Funcionário da Câmara de Ponta Delgada morre esmagado por camião do lixo

carlos paulos mergulhoAs empresas que se dedicam ao turismo subaquático, na ilha de São Miguel, encontram-se actualmente numa situação de “desespero”. Segundo o representante do Núcleo de Operadores de Mergulho desta ilha, há falta de estratégias, por parte do Governo Regional, que auxiliem este ramo do turismo. O número de turistas têm vindo a diminuir e Carlos Paulos reclama por mais “ligações aéreas e tarifas que sejam realmente atractivas”. Quanto ao futuro, o instrutor de mergulho afirmou ao Diário dos Açores que vê “pouca luz ao fundo do túnel”.

Como é que é ser operador de mergulho na ilha de São Miguel?
Neste momento é um desespero. Não temos turistas a chegar, não temos as devidas ligações aéreas para os Açores, ou, se temos, não são publicitadas a tempo, junto dos turistas. Não há uma continuidade na aposta em estratégias para o turismo. No ano passado, interromperam a vinda dos finlandeses, agora já se fala em parar os voos de França, porque estão, segundo dizem, a provocar prejuízos. Tudo isso a juntar ainda às greves. Enfim…
Depois, deparamo-nos com a não concretização de medidas já prometidas. Por exemplo, continuamos à espera que venham duas bóias para colocar no Dori - um barco afundado, que é ícone de mergulho em São Miguel - e até agora nada. Não se faz nada pelo turismo. Nada de concreto e nem bem pensado.

Esta questão das viagens aéreas já é uma questão antiga...
Correcto. As pessoas têm que perceber que sem turistas não há turismo. E os turistas, para os Açores, só podem chegar de avião. Tem que haver ligações e tarifas que sejam realmente atractivas. Além disso, as medidas estratégicas devem ser bem pensadas, bem promovidas e atempadamente. Há medidas que nunca são promovidas a tempo, para que se possam traduzir num incremento no turismo.
Por exemplo, a campanha “Ticket Menu Açores”. Eu questiono-me quantas pessoas terá trazido, essa ideia brilhante, aos Açores. Tem que haver estratégia. Tem que haver conhecimento do que se está a fazer e pensar as coisas com cabeça.

Considera que o executivo açoriano regional não tem apoiado os operadores de mergulho?
Directamente, não tem feito praticamente nada. Continuamos com o sem apoios para a actividade. Veja, por exemplo, os pescadores. É uma actividade subsidiada por todos os motivos, enquanto que outros sectores, em que o governo diz querer apostar, não o são.
E, portanto, eles têm portos de borla e nós pagamos as marinas. Têm casas de apresto e nós pagamos as nossas instalações. Têm combustíveis subsidiados e nós, que usamos gasolina, não o temos. É um sem número de condições que faz com que seja muito difícil rentabilizar uma operação destas. Além do mais, temos a nossa época muito curta. Não tenho nada contra a pesca. Não gosto é que as coisas se tornem insustentáveis, que é o que está a acontecer. Além do mais, estão a pescar de mais. O que inviabiliza outras actividades, como é o caso do mergulho.

Em 2012, afirmou que muitas empresas de mergulho poderiam vir a fechar portas. Isso aconteceu?
Sim, já aconteceu. Já aconteceu terem que fechar a empresa durante algum tempo e ir trabalhar para fora. Já aconteceu terem que se mudar para instalações muito mais pequenas e económicas, o que faz com que, depois, também não consigam prestar o mesmo tipo de serviços aos turistas. Eu diria que muitos ficam à espera de se fazer dinheiro com o verão, mas depois regressa a desgraça, no inverno.

Estamos a falar de quantas empresas?
Não consigo especificar um número. Mas sei que não estão com perspectivas muito boas.

É possível dizer-se que a crise contribui para o decréscimo de turistas que vêm praticar mergulho para a região?
A crise não tem nada a ver com isto. A aposta em mercados errados e a falta de estratégia é que têm a ver. Por exemplo, em Cabo-Verde, o turismo cresceu quase 30 por cento. Quem vai para Cabo-Verde são os europeus, ou seja, o mesmo mercado que vem para os Açores. Isto não é crise, aliás isso é uma crise de estratégias de transportes. Comparando o mergulho dos Açores, com Cabo-Verde, nós temos condições muito melhores. E responsabilizar a crise ou o governo central, ou seja lá quem for, é tentar tapar os olhos às pessoas. A verdade é que para outros destinos, as coisas funcionam.
Agora, se nós temos greves em época do Sata Rallye Açores e das festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, há que haver alternativas. Tem que haver alternativas para quando alguém decide fazer greve. Não se pode bloquear uma região desta forma. As pessoas não podem ficar dependentes destas situações. Isso leva a que as pessoas fiquem com medo de marcar viagens para os Açores.
No turismo não podemos ser prejudicados desta forma continuamente.


Qual é a solução?
A solução é óbvia, tem que haver mais companhias a voar para os Açores. Deviam existir várias hipóteses para os turistas, com diferentes preços. Alternativas para quando há greve. Além de que, qualquer companhia que seja muito mais comercial, como a easyJet, publicita os seus voos de outra forma e chega muito facilmente a muita gente, portanto, trás muita gente também. Porque isso não passa só por disponibilizar um voo de Frankfurt ou de Munique. Há que saber comercializá-lo e há que ser agressivo na forma de vender o produto. E é isso que uma companhia sozinha em monopólio não tem. Ou não terá que ter esta preocupação, sequer.

