TAP pode estar interessada em reaver rotas da SATA Internacional

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sata-internacional1De um momento para o outro, o caos parece ter-se instalado na SATA: voos atrasados ou cancelados por uma série de razões, excesso de zelo sobre acordos laborais concedidos nos últimos anos, culpas repartidas por pilotos e administração...
À primeira vista, será tudo devido à falta de acordo entre os sindicados e a empresa, que levou às greves do Rally Açores e do Santo Cristo. Mas tudo indica que neste momento existem forças bem mais poderosas a mexer alguns cordelinhos – e aparentemente, ou com a conivência do Governo Regional ou sob a sua distracção.
Quem é o novo jogador? Tudo indica que se trata da TAP e do próprio Governo da República, no sentido de reintegrar os apetecíveis mercados dos Açores (Ponta Delgada e Boston e Toronto) nas rotas regulares da empresa nacional com vista à sua privatização.
A verdade é que a vitória da SATA no controlo das ligações de Ponta Delgada com Lisboa nunca foi bem assimilada pela TAP, que chegou a pensar que ganharia. E agora, com o processo da sua privatização, o negócio “Açores” voltou a estar em cima da mesa. Toda a instabilidade na SATA não podia chegar em melhor hora.
Quem tem acompanhado o processo dos transportes aéreos, também já percebeu que o Governo da República parece ter algum problema com a resposta às cartas que o Governo Regional lhe envia. A última, sobre a eventual ilegalidade de abranger os pilotos da mesma isenção da TAP, foi lida pelo actual Secretário do Turismo como a comprovação da sua ilegalidade. Será mesmo? Ou apenas uma forma de contribuir para a confusão regional?
O facto é que tudo parece estar a correr mal para o Governo Regional no dossier da SATA. 
Ontem na Assembleia Legislativa, o Secretário Regional do Turismo e Transportes voltou a defender que o Governo Regional pretende que se encontre “uma solução que seja boa para os trabalhadores do Grupo SATA e que seja boa para a própria companhia, garantindo a sua sustentabilidade”. Para o secretário regional, é necessário que “se encontre uma solução que seja boa para todas as partes e que, acima de tudo, contribua activamente para que a SATA desempenhe o seu papel, que é de extrema importância ao nível da mobilidade dos Açorianos e ao nível da economia açoriana”, na defesa de um “serviço que garanta a mobilidade a todos os açorianos, com um preço competitivo e igual para todos”. Ou seja, nada de novo.
Em relação à polémica dos serviços mínimos prestados pela SATA nos dois recentes períodos de greve, justificou que “ao não fazer voos circulares, a empresa tentou potenciar o maior número de passageiros transportados, garantindo sempre que, pelo menos nesse período, todas as ilhas fossem abrangidas”.
O PSD/Açores considerou que “o Governo Regional e a administração da SATA Air Açores foram incompetentes” nas negociações com a plataforma sindical e segundo o deputado Jorge Macedo, a tutela “apenas apresentou desculpas esfarrapadas, não assumindo a sua ineficiência em todo o processo”. “O Governo Regional foi o incendiário-mor das negociações. O Governo Regional e a administração da SATA foram incompetentes nas negociações, sobre as quais os açorianos perceberam que o governo não quis ceder nem um milímetro”, avançou, referindo que “um bom negociador não deita gasolina para cima da fogueira. E o que vimos foram declarações incendiárias, que nem um negociador amador faria”.

