Cáritas de São Miguel registou aumento de pedidos de ajuda para alimentação em 2020

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Filipe Machado - técnico da cáritas1

O desemprego e, consequentemente, o rendimento insuficiente para garantir a subsistência e compromissos do agregado familiar tem sido a problemática dominante que levam as pessoas a recorrerem aos apoios da Cáritas de São Miguel. Filipe Machado, o Director Técnico da Instituição revelou ao Diário dos Açores que os pedidos de ajuda são muito diversificados e dependem da valência ou do serviço em causa. Ainda assim, diz, a maior parte das pessoas evidencia necessidades ao nível do vestuário e de mobiliário, sendo que também existem vários agregados familiares que beneficiam de um programa regular de alimentação e de pessoas que recebem fundos sociais pontuais. 

 

Diário dos Açores – Como caracteriza o ano 2020 no que diz respeito ao serviço desenvolvido pela Cáritas São Miguel?

Filipe Machado – O ano de 2020 foi um período atípico, e particularmente difícil, no âmbito da actividade desenvolvida pela Cáritas de Ilha de São Miguel, tendo sido necessário implementar um conjunto de medidas para fazer face aos constrangimentos decorrentes da pandemia. Neste sentido, foi constituído um Grupo de Monitorização, G.M., que, em articulação com a Associação Novo Dia, (que partilha o edifício com a Cáritas e o CRAES) elaborou um Plano de Contingência, ainda em vigor, tendo em consideração as orientações da Autoridade de Saúde Regional.

De entre as medidas implementadas, para além das habituais normas gerais de prevenção e de higienização, posso salientar a constituição de quartos de isolamento, a intensificação da limpeza e desinfecção das instalações, a medição diária da temperatura corporal de todos os utentes e colaboradores, a redução ou interdição das saídas das pessoas acolhidas e o encerramento de alguns serviços de atendimento ao público. De reforçar que, após um processo longo de muita informação e pedagogia, os utentes acolhidos no Centro de Alojamento e Apoio Temporário aos Sem-Abrigo, têm cumprido com sentido de responsabilidade as orientações emanadas do G.M.. Todas as medidas continuam sujeitas a actualizações, conforme o nível de alerta decretado pelas autoridades de saúde.

Ao nível externo, e com vista a reforçar o papel da Instituição junto da comunidade, a Cáritas de Ilha de São Miguel cedeu temporariamente vários computadores do seu CATL para apoiar os alunos mais carenciados no âmbito da telescola e continua a colaborar com a Secretaria Regional da Saúde, através da Direcção Regional da Prevenção e Combate às Dependências, e com o Instituto de Solidariedade Social dos Açores, na disponibilização de espaços de isolamento para acolhimento temporário de utentes em situação de exclusão social ou sem abrigo.

 

Tendo em conta a pandemia, a Cáritas São Miguel registou um maior número de pedidos de ajuda o ano passado?

FM – Esta questão não é de fácil resposta. A Cáritas de Ilha de São Miguel de hoje não é a mesma de há dois anos. Com a mudança para as novas instalações no início de 2019, a Instituição redimensionou-se em termos humanos e materiais, tendo alargado e diversificado as suas respostas junto da comunidade. 

Actualmente, para além dos já conhecidos apoios ao nível da sinalização, acompanhamento e encaminhamento social de pessoas desfavorecidas, a Cáritas de Ilha de São Miguel conta com o já referido centro de alojamento temporário para pessoas em situação sem-abrigo, duas residências comunitárias, um centro de recursos de apoio à emergência social, que, através do Instituto de Solidariedade Social dos Açores, canaliza doações da comunidade em geral para famílias desfavorecidas, maioritariamente ao nível de mobiliário e de vestuário. A Instituição gere ainda um Centro de Actividades de Tempos Livres, que presta apoio a diversas escolas da cidade de Ponta Delgada. Tem ainda um programa ocupacional, denominado “Terra com Vida”, que visa o treino de competências pré-profissionais na área da horticultura, e um programa de recuperação habitacional, em parceira com a Secretaria Regional da Habitação.

Em termos gerais, posso afirmar que o número de solicitações e de apoios durante 2020 é muito semelhante ao constatado em 2019, tendo inclusive havido uma pequena diminuição, ainda que residual. Todavia, esta constatação não é indicadora de que a necessidade tenha diminuído em 2020, podendo estar relacionada com o período de confinamento que foi imposto durante o primeiro semestre do ano e com a decorrente dificuldade de sinalização e de acesso aos serviços por parte das pessoas.

 

Que tipo de ajudas foram e são as mais solicitadas?

FM – Os pedidos de ajuda são muito diversificados e dependem da valência ou do serviço em causa. Ainda assim, posso avançar que a maior parte das pessoas evidencia necessidades ao nível do vestuário e de mobiliário, sendo que também temos vários agregados familiares que beneficiam de um programa regular de alimentação e de pessoas que recebem fundos sociais pontuais, que se destinam àqueles que, por dificuldades económicas, não conseguem ter acesso a tratamentos na área da saúde, nomeadamente ao nível da oftalmologia e odontologia.

