Desastre dos resultados começa no 1º ciclo!

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primeiro cicloA média geral das Provas Finais do 4º ano no ano lectivo 2012-2013 foram negativas tanto em Português como Matemática, embora muito melhores nesta disciplina do que no domínio da língua materna. A média final em Matemática foi de 46,6%, e em Português apenas 41,4%.
O desastre, especialmente em Português, fica bem evidente no facto de apenas 34,2% dos alunos terem conseguido positiva (resultados de nível 3, 4 e 5): ou seja, quase 2 terços dos alunos tiveram negativa. Quanto a Matemática, apenas 43,3% dos alunos conseguiram nota positiva.
A nível nacional o Português também foi a disciplina mais penalizada, mas a diferença é significativa: de uma média nos Açores de 41,43% para 48,7% no continente, e em Matemática, de 46,6% nos Açores para 56,9% no continente.
Também entre agrupamentos escolares, há uma diferença, apesar de ligeira, entre o de Ponta Delgada e de Angra do Heroísmo, com benefício dos grupos central e ocidental: em Português, uma média de 40,99% em Ponta Delgada e de 42,2% em Angra do Heroísmo, enquanto que em Matemática registou-se 45,85% em Ponta Delgada e 47,84% no agrupamento de Angra. Apesar de tudo, médias sempre negativas para a generalidade do arquipélago.
Crânios também não abundam: apenas 1,74% de notas de nível 5 em Matemática e 0,21% em Português, e 14,66% de nível 4 em Matemática e 6,17% em Português.
As melhores escolas são invariavelmente as privadas, com a Colmeia a apresentar os melhores resultados em ambas as disciplinas. Nas melhores 10 escolas, apenas a ES da Calheta aparece na Matemática, na 10ª posição, enquanto que em Português aparecem as escolas de S. Roque do Pico, Velas e Biscoitos, respectivamente nas 7ª, 9ª e 10ª posição.

Que as escolas privadas tenham os melhores resultados não é propriamente algo de invulgar. Tal como no resto do país, os colégios privados, pela sua própria natureza de relação comercial, têm uma obrigação de apresentar modelos pedagógicos de qualidade, mas também o seu mercado alvo é sobretudo constituído por famílias em geral mais educadas e com um meio de vida mais elevado, o que em geral se reflecte nos resultados escolares. Já o sistema público abrange o resto da população e, numa região com os graves problemas culturais que os Açores têm, será inevitável que a percentagem de alunos naturalmente bons seja inferior. Mas exactamente por isso é que o sistema público deve dar resposta ao tipo de população escolar que tem (e não culpar, como invariavelmente era feito no passado, o meio social pelo fracasso do sistema).
Pela primeira vez no âmbito da comunicação social açoriana, o Diário dos Açores apresenta um quadro em que os resultados escolares são apresentados para a mesma escola nos 3 níveis de ensino. Devido à complexidade da equação, limitamo-nos a apresentar as escolas de S. Miguel, com excepção do concelho de Ponta Delgada, porque a comparação não é linear.
Pretende-se sobretudo dar resposta à questão: será que o problema vem da Primária? Tudo indica que sim, aparentemente confirmando a ideia dos que entendem que é no 1º ciclo que a questão deve começar a ser resolvida. Mas sintomático das dificuldades que tal tese encontra, foi a declaração do Secretário da Educação, que, num encontro esta semana com o Sindicato Democrático dos Professores dos Açores, referiu à laia de conclusão que “os resultados nas provas de português e matemática do 6º e 9º anos escolares estão muito longe daquilo que é o nosso desejo” – simplesmente ignorando os igualmente péssimos resultados do 1º ciclo. Igualmente preocupante parece ser a postura que a chamada “autonomia escolar” permitirá resolver a questão, cabendo ao Governo “tomar as medidas legislativas necessárias e dotar as escolas das condições funcionais para que o sistema funcione, designadamente ao nível pedagógico e das práticas didáticas” – quando na realidade o peso do investimento em materiais pedagógicos no orçamento da Secretaria da Educação é totalmente irrelevante: 308 mil euros para “Tecnologias da Informação”,  17,5 mil para a “Avaliação do sistema educativo regional”, e 46 mil euros para “Projectos de Inovação Pedagógica”. A rubrica dos “Projectos Pedagógicos”, se repartida pelos alunos matriculados no ensino básico, dá uma média de 2 euros por aluno para todo o ano lectivo...

Na interpretação deste quadro, o caso de Rabo de Peixe é talvez o mais flagrante: os alunos daquela freguesia são invariavelmente os piores em todos os níveis de ensino, enquanto que na transição do 2º para o 3º ciclo, a sua escola é a que perde mais alunos (44% do número de alunos que fez a prova no 2º ciclo já não fazem a prova no 3º ciclo). O caso das Capelas é igualmente interessante, com um abandono entre os exames do 2º e 3º ciclo na ordem dos 41%. O caso de Água de Pau é também complicado, e se bem que não existam dados para o exame do 3º ciclo, a sua integração nos dados da EBI da Lagoa parece ter grande influência.
Apesar de incompleto, este quadro, pela abordagem integrada que permite, aponta o caminho a seguir – e eventualmente a solução que é necessária e possível, desde que as diversas forças em acção saibam assumir as suas responsabilidades e não apenas a defesa dos seus interesses corporativos.

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