Causas dos atrasos

Sobre o cancelamento de voos e atrasos que afectaram 800 passageiros nos últimos dias o porta-voz da companhia, em declarações à Lusa, já tinha dito que se deveu à obrigatoriedade de dar descanso às tripulações. Mas  Jaime Prieto, do sindicato de pilotos, afirma que há pilotos sem poderem voar porque a SATA não mandou realizar a tempo exames técnicos a que estão obrigados.
Os sindicatos disseram à Antena 1 que “a administração executiva da empresa e a sua gestão operacional têm obrigações junto do regulador nacional, o Instituto Nacional de Aviação civil, que obrigam a que os seus pilotos façam determinados exames com regularidade. São avaliações técnicas anuais, algumas delas até semestrais. O que acontece é que a empresa neste momento, por falta de ter cumprido com estes exames, que é da total responsabilidade da empresa, tem pilotos no chão que não podem estar neste momento a voar e que agora vêm dizer que é o descanso das tripulações”. É esta a explicação do sindicato dos pilotos para os atrasos e cancelamentos.
Em comunicado, a SATA assumiu que as avaliações técnicas obrigatórias “são um dos elementos que estão a contribuir para estes atrasos mas também situações de reforma, baixas médicas, férias e folgas que provocaram uma diminuição de capacidade de resposta às necessidade de operação”.

A negociação

Com novas rondas de negociação, nada parece resolvido. A administração da SATA diz que “está aberta ao diálogo” mas para a mesa de negociações leva de novo “maiores rendimentos em troca de maior produtividade; nós já apelamos aos sindicatos para que percebam, de facto, que nós temos de trabalhar nas ditas matérias com acolhimento legal na SATA. Vamos ir ao encontro das reivindicações dos trabalhadores na lógica de maiores rendimentos mas com mais produtividade para a companhia porque só assim é que é legal, é legítimo e é sustentável”.
Jaime Prieto, diz que a proposta da SATA não é aceitável; “nós já dissemos ok. Não é nos moldes da TAP, então seja no moldes de conveniência e de acordo com aquilo que o accionista quer. Agora nós não estamos dispostos a virem propor que aquilo que se tem no continente, nos Açores só seja atribuído contra o aumento de produtividade. É contra este principio que iremos lutar enquanto for necessário”.

A saúde da SATA

A serem tidas em conta anteriores afirmações que garantiam que a empresa estaria em dificuldades de garantir os ordenados devido à perda de alguns voos durante as greves, parece evidente que a SATA está em apuros. E por cada voo cancelado, mais em apuros fica. Se a culpa é, como os sindicatos dizem, da organização da empresa, o actual conflito pode ser encarado como suicídio; se a culpa é do excesso de zelo, poderá ser considerado assassinato! Mas em qualquer das opções, a vida da SATA está sempre em risco! O próprio Relatório e Conta da empresa para o ano de 2012 faz antever um aperto forte: apesar das reduções de ordenados ocorridas por via do Orçamento de Estado, a empresa apenas conseguiu um lucro de 70 mil euros.
A TAP, que integra já a Portugália, olha ao lonje como ave de rapina e a cada novo patamar de fragilidade da SATA vê aproximar-se a sua oportunidade de aglutinar mais um mercado. O Governo da República vê a questão como a possibilidade de juntar num só “bolo” todo o mercado nacional nas mãos da empresa pública, que está em vias de ser privatizada. E quanto maior for o “bolo”, maior o negócio!
A lentidão com que o Governo da República está a tratar as propostas de obrigações de serviço público apresentadas pelo Governo Regional  é encarada por alguns observadores como sendo parte dessa estratégia. Daí a imaginar que os sindicatos também estejam a ser instrumentalizados no mesmo sentido, é um pequeno passo. Que negócio poderá já ter sido estabelecido isso é mera especulação, mas não deixa de ser estranho que os pilotos pareçam tão insensíveis ao facto da sua atitude estar a ser fortemente condenada pela opinião pública regional.
Em todo este enredo, a contratação de um continental para a administração da SATA pode ser lida como mais um “tiro no pé” da administração regional, uma vez que, numa situação extrema, a sua lealdade nunca será para com os interesses regionais mas para com os interesses da República, o que é normal em quem não tem qualquer outra ligação formal aos Açores: uma lealdade aparentemente partidária, que poderá ter um preço bastante elevado...