. Nunca pensámos que atingisse esta dimensão. Sobretudo no ano que passou entre a rodagem e a emissão, dedicado à montagem da série (um processo muito solitário entre mim e o Diogo, um no Continente e o outro na Dinamarca, com longas sessões de Zoom pelo meio). De repente, em pleno confinamento, havia uma viagem que podia ser feita por todos – desde a 1ª classe dos nossos sofás. Além disso, a dedicação com que a RTP-Açores tratou a aventura, bem como o incrível trabalho da nossa estação nas redes sociais, fizeram com que a aventura atingisse números perfeitamente impressionantes. Só no Facebook os 10 episódios tiveram uma audiência que supera um milhão. É algo que fica para sempre.

 

DA – Acredita que o livro será, igualmente, um sucesso?

LFB – No momento em que tenho a honra de responder a esta pergunta, sobram 23 exemplares por vender e prepara-se o lançamento da 2ª edição. Não poderia estar mais grato pelas centenas de almas que levaram para casa este calhamaço com um pouco mais de 400 páginas. Ficamos unidos para sempre em prateleiras açorianas, madeirenses, continentais, brasileiras, americanas, algumas em sítios perfeitamente inesperados como Suécia ou Bulgária. Pensar nisso deixa uma inevitável comoção, um arrepio.

 

DA – Porquê o nome mal-amanhados?

LFB – O trio de argumentistas (Alexandre, Nuno e eu) pela-se por nomes sugestivos. (risos) Então resolvemos fundir a homenagem ao corsário original – Vitorino Nemésio – com uma expressão que adoramos, e que se usa tanto na Terceira como em São Miguel – os berços dos autores da empreitada. Além de ser perfeitamente compreendida pelos continentais. No fundo “Mal-Amanhados” é uma auto-ironia sobre os dois anfitriões da viagem, estes compinchas de ilhas historicamente rivais em busca do Açoriano Universal.

 

DA – Depois deste projecto, há outros em andamento? O que se segue?

LFB – Espero na Primavera lançar a série em DVD, um processo que está em andamento - com os episódios legendados para inglês (após muitos e carinhosos pedidos da nossa Diáspora), e incluindo algumas cenas inéditas. Apresentar o livro em versão ebook também é um objectivo - até porque infelizmente os portes de envio do mesmo para as nossas comunidades são incomportáveis (custam mais do que o preço do volume). Estou a negociar com a RTP uma versão cinematográfica da aventura – com a viagem concentrada num máximo de duas horas (a pensar também em festivais nacionais e internacionais). Recentemente lançaram-me uma ideia deliciosa: pensar no CD com uma antologia da riquíssima banda sonora da série – que vai do Cristóvam à Sara Cruz, do Pedro Lucas à Sara Miguel, da Maria e Luís Bettencourt ao Pieter Adriaans, da Filarmónica da Fajãzinha à Isabel Mesquita, de vários inéditos estrangeiros nas Flores ao Tony & Wilson, etc. Um processo seguramente moroso mas que valerá decerto a pena. E estou a plantar as sementes para uma sequela. Tenho uma nova utopia, de logística ainda mais difícil – sobretudo no tempo agreste que atravessamos – que é fazer a ponte entre as nossas ilhas e os açorianos pelo mundo. Vamos ver o que o futuro reserva sabendo que, lá está, o açoriano encontra sempre maneira. (sorriso)

 

Por Olivéria Santos