“Asma brônquica é a doença crónica mais frequente nas crianças”, diz médico Rodrigo Alves

rodrigo alvesAntes de mais, em que consiste concretamente uma alergia? Quais os principais sintomas e como é feito o diagnóstico?
A alergia é uma reacção de hipersensibilidade mediada por anti-corposIgE, ou seja, o organismo reage contra substâncias do meio ambiente que são toleradas pela maior parte das pessoas, montando uma reacção imunológica como se fossem substâncias agressivas para o indivíduo. É essa reacção do próprio organismo que vai desencadear os sintomas. No caso da rinite vai desencadear o nariz tapado e/ou a pingar, a comichão e os espirros que, em 70% dos casos, poderão acompanhar-se de queixas de comichão nos olhos e olhos vermelhos–sintomas de conjuntivite alérgica. No caso da asma brônquica, os doentes irão queixar-se de sensação de falta de ar, pieira, tosse e aperto no peito, que também são consequências da própria reacção do organismo contra os alergénios do meio ambiente. Para efectuar o diagnóstico, para além da história clínica e do exame objectivo pode ser necessário a realização de exames, como por exemplo, os testes cutâneos das alergias, as análises sanguíneas ou o exame funcional respiratório.

Uma vez diagnosticada a alergia, esta é crónica? Não há cura, pois não?
A alergia é, tendencialmente, uma entidade persistente, embora não seja uma doença estática. Ou seja, apesar de na maioria dos casos a alergia não desaparecer por completo, o tipo de manifestações clínicas e a sua gravidade são variáveis ao longo da vida. Do ponto de vista terapêutico, as alergias tratam-se com base em três vectores. Em primeiro lugar, a evicção, isto é, uma vez estabelecido o diagnóstico etiológico o doente adopta medidas específicas para evitar os alergénios a que é alérgico. Em segundo lugar, a terapêutica medicamentosa, que deve ser sempre indicada pelo médico e permite, na esmagadora maioria dos casos, controlar os sintomas e devolver ao doente a sua qualidade de vida. Em terceiro lugar, podemos, em alguns doentes, utilizar as vacinas anti-alérgicas, também designadas de Imunoterapia Específica, que constituem a única terapêutica que interfere na história natural da doença alérgica, ou seja, tem a possibilidade de realmente “curar” as alergias.

As pessoas com alguma alergia poderão controlar a sua doença através do Boletim Polínico. Pode-nos explicar como funciona?
O Boletim Polínico dos Açores resulta de uma profícua colaboração da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC) com o Departamento de Biologia da Universidade dos Açores e tem como objectivo informar a população dos Açores sobre os pólenes mais frequentes na atmosfera desta região, para que os doentes possam adoptar as medidas preventivas indicadas pelo seu médico e, dessa forma, melhorar a sua qualidade de vida. Para a sua concretização foi instalado, em 2006, um captador polínico no edifício do Complexo Científico do Campus Universitário de Ponta Delgada. Embora estes dados sejam divulgados, no site da SPAIC (www.spaic.pt), ao longo de todo o ano, a sua divulgação nos órgãos de comunicação social apenas se faz, quer a nível nacional, quer a nível regional, durante a Primavera, a estação do ano onde as alergias a pólenes têm um maior impacto na qualidade de vida da população.

