A história do culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres

YV1G6104A história do Culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres, na ilha de São Miguel, começa no Convento da Caloura, em Água de Pau, no Concelho de Lagoa.
Reza a memória que foi nesse lugar que se erigiu o primeiro convento de religiosas na ilha, cuja fundação se deveu, principalmente, à piedade das filhas de Jorge da Mota, de Vila Franca do Campo.
Mas, para que tal comunidade religiosa fosse estabelecida como devia, foi necessário que alguém se deslocasse a Roma, impetrar a respetiva Bula Apostólica. Duas das suas religiosas largaram, então, de São Miguel, a ca­minho da cidade eterna, onde solicitaram ao Papa o desejado documento. Tão bem se desempenharam desta missão que o Sumo Pontífice não só lhes passou a ambicionada bula como, ainda, lhes ofereceu uma imagem do “Ecce Homo”.
De regresso a vale de Cabaços, a singular imagem foi posta num nicho onde se conservou por poucos anos. Porque o lugar era ermo e muito exposto às incursões dos piratas, o pequeno mosteiro ficou, certo dia, deserto, uma vez que, parte das religiosas seguiu para Santo André, em Vila Franca do Campo, e a outra parte, se encaminhou para Ponta Delgada, para o Mos­teiro da Esperança, acabado de fundar pela viúva do capitão donatário, Rui Gonçalves da Câmara.
A imagem do Senhor Santo Cristo não ficou esquecida em vale de Cabaços, porque a religiosa galega, Madre Inês de Santa Iria, a trouxe para Ponta Delgada.

A primeira
Procissão

No ano de 1700, a ilha de São Miguel foi abalada por fortes e repetidos tremores de terra. Duravam estes há já vários dias, quando a Mesa da Misericórdia e grande parte da nobreza da cidade, verificando que os ter­ramotos não cessavam, resolveram ir à portaria do Mosteiro da Esperança para levarem, em procissão, a imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
Ao princípio da tarde desse dia 11 de abril de 1700, juntaram-se as confra­rias e as comunidades religiosas. Concorreu, igualmente, toda a nobreza e inumerável multidão que, com viva fé, confiava se aplacaria a indignação divina com vista da santa imagem.
Caminhava já a procissão, em que todos iam descalços, e logo que a ve­neranda imagem se deixou ver na portaria, foi tão grande a comoção em todos que a traduziram em lágrimas e suspiros, testemunhos irrefragáveis da contrição dos corações.
Levaram o andor do Santo Cristo as pessoas mais qualificadas em nobreza. Andando a procissão, ia a veneranda imagem entrando em todas as igrejas onde, em concertados coros, Lhe cantavam os salmos “Miserere mei Deus”.
Saindo da Igreja dos Jesuítas, e caminhando para a das religiosas de Santo André, não obstante toda a boa segurança e a cautela com que levavam a santa imagem, com assombro e admiração de todos, caiu esta fora do andor e deu em terra. Foi esta queda misteriosa, porque não caiu a imagem por algum dos lados do andor, como era natural, senão, pela parte superior do docel.
O povo ficou aflito com sucesso tão estranho. Uns feriram os peitos com as pedras; outros, pondo a boca em terra, que julgavam santificada com o contacto da santa imagem, pediam a Deus misericórdia; estes, tomando os instrumentos de penitência, davam sobre si rijos e desapiedados golpes, re­gando a terra com o sangue das veias; aqueles, publicavam em alta voz as suas culpas, como causas da indignação do Senhor, e todos, com clamores e enternecidos suspiros, pediam a Deus que se suspendesse as demonstra­ções da sua justa vingança.
Verificaram, então, que a santa imagem não experimentara com a queda, dano considerável, pois somente se observou, no braço direito, uma con­tusão.
A imagem foi lavada e limpa no Convento de Santo André e, colocada outra vez, no andor, com a maior segurança, continuou a procissão, na qual as lágrimas e soluços do povo aflito embargavam as preces, até que, bem de noite, se recolheu no Convento da Esperança.
E, a cólera divina se aplacou.

(texto de época)