Cerca de dez mil visitantes passam, por ano, pelos museus da Ribeira Grande e a maioria são estrangeiros

Museu vivo do franciscanismo“O museu é o espaço que complementa a comunidade, preserva a sua memória e permite-lhe avançar, destacando um ou outro aspecto da sua identidade. O museu é, no fundo, a comunidade, independentemente da natureza que comporte o seu espólio”. Afirmações da adjunta da Cultura da autarquia da Ribeira Grande que falou com o Diário dos Açores, no âmbito do Dia Internacional dos Museus. Lurdes Alfinete revelou que está a ser equacionada a criação de um roteiro museológico, que pretende orientar os turistas pelos quatro museus do centro do concelho.

Desde 2005 que o município da Ribeira Grande tem apostado fortemente na área da cultura. Exemplo disso são os diversos núcleos museológicos que se podem encontrar naquele concelho e que, anualmente, recebem cerca de dez mil visitantes. Um número avançado ao Diário dos Açores, pela adjunta da Cultura da autarquia ribeiragrandense, Lurdes Alfinete, numa entrevista realizada no âmbito do Dia Internacional dos Museus, que se comemora hoje.
Actualmente, o concelho da Ribeira Grande conta com quatro museus distintos. São eles o Museu Municipal, a Casa do Arcano, o Museu da Emigração Açoriana e, o recentemente inaugurado, Museu Vivo do Franciscanismo. Os quatro núcleos acabam por ser, nas palavras de Lurdes Alfinete, um modo de contribuir para a “afirmação do concelho como pólo de cultura da ilha de São Miguel”, bem como uma forma de “perpetuação da memória e da identidade de um local, das suas gentes e vivências” e de promoção em termos turísticos.
“A cultura é, sem dúvida, um motor impulsionador do turismo e, apostando em tempos, actividades e espaços diferentes e apelativos, poder-se-á trazer muitos visitantes”, afirmou a adjunta da Cultura.
A maioria das pessoas que vai conhecer os museus é do estrangeiro. Lurdes Alfinete revelou que a população açoriana e do continente visitam os espaços “de forma esporádica”, “em momentos específicos do calendário-cultural”. É o caso da Casa da Cultura, parte integrante do Museu Municipal, que na quadra natalícia apresenta um elevado número de visitantes, que vão apreciar o presépio movimentado do Senhor Prior.

Aproximar a população aos núcleos museológicos

Apesar de os açorianos, e portugueses em geral, representarem a minoria dos visitantes, a responsável pela área da cultura defendeu que o número de visitas aos núcleos museológicos da Ribeira Grande não tem vindo a diminuir. “As pessoas estão cada vez mais conscientes da sua identidade, do seu papel enquanto cidadãos e revelam, em crescendo, mais vontade de conhecer a sua história e o que a terra oferece”.
“O arquipélago sempre teve fortes tradições culturais que procurou preservar e propagar”, frisou.
Tendo em conta esta realidade, uma das preocupações da autarquia tem passado por adoptar estratégias que aproximem a população aos museus do concelho. Uma das medidas tomadas passou pelo alargamento do horário de funcionamento daqueles espaços, que actualmente abrem as portas ao público das 9 às 17 horas. Além disto, Lurdes Alfinete apontou o trabalho de promoção que tem sido feito junto das crianças e da população sénior. “A equipa que trabalha em torno destas valências procura dar a conhecer os espaços através da instituição anual de um programa pedagógico que traz aos espaços cerca de cinco mil crianças todos os anos”, salientou, acrescentando que a aposta na proximidade com as pessoas passa também pela divulgação dos museus como oferta cultural nas redes sociais e no sítio electrónico (criado para o efeito).

O “quarteirão museológico”

Uma situação curiosa, e pouco comum se comparada com outros concelhos da ilha, é o facto de os quatro museus da Ribeira Grande se encontrarem a pouca distância uns dos outros. Uma realidade que, para muitos dos que visitam a zona, passa despercebida. É neste sentido que surge, portanto, a necessidade de se desenvolver uma espécie de circuito que oriente os turistas pelos vários espaços. “É cada vez mais pertinente a criação deste roteiro e é algo que, de momento, já está a ser equacionado, na sequência do que ultimamente se entende como «quarteirões museológicos»”, referiu a responsável pela Cultura do município.