O nosso clima caracterizado pela elevada humidade poderá influenciar o aparecimento ou desenvolvimento/agravamento de alergias?
Sim, a humidade elevada que existe aqui nos Açores tem duas consequências principais nos doentes alérgicos. Por um lado, é mais propiciadora ao desenvolvimento dos ácaros do pó e dos fungos e, por essa via, aumenta muito a prevalência de alergia a estes alergénios. Por outro lado, os níveis muito elevados de humidade dificultam a respiração do doente asmático e, portanto, levam muitas vezes a um agravamento dos sintomas respiratórios independente dos níveis alergénicos.
Quais os agentes alergénicos mais comuns nos Açores?
Qualquer substância do meio ambiente pode, em teoria, ser responsável por uma reacção alérgica. Dentro dos alergénios do ar (aeroalergénios) podemos ter alergia aos ácaros do pó, aos pólenes, aos fungos ou aos epitélios dos animais. Nos Açores, a alergia aos ácaros do pó é de longe a alergia mais frequente, seguida pela alergia aos pólenes, muito característica desta altura do ano–a Primavera. Tal como acontece em relação aos ácaros do pó, também a alergia a fungos ou bolores surge com frequência na nossa Região como consequência dos níveis elevados de humidade. Em relação a outros tipos de alergénios podemos destacar, por exemplo, a alergia a insectos, a alergia alimentar ou a alergia medicamentosa.

O número de pessoas alérgicas na Região tem vindo ao aumentar? Porquê?
Sim, os estudos apontam que a alergia tem vindo a aumentar a nível nacional e nos Açores, tal como acontece na maioria dos países ocidentais. Este facto resulta de vários factores como, por exemplo, da alterações do estilo de vida (maior sedentarismo), das alterações da dieta (ingestão de alimentos processados e com mais conservantes e ingestão de dietas hiper-calóricas com consequente obesidade) e das melhores condições de higiene (menor contacto com os agentes infecciosos). Esse aumento de prevalência faz com que seja cada vez mais importante insistir nas medidas de prevenção, com vista a colmatar esta epidemia do século XXI.

Que tipos de alergias existem e quais são as mais comuns nos açorianos?
A alergia é uma doença sistémica que atinge todo o organismo, embora possa manifestar-se preferencialmente em determinados órgãos.
Nos Açores, a rinite é o quadro clínico mais frequente, atingindo 20 a 25% da população, e caracteriza-se pela presença de sintomas como o nariz tapado ou a pingar, os espirros e a comichão no nariz. Em 70% dos casos a rinite pode acompanhar-se de conjuntivite, caracterizada pela presença de comichão nos olhos, olhos vermelhos ou a chorar, sintomas estes que surgem após o contacto com os alergénios, designadamente os ácaros, os pólenes, os fungos ou os epitélios de animais. A asma brônquica atinge 10% dos açorianos e os seus principais sintomas são a tosse, a falta de ar, a pieira e o aperto no peito. O eczema atópico, por outro lado, afecta cerca de 10% das crianças e caracteriza-se por lesões avermelhadas e descamativas na pele acompanhadas de muita comichão. Adicionalmente existem ainda outros tipos de alergias menos frequentes como, por exemplo, a urticária, o angioedema ou a anafilaxia–uma reacção alérgica grave e potencialmente fatal.

Atingem mais adultos ou crianças? E em termos de distribuição por sexo, qual o mais frequente?
As doenças alérgicas são mais frequentes nas crianças e têm um grande impacto na sua qualidade de vida e na qualidade de vida da restante família. A asma brônquica, por exemplo, constitui a doença crónica mais frequente na criança. Este facto, aliado às possíveis sequelas e às limitações terapêuticas inerentes a esta faixa etária tornam imperativo o diagnóstico o mais precocemente possível. Em relação à distribuição por sexo, embora na faixa etária pediátrica o sexo masculino seja o mais afectado, na população em geral as mulheres têm uma prevalência de doenças alérgicas ligeiramente superior à dos homens.

As alergias podem passar de pais para filhos?
A alergia é uma doença multi-factorial, resultando da interacção de factores hereditários com factores ambientais. É sabido que, uma criança filha de um casal em que um dos pais tem alergia tem um terço de probabilidade de vir a ter alergias. Se ambos os pais têm doenças alérgicas, a criança tem dois terços de probabilidade de vir a desenvolver alergias.