Recentemente, a Associação dos Operadores de Mergulho dos Açores alertou para a massificação do turismo subaquático. Partilha da mesma opinião?
Eu não vejo onde isso acontece. Acho que esta preocupação deve surgir quando atingirmos um aumento de 500 por cento no número de turistas que vêm praticar turismo subaquático. Neste momento, não há turismo, quanto mais massificação. E quem fala em massificação deviam conhecer o turismo, porque nós não temos números para estarmos preocupados com esta questão. Mesmo que todos os aviões que aterram nos Açores viessem lotados com turistas para praticar turismo subaquático, não haveria massificação. Naturalmente há que ter cuidados e seguir estratégias, pensando no futuro, mas, neste momento a massificação não é uma preocupação.
A ideia que estão a fazer passar é de que não querem mais ninguém a operar cá, para evitar gerar mais concorrência às empresas já existentes.

Quantas empresas de operadores de mergulho existem na ilha de São Miguel?
Cerca de sete.

É um número excessivo para a ilha?
Não, de maneira alguma. Nem para o potencial que a ilha e o mergulho têm em São Miguel. O que há é falta de turistas. Não é um número excessivo de operadores, até porque temos vários sítios por onde operar. Há espaço para os operadores que existem e quem me dera que que se justificasse que houvesse mais. A questão é que, com os números do turismo que temos, não se justifica coisa nenhuma.

Quais os melhores meses para a prática de mergulho?
Na minha opinião, o final do verão é a melhor altura. O mês de Setembro é perfeito e Outubro costuma ser excelente. Mas claro que a partir de agora, que entramos para a época de Verão, é sempre muito bom.

Diz-se que a costa do continente português não tem a mesma qualidade, a nível de diversidade subaquática, em comparação com os Açores.
Claro que não. Eu diria até que o melhor sítio do continente não chega aos calcanhares do pior sítio dos Açores.

O que é que podemos encontrar nos mares da região?
Um pouco de tudo, apesar de, em alguns sítios, já se notar demais a pesca excessiva. Mas realmente os Açores, por vários motivos, como é o caso das correntes do Golfo, têm uma riqueza e até uma temperatura de água que é muito agradável e que cria condições fantásticas para o mergulho. Por exemplo, nós ainda temos alguns tubarões, o que atrai muitos turistas. Se bem que existe aqui alguma falta de estratégia. Por um lado, promove-se o mergulho com tubarões e, ao mesmo tempo, andam a capturá-los para vender a 50 cêntimos na lota. Isto é um absurdo, quando cada turista paga 150 euros para mergulhar com esta espécie. A região ganha muito mais com os tubarões vivos. E é este tipo de estratégia que tem que haver.

Acha que pode haver alguma forma de conciliar as duas partes?
Tem é que haver uma definição do que querem para a região. Se querem só pesca e agricultura, são escusados mais investimentos em mais estruturas turísticas. Mas se querem turismo para a região, então há que repensar algumas das apostas feitas em outros sectores, que influenciam o turismo. “Dar tiros” para ambos os lados é que não pode ser.

Um outro assunto, que foi abordado há alguns anos atrás, é a questão da certificação das garrafas de mergulho. Antes, tinha que ser feita no continente, o que acarretava custos para as empresas. Actualmente, como decorre este processo?
As garrafas, quer por lei nacional, quer por normas europeias, têm que ser submetidas a provas, de tempos a tempos, para verificar se continuam a ter as suas propriedades para a prática de mergulho. É uma lei que se aplica, igualmente, a todos os contentores de alta pressão, como é o caso das garrafas de gás. As provas hidráulicas já se fazem em São Miguel desde há cerca de três anos. Mas, antes disso, já havia empresas fornecedoras de gás na ilha que tratavam do transporte das garrafas para o continente e da realização das provas necessárias. Não vejo que isso, alguma vez, tenha sido um problema.

A questão que se coloca é o que sairá mais em conta, a realização destas provas ou a aquisição de novas garrafas?
Uma garrafa de ar pode custar cento e poucos euros, enquanto que uma prova hidráulica ronda os 45 ou 50 euros, tratando-se já de uma garrafa usada, que carece de manutenção. É como acontece com as televisões. Às vezes mais vale comprar outra, do que mandar arranjá-la. Massificou-se tanto a produção de garrafas que, hoje em dia, sai barato comprar uma nova, pelo que os custos com as provas hidráulicas acabam por não compensar. Mas este problema não se regista apenas nos Açores. É uma realidade existente em qualquer país.

Em São Miguel, as provas hidráulicas podem ser feitas onde?
Actualmente, só em Vila Franca do Campo. Mas continuam a existir outras empresas que, como faziam antes, têm tratado desta questão.

Que feedback tem recebido dos turistas que mergulham em São Miguel pela primeira vez?
Há mergulhadores - e estamos a falar de instrutores, de pessoas que já estiveram nas Maldivas, no Mar Vermelho, em todas as “mecas” de mergulho no mundo - que já regressaram sete e oito vezes. Eu acho que isto diz tudo sobre as potencialidades do mergulho nos Açores. Se não gostassem, não voltariam. Se esta área for realmente protegida e estrategicamente comercializada, os Açores têm um potencial enorme em termos de turismo de mergulho. É pena que pouca gente acredite nisso e tome as medidas necessárias para que esta realidade se torne possível. Nos últimos anos, o que tem sido feito neste sentido é praticamente zero. Não podemos dizer que nada foi feito, mas são medidas desconectadas umas das outras, sem uma estratégia real que acredite que o mergulho pode ser uma mais-valia para o turismo nos Açores.

Vê uma luz ao fundo do túnel?
Sinceramente, não. Infelizmente, há que mudar mentalidades, hábitos que estão já enraizados e um sem número de outras coisas, o que me faz ter dificuldade em ver uma mudança no futuro. Espero estar completamente errado, mas a verdade é que há pouca luz ao fundo do túnel.