Sob a protecção do Senhor Santo Cristo !

 DSCF3787Estamos de novo a celebrar uma das festas que mais tocam ao coração dos micaelense; e, porque não dizê-lo, da grande maioria dos açorianos, incluindo aqueles que, imbuídos por um apertado sentimento de saudade, que só  a ausência é capaz de justificar, estão espalhados pelo mundo - nomeadamente na América, no Canadá, nas Bermudas e no Brasil, - mas  que sempre acalentam aquele desejo de mística devoção e de profundo agradecimento para com a Veneranda Imagem do Senhor Santo Cristo e de  tudo  que rodeia o seu  secular culto.
Apesar dos tempos que correm, continuo a apostar que ninguém -  mesmo os que se dizem afastados daquela religiosidade popular que, com muita humildade e arreigada devoção, sempre lhes transmitiram os seus antepassados - possam ficar indiferentes, a esta  «Semana»  que está a decorrer e a todo o simbolismo que a mesma  encerra, não apenas por aquilo que se vai passar, nos arraias do Campo de S. Francisco, mas porque ainda são capazes de guardar,  bem no íntimo dos seus  corações, aqueles  sinais mais profundos que irradiam da Veneranda Imagem do Senhor da Esperança, pois  não há  casa  nem  família que não tenha um dia volvido o seu olhar, na fixação extraordinariamente bela e profunda que Ela  transmite, numa atitude de louvor ou de agradecimento pelo que lhes aconteceu na vida.
É por isso que, todos os anos, o «milagre» do Amor e da Concórdia se  repetem  ! ...
E, é sempre tão profunda e tão intima essa ligação que nunca, através dos tempos, faltaram literatos, fotógrafos  e  mesmo consagrados artistas plásticos que não  utilizassem,  como tema de muitos dos seus trabalhos, os mais belos pormenores que vão descobrindo Àquele «amoroso rosto», que tanto lhes toca  o  coração, quando sobretudo o fixam no seu andor adornado de lindas flores; ou então, em alguns passos  da  grande procissão de domingo que  percorre as ruas da nossa cidade.

É como que parafrasear o Poeta:
Meu Senhor Santo Cristo ! Quanto ardor
Em tal invocação que o peito aquece!
Meu Senhor Santo Cristo ! Quanta dor

Que se abranda ou se esvai, por esta prece !eu Senhor Santo Cristo ! Quanto alvor,
Bem no íntimo, com Fé, nos amanhece!
Meu Senhor Santo Cristo! Quanto amor
Palpita neste grito que enternece!
     
Felizmente nos últimos anos têm aparecido numerosas publicações, que cada vez mais vão aproximando e clarificando os devotos do secular culto, como que «desmistificando» aquilo que de mais «enquistado» envolvia outrora a vida conventual e os valores intrínsecos, dum  culto, que  partiu do século XVI,  foi fruto da devoção inabalável da Venerável Madre Teresa da Anunciada; o que talvez tenha contribuído para que cada vez mais os açorianos e quantos nos visitam de outras partes do mundo, também se impregnem dessa esperançosa proximidade com o «Seu Senhor», que parecia ser só micaelense,  mas  que  uma renovada  Fé tem iluminado e conduzido  a novos e  a promissores caminhos, muito para além dos Açores.
É que durante anos e anos, apenas podia «espreitar-se» a Imagem do Senhor Santo Cristo através das grades do coro baixo às sextas feiras, durante a habitual missa da manhã, que ali celebrava Monsenhor José Gomes, participada por devotos vindos de toda a ilha de S. Miguel.
Depois o coro fechava – se, até à próxima semana; e, por vezes, aos domingos, voltava a abrir-se…
Assim, durante toda a semana, a qualquer hora do dia ou da noite ( naquele tempo tudo ali era calmo e respeitoso), as romarias sucediam-se só até junto da porta principal, onde de joelhos, cada um batia três pancadas, como que a dizer:
   -  Senhor, o teu servo está aqui, num desabafo de  súplica ou  de agradecimento !
Hoje, felizmente que tudo é diferente; e, todos os dias, a Veneranda Imagem pode ser vista por quantos acorrem à Igreja da Esperança; e, ao fim da tarde, mesmo na sua  Capela, « inter- muros», dentro do Convento,  para um momento de oração mais profunda e comunicativa – um  quadro  que é sempre belo estar, no mais  profundo silêncio!
No seguimento desse proximidade, ainda no passado sábado o historiador / investigador, José de Almeida Mello – com fotografias inéditas de José António Rodrigues - lançava a sua 20º produção literária com a publicação do  livro ««Segredos do Convento –Nossa Senhora da Esperança», um conjunto histórico / fotográfico que, no dizer do zeloso Reitor, Monsenhor Agostinho Tavares, «nos esquadrinha tudo o que Santuário reserva como património e constitui o espólio do seu centenário Convento, através dum conteúdo literário  que  não é um beco sem saída, mas caminho seguro e profundo dos valores humanos e cristãos».
 Decerto que, mais este oportuno trabalho, muito virá a contribuir para cada vez mais aproximar os milhares de  devotos  do  Senhor Santo Cristo;  agora  não «escondido» atrás das naturais e então obrigatórias grades do  Convento, (que começou por ser de clausura Clarissa), mas para que esse culto possa  despertar sempre e cada vez mais  a nossa atenção, a nossa disponibilidade, o nosso acolhimento, sobretudo nas camadas mais jovens, de modo a que todos juntos « lhe abramos o nosso coração»!
É felizmente, por tudo isto, que cada ano que passa repete-se um novo  «milagre», ao redescobrirem que o Culto ao Senhor Santo Cristo é um dos mais impressionantes testemunhos, não só da vida e da  alma micaelenses, mas de toda a Igreja Diocesana, numa interpelação que se deseja manter e propagar quanto a uma vivência  permanente e apelativa aos  valores da Fé, da Caridade  e do  Amor ao próximo.
É como disse o Beato João Paulo II quando, há 11 anos, fixou, olhos nos olhos, a Imagem do Senhor Santo Cristo: « O amor e a adoração ao nosso Redentor, sob o perfil do Ecce -  Homo, foi-se arreigando cada vez mais na nossa vida – já lá vão mais de cinco séculos e meio de convivência vossa com o Senhor Santo Cristo, que encontra no meio de nós uma Casa hospitaleira, à semelhança da Casa de Lázaro e de suas irmãs Maria e Marta».
Assim, neste novo momento de festa de honra e de louvor, para com o «Príncipe dos Açores», que o nosso sentimento de esperança seja este: ILUMINAI, SENHOR, OS NOSSOS CAMINHOS !