 

Qual tem sido a resposta da Cáritas de São Miguel? Estão a conseguir chegar a todos os pedidos?

FM – Todos os pedidos são respondidos, se se enquadrarem nas respostas da Instituição. Caso contrário, as solicitações são encaminhadas para as entidades de apoio social competentes, designadamente para os técnicos de acção social do Instituto de Solidariedade Social dos Açores.

 

Quem tem recorrido mais à Caritas?

FM – O público que recorre aos nossos serviços é bastante diversificado em termos etários, na sua maioria entre os 30 e os 50, sendo que a problemática dominante que o faz recorrer aos apoios continua a ser o desemprego e, consequentemente, o rendimento insuficiente para garantir a subsistência e compromissos do agregado familiar. De referir que grande parte das pessoas está a beneficiar no Rendimento Social de Inserção.

 

Quantas famílias conseguiram apoiar em 2020 e com que tipo de apoio?

FM – Quanto às solicitações direccionadas para o serviço técnico de atendimento e acompanhamento social, importa referir que a Instituição apoiou um universo de 148 pessoas ao nível do seu programa regular de alimentação, na sua maioria por motivo de carência económica e proveniente dos Núcleos Cáritas espalhados pela ilha. No que concerne à atribuição de fundos sociais, foram atribuídos 22 apoios em 2020, 78% dos quais para casos que foram sinalizados pela primeira vez.

No centro de recursos à emergência social, CRAES, recebemos este ano um total de 956 pedidos, todos eles correspondidos, dos quais 83 novos casos. Importa referir que muitos dos pedidos foram para obtenção de mobiliário (à volta de 30% do total) e, sobretudo, para a obtenção de vestuário, representando cerca de 60% dos pedidos.

No centro de alojamento temporário deram entrada 17 novos utentes, previamente sinalizados pelo Instituto de Solidariedade Social dos Açores ao longo de 2020, sendo que das 30 camas disponíveis, tivemos uma ocupação média na ordem dos 79%, em virtude de ter sido necessário definir alguns quartos de isolamento no contexto do covid-19. Ao nível do apoio à recuperação habitacional, a Cáritas de Ilha de São Miguel beneficiou um total de 10 famílias. Em 2019, a Cáritas de Ilha de São Miguel tinha apoiado 22 famílias.

Já no que refere ao programa ocupacional na área da horticultura “Terra com Vida”, tivemos uma média mensal de 10 utentes ocupados, num total de 18 ao longo do ano, dois terços deles acolhidos e acompanhados pela Cáritas de Ilha de São Miguel e os restantes provenientes de outras instituições parceiras.

 

Foi um número superior ao ano anterior?

FM – O número de solicitações e de apoios foi muito próximo do número constatado em 2019, tendo inclusive havido uma pequena diminuição, ainda que pouco relevante. Volto a frisar que os pressupostos e os contextos são diferentes, não é possível fazer um exercício comparativo com algum rigor devido ao surgimento da pandemia. Isto significa que estes números não são indicadores de que a necessidade tenha diminuído, pelos motivos que elenquei.

 

Quais os principais motivos que levaram as pessoas a pedir apoios à Cáritas?

FM – Os motivos prendem-se essencialmente com a falta de emprego e com dificuldades no pagamento de despesas pessoais e familiares, embora grande parte das pessoas esteja a receber o Rendimento Social de Inserção.

 

Quais as vossas perspectivas para este novo ano que agora começou?

FM – Temos esperança de que a conjuntura actual melhore, com a implementação do plano de vacinação durante os próximos meses e com o regresso gradual dos serviços à normalidade. 

 

Avizinha-se um ano difícil ao nível social?

FM – É expectável que sim, considerando o agravamento das consequências da pandemia que estão previstas ao nível social e económico, nomeadamente ao nível do desemprego e da pobreza. Porém, independentemente das circunstâncias, tenho a certeza de que a Cáritas de Ilha de São Miguel continuará a apoiar os mais desfavorecidos dentro das suas respostas de intervenção social, em estreita articulação e através de reuniões semanais com as suas entidades parceiras do Pólo Operacional de Exclusão Social Grave, coordenado pelo Instituto de Solidariedade Social dos Açores, designadamente a Associação Novo Dia, a ARRISCA, a Casa de Saúde S. Miguel e o Centro Ocupacional da Câmara Municipal de Ponta Delgada, e com as entidades públicas competentes.

 

Acha que os pedidos de apoio vão continuar a aumentar?

FM – É provável que se constate um aumento do número de pedidos de apoio. Acima de tudo, é importante que as pessoas conheçam as respostas e as tipologias de apoio disponíveis na comunidade e em cada instituição que actua na área social. Se assim for, a intervenção será mais célere e eficaz.

 

Por Olivéria Santos