O Museu Municipal

Um dos principais espaços a constar neste roteiro será o Museu Municipal, o único que integra a Rede Portuguesa de Museus. Com vários núcleos, a sua sede no Solar de São Vicente, na freguesia da Matriz, conta com várias exposições em permanência, desde a Arqueologia, Arte Sacra, Moinhos de Água, Lagar, Arquitectura “chã”, a Azulejaria, Trajo e Cerâmica.
O museu tem “um cunho etnográfico e lá o visitante pode partir à descoberta de artes e ofícios que tão bem caracterizaram a Ribeira Grande - como a oficina de marcenaria ou a sapataria -, assim como de uma cozinha tradicional ou de uma farmácia que parece transportar-nos no tempo”. Lurdes Alfinete relembrou, no entanto, que “o ícone deste espaço continua, todavia, a ser o emblemático Presépio Movimentado do Senhor Prior, passível de ser observado de perto todo o ano”. Em destaque também neste núcleo museológico estão as oficinas tradicionais, que retratam como era uma sapataria, uma carpintaria, uma barbearia ou a latoaria antigamente, naquele concelho.

Museu Casa do Arcano

Outro espaço que integra a oferta museológica da Ribeira Grande é o Museu Casa do Arcano. Situado na Rua João D’Horta, trata-se de uma recuperação da casa de Madre Margarida do Apocalipse que acolhe o 1º Tesouro Regional dos Açores – o Arcano Místico. A obra da Madre Margarida contém os Mistérios mais importantes do antigo e novo testamento, segundo afirmou a própria autora no seu testamento, escrito em 1854.
Os vários quadros, dispostos nos três pisos da casa, são compostos por pequenas figuras, moldadas à mão e formadas por vários materiais, tais como farinha de arroz, gelatina animal, goma-arábica e vidro moído.
“A diferença que marca esta obra, a minúcia, o amor e o rigor que decerto foram utilizados na sua concepção não deixam ninguém indiferente”, afirmou Lurdes Alfinete sobre a Casa do Arcano.

Museu Vivo do Franciscanismo

Desde Fevereiro do presente ano que o “quarteirão museológico” da Ribeira Grande conta com mais o Museu Vivo do Franciscanismo. O seu objectivo passa por contribuir para o conhecimento da dimensão evangelizadora, pedagógica e cultural da Ordem Franciscana. Este espaço, situado na antiga Igreja de Nossa Senhora da Guadalupe, retrata a história do Franciscanismo naquele concelho com, por um lado, o espaço da igreja conventual, onde se identificam as áreas de devoção e os rituais identitários do Catolicismo e, por outro lado, salvaguarda o Património Imaterial referente às actividades da Ordem dos Terceiros.
Os visitantes poderão apreciar a igreja do antigo convento, com os retábulos, altares, imagens, altar-mor, bem como diversos elementos expositivos que explicam a vida de São Francisco de Assis, a presença da Ordem Terceira da Penitência na Ribeira Grande e nos Açores e a realização da Procissão do Senhor Santo Cristo dos Terceiros. O espaço possibilita ainda a visualização de um filme sobre a história do convento e sobre a arte de “vestir os santos”. “É o Museu Vivo porque, anualmente, o seu espólio sai à rua, numa comunhão única com a comunidade”, explicou a adjunta da Cultura da autarquia ribeiragrandense.

Museu da Emigração Açoriana

Já o Museu da Emigração Açoriana, “também único na sua génese”, segundo Lurdes Alfinete, “possibilita o contacto com as migrações, enquanto parte integrante da história passada e presente” dos açorianos.
“Ganha, ainda, outro sabor uma visita a este museu pela oportunidade de se consultarem as Fichas de Emigrante”. A adjunta da cultura realçou que, muitas vezes, os visitantes acabam por descobrir ligações familiares registadas nos documentos.