Mário Fortuna: “São precisas medidas mais duras e selectivas”

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Mario FortunaO Presidente da Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada está preocupado com a situação em S. Miguel e defende medidas mais duras e selectivas. Nesta entrevista Mário Fortuna manifesta ainda preocupação com a situação na SATA e com a época turística que se aproxima. Mais tranquila é a situação relativa aos apoios às empresas, que tiveram uma outra abordagem por parte do novo governo.

 

Com estas novas medidas restritivas nesta última semana e a eventualidade de outras que possam surgir nos próximos dias, devido ao agravamento da pandemia em S. Miguel, como é que os empresários estão a viver mais este contratempo?

Com muita apreensão, naturalmente. 

Por um lado, compreendemos que é necessário tomarem-se medidas para estancar o alastramento da doença, mas, por outro, estas medidas vão arrasando cada vez mais a nossa capacidade de sobrevivência económica. 

Pode comparar-se esta situação à de um naufrago que quer chegar à praia segura, mas sente que cada nova braçada vai ficando mais difícil, particularmente perante vagas sucessivas que o vão atrasando. 

 

As medidas para as empresas têm sido adequadas? Este novo governo alterou alguma coisa?

As medidas para as empresas, como sempre dissemos, eram, teoricamente, as adequadas, mas estavam mal calibradas. 

Isto é, a sua intensidade e o seu horizonte de aplicação ficaram sempre aquém do que perspectivámos seria necessário. 

O governo anterior assumiu sempre uma abordagem faseada, com períodos de revisão demasiado curtos, sabendo-se que os impactos seriam longos e persistentes. 

O remédio era o correcto, mas as doses eram erradas, por demasiado reduzidas.

O novo governo já reviu, atribuindo mais tempo e com maior intensidade, os apoios complementares a conceder ao programa vigente de recuperação da actividade económica. 

Já adaptou aos Açores o programa Apoiar.pt. 

Tem em revisão a generalidade das linhas de apoio para lidar com os impactos económicos e financeiros desta pandemia, em face das circunstâncias actuais. 

Temos percepcionado e constatado abertura para a prorrogação das medidas, para a sua intensificação e para a criação de novas medidas. 

É um processo muito exigente e muito urgente que terá de ser concluído com rapidez porque importa que se faça chegar às empresas liquidez efectiva e muita dela a fundo perdido. 

Esperamos que haja anúncios rapidamente.

 

Como é que vai ser a época turística? Estamos em condições de abrir a região totalmente?

Para abordar esta pergunta temos de dividir a época turística por trimestres. 

O primeiro, não há dúvidas, será desastroso, com quebras que poderão ser superiores a 80%, comparando com 2019 ou 2020.  

O segundo poderá ter um registo ligeiramente melhor se conseguirmos dominar esta nova vaga da pandemia. 

Será um registo melhor do que o do confinamento de 2020 mas, mesmo assim, não devemos esperar melhor do que uma quebra de 60 a 70% relativamente a 2019.

 A segunda metade do ano deverá ser de franca recuperação relativamente a 2020 mas com um registo final do ano que deverá ficar entre os 40 e os 50% de 2019. 

A caminhada vai ser longa. 

Quanto às condições de abertura total da Região, importa primeiro qualificar o que se entende por abertura total. 

Neste momento estamos totalmente abertos com regras muito específicas a cumprir por quem quer viajar, quer do exterior quer internamente. 

Este é para já, e para durar, o novo normal, que nos parece adequado à minimização dos riscos de contaminação. 

As circunstâncias regionais, nacionais e internacionais, no entanto, determinam que nem assim há clientes para esta abertura.   

 

Está preocupado com a situação na SATA?

Sim, há muitos anos. 

Preocupa-nos e entristece-nos a situação a que chegou a empresa pese embora todos os alertas que foram sendo lançados, com a devida antecedência e enquanto ainda podíamos atuar sem restrições externas. A preocupação, no entanto, vai dando lugar à constatação da fatalidade de a Região ter de assumir, sem outra opção viável, os custos enormes do mal que se acumulou e de ter piores condições agora para a retoma sensata da atividade da empresa, nos seus diversos quadrantes.

A preocupação, no entanto, vai dando lugar à resignação perante o facto de a Região ter de assumir, sem outra opção viável, os custos enormes do mal que se acumulou e de ter piores condições agora para a retoma sensata da atividade da empresa, nos seus diversos quadrantes.

 

E no transporte marítimo de passageiros e de carga, o que é que este novo governo devia fazer na visão dos empresários?

Seria urgente reunir os principais “stakeholders” deste sector para traçar objectivos de mudança que visem melhorar o contributo deste sector para a competitividade da Região e para o bem-estar da sua população.

Fixados os objectivos, a agenda de mudança deve basear-se mais na ciência e menos nos joguetes políticos que enviesam as soluções em prejuízo dos que se pretendia ajudar.

 A parte da ciência exige que haja uma nova abordagem técnica para se encontrarem soluções que atinjam os referidos propósitos da competitividade da economia e do bem-estar das populações. 

Este foi um “dossier” sempre enjeitado pelo governo anterior, mas que tarda em ser adequadamente revisitado, como ficou evidente nos episódios recentes envolvendo as Flores e o Corvo. 

Para este governo este processo deveria merecer a classificação de MUITO URGENTE.

 

Os números da pandemia em S. Miguel são graves. Considera que se devem tomar mais medidas duras?

Sim devem ser tomadas medidas mais duras, de forma inteligentemente e selectiva. Quando não havia forma de identificar os focos de contaminação as medidas eram cegas e transversais. Havendo forma de se identificar os focos as medidas devem ser muito firmes, dirigidas a estancá-los determinantemente. Não vale a pena encharcar a casa de banho quando o fogo está, claramente, na cozinha. A testagem, agora muito mais generalizada, é uma ferramenta importante para não actuarmos de forma cega.

 

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