Caixa Geral de Aposentações nega processo de Reforma por Invalidez a invisual açoriano vítima de um AVC

virginioA Caixa Geral de Aposentações negou esta semana a reforma por invalidez a um invisual trabalhava como técnico de educação especial dando aulas de trabalhos manuais e Braille, e que está de baixa devido a um AVC ocorrido há cerca de 2 anos.
O acidente cérebro-vascular, que lhe limitou fortemente a sua independência motora, foi apenas o início de um calvário que ainda não parou. Depois do AVC começou a sofrer de diabetes e hipertensão e já teve mesmo de ser transportado para o Hospital de urgência. Sofreu também outros 2 AVC.
Virgínio Bento, que já foi presidente da secção regional dos Açores da ACAPO - Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal, é uma sombra do que já foi. Neste momento necessita de ajuda para se vestir e fazer as necessidades básicas. Mesmo para comer, a esposa refere que tem de ser observado, pois desenvolveu uma tendência para se engasgar!
Por isso a família decidiu iniciar o processo de reforma por invalidez, tendo em conta que será praticamente impossível Virgínio Bento voltar ao trabalho. Foi realizada uma Junta Médica para avaliar o seu estado de saúde, mas esta semana, quando a família recebeu o resultado do processo da Caixa Geral de Aposentações, a decisão fora negativa. A CGD alega que “a Junta Médica realizada em Ponta Delgada a 14 de Junho não considerou  em referência absoluta e permanentemente incapacidade para o exercício das suas funções”.  E manda que Virgínio Bento se apresente ao serviço nos próximos 30 dias, algo que a esposa refere ser impossível, tendo em conta a grandes limitações que entretanto desenvolveu.
As alternativas também são pouco positivas. A CGD prevê que a família possa apresentar recurso da decisão, para o que tem 60 dias. No entanto, uma nova Junta Médica terá de ser realizada no continente, e a expensas da família. Tendo em conda as suas evidentes limitações físicas, trata-se de uma despesa considerável, uma vez que terá de ser acompanhado e pernoitar em Lisboa!
O caso está a ser encarado com alguma estupefacção por parte da opinião pública micaelense. Fonte do Instituto de Desenvolvimento Social dos Açores já garantiu que irá ajudar a família de Virgínio Bento a ultrapassar a situação, mas não foi avançado em que termos.
O caso ganha um coontorno especial, tendo em conta a a vida de Virgínio Bento. Se há invisual conhecido nos Açores, ele é talvez o mais distinto. Neste momento com 50 anos de idade, estudou na Secundária Antero de Quental e rapidamente começou a desenvolver uma atitude de inconformismo perante a sua situação. Tornou-se num dos primeiros invisuais a dominar a linguagem Braille  (de que há apenas 20, num universo de cerca de 3 mil invisuais), chegando a ser monitor. Desenvolveu também grandes aptidões na realização de diverso artesanato e era comum vê-lo nas ruas de Ponta Delgada a vender as suas peças.
Lutou durante anos pela dignificação dos invisuais nos Açores e no fortalecimento da ACAPO em Ponta Delgada, muitas vezes entrando em confronto com as entidades oficiais. Chegou a propor um método, inventado por ele, para que os invisuais pudessem votar de forma autónomas nos actos eleitorais!
Este percurso de um autêntico combatente dificilmente se coaduna com este final, o que está a deixar muitas pessoas indignadas. Na sequência de uma reportagem na RTP-Açores, inúmeras pessoas têm demonstrado a sua indignação, nomeadamente nas redes sociais.