A obesidade aumenta a gravidade das alergias?
Sim, está demonstrado que a obesidade está intimamente relacionada com as alergias, quer em termos de prevalência, quer em relação ao aumento da gravidade. Sabemos, por exemplo, que um doente asmático obeso, em virtude das alterações hormonais que dai advêm e da menor capacidade respiratória, tem queixas mais intensas e mais difíceis de tratar do que num doente não obeso.

E, particularmente, no seu caso, tem havido uma maior afluência de pessoas à sua consulta nesta altura do ano?
Sim, neste final de Inverno e início de Primavera houve uma inconstância do tempo. O maior número de infecções respiratórias em virtude desta instabilidade meteorológica fez com que os doentes com alergia respiratória se constipassem, tivessem infecções respiratórias e daí agravassem a sua alergia e precisassem de ir ao médico.

Existe algum plano alimentar mais adequado para prevenir as alergias?
A adopção de um estilo de vida saudável e a prevenção da obesidade, designadamente através da prática de exercício físico, da evicção de dietas hiper-calóricas e evicção de alimentos processados, ricos em conservantes, estão reconhecidamente associados à prevenção das doenças alérgicas.

Pode-nos explicar a principal diferença entre as alergias e as constipações? Por vezes, as pessoas dizem que estão constipadas durante o ano inteiro, quando não é bem assim…
Exacto. A constipação é uma doença infecciosa. É consequência de uma infecção viral das vias respiratórias superiores, originando os sintomas de todos conhecidos, designadamente, nariz tapado, nariz a pingar e espirros, mas estes sintomas são, por definição, auto-limitados, ou seja, ao fim de 3-4 dias o doente tem de estar novamente bem. Na alergia, pelo contrário, o doente vai apresentar sintomas durante mais tempo, enquanto estiver exposto àquilo a que é alérgico. Se for alérgico aos ácaros do pó, por exemplo, vai ter sintomas quase todo o ano, embora de forma mais intensa no Outono e na Primavera. Não existem constipações que durem semanas, meses ou anos. Se a pessoa tem sintomas durante mais do que uma semana, seguramente não é apenas uma constipação e pode muito bem ser uma alergia.

A pessoa com poucas defesas no organismo tem maior probabilidade de sofrer de alergias?
A pessoa que sofre de alergia respiratória tem maior susceptibilidade às infecções respiratórias, mas este facto não significa necessariamente que essa pessoa apresente diminuição global das defesas do organismo. É a inflamação motivada pela alergia que determina uma maior susceptibilidade às infecções no órgão atingido pela doença alérgica. 

As pessoas que vivem na cidade têm mais probabilidade de virem a sofrer de alergias do que as pessoas que habitam no campo, o que não deixa de ser contraditório porque quem vive no meio rural está mais em contacto com a natureza e com os agentes alergénicos…
O que se passa é que os poluentes ambientais como, por exemplo, as partículas de exaustão diesel ou o fumo do tabaco, para além de lesarem a mucosa respiratória, aumentam a agressividade dos alergénios e, desta forma, aumentam a prevalência das alergias. Assim, nos meios urbanos não só há maior prevalência de doenças alérgicas como também os quadros clínicos tendem a ser mais graves e mais difíceis de controlar.

Que recomendações médicas deixa às pessoas alérgicas e à população em geral, agora na Primavera?
A principal recomendação que gostaria de deixar é a de alertar as pessoas para adoptarem estilos de vida saudáveis e serem exigentes com a sua saúde. As doenças alérgicas são muito prevalentes e têm um impacto significativo na qualidade de vida sendo, no entanto, frequentemente sub-diagnosticadas e sub-tratadas. Salienta-se, adicionalmente, que a precocidade no diagnóstico é essencial, pois só assim se poderá prevenir a progressão da doença, evitar o aparecimento de sequelas e restituir a qualidade de vida.
Assim, caso apresentem queixas sugestivas de alergia devem procurar ajuda junto do seu médico assistente, que os encaminhará para um Especialista em Imunoalergologia, caso se justifique.