“Aprender a lidar com a morte e com o s lutos é aprender a viver”, diz capelão do hospital do Divino Espírito Santo

Padre PauloNa passada sexta-feira, dia 1 de Novembro, comemorou-se o Dia de Todos os Santos. Apesar de já não ser feriado nacional, foram muitos os fiéis, espalhados por todo o país, que se deslocaram aos cemitérios para exaltarem quem já partiu. Numa entrevista ao Diário dos Açores, o sacerdote Paulo Borges explica-nos como devemos aceitar a inevitabilidade da morte e a enfrentar o luto, pois, assim como o nascimento é o acontecimento natural no início da vida, a morte é o acontecimento natural no outro limite da nossa existência

 

São muitas as pessoas que se recusam a falar sobre a morte e a pensar acerca desse assunto até àquele inevitável momento do qual não podemos escapar. Porém, existirá, porventura, algum meio pelo qual possamos aprender a lidar com a nossa própria morte ou de alguém que nos é próximo?
Em entrevista ao Diário dos Açores, o padre Paulo Borges, capelão do Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada, fala-nos sobre esse tema, depois de, na sexta-feira, Dia de Todos os Santos, milhares de católicos em todo o mundo terem rumado aos cemitérios e exaltado aqueles que já partiram.
Em primeiro lugar, o especialista clarifica que o luto se dá em qualquer etapa da vida e todas as vezes que acontece uma perda significativa, sendo que o grau dessa perda será maior ou menor consoante o vínculo que tínhamos com aquilo que perdemos. Como fazendo parte integrante da nossa vida, “o luto é algo que nós, como seres humanos, devemos aprender a lidar”. No entanto, “estou convencido de que a nossa sociedade desafia-nos e programa-nos para sermos vencedores e executantes perfeccionistas das tarefas que depois nos levarão ao sucesso e, é nesta competição, que, às vezes, a pessoa não aprendeu a lidar que a vida é feita de ganhos e perdas quando vem o luto. Especificamente, no que respeita às perdas grandes da vida, como a perda da saúde ou de uma pessoa querida, estas fases ganham maior significado e agudizam-se os sentimentos e as emoções”.

Como enfrentar o luto
Normalmente, existem quatro coisas essenciais que uma pessoa deve fazer quando enfrenta o luto. “Antes de mais nada, o fundamental é aceitar a realidade e não fazer de conta que não existiu, no sentido de minimizar a perda, pois é uma forma de evitá-la”, enfatiza. Nas palavras do padre Paulo Borges, é natural que “o choque provoque a reacção normal de negação, mas é extremamente importante que o enlutado se aperceba que a pessoa que morreu não irá voltar”. Para isso, “temos de deixar que o tempo nos ajude a conciliar essa aceitação e, nesse aspecto, a religiosidade e a espiritualidade ajudam muito a aceitar a realidade, por exemplo, através de ritos fúnebres, como o cuidar e  o vestir do corpo, pois ajudam na despedida e a perceber que aquilo realmente aconteceu”. Efectivamente, a fé e a religião facilitam a reconfortar quem perdeu alguém, já que “as pessoas crentes que professam uma religião à partida têm ferramentas que podem ajudar a descodificar o processo de luto; os crentes poderão ter razões, mais do que suficientes, para se sentirem identificados e confortados”, afirma.  Contudo “na hora do desfecho final todos nós reagimos da mesma forma”.
O segundo aspecto fundamenta-se em “trabalhar a dor que nasce da perda porque aquilo que perdemos era significativo para nós e causa-nos sofrimento”. Além disso, e não menos importante, “tudo o que permitir ao enlutado evitar ou suprimir essa dor irá, muito provavelmente, prolongar o processo de luto”. Muitas pessoas tentam a “cura geográfica”, ou seja, viajam de sítio para sítio, ou outro tipo de fugas como, por exemplo, o abuso do álcool ou de soporíferos, tentando encontrar algum alívio das suas emoções, mas “mais cedo ou mais tarde, a maioria dos indivíduos acaba por colapsar em alguma forma de depressão”, refere.
A terceira tarefa, segundo o capelão do hospital do Divino, consiste em “compensar o vazio que ficou”. É importante que “a pessoa consiga se reerguer de novo e se ajustar a um outro ambiente, dependendo da relação que se tinha com a pessoa falecida e dos papéis que desempenhava. No caso de uma viúva, a perda do marido pode significar a perda do parceiro sexual, o companheiro, o protector, o contabilista, o jardineiro…No entanto, estas perdas podem reverter em algum benefício para o sobrevivente: a viúva ganha autonomia, consegue gerir os bens e tem a sensação de liberdade”. Ficar preso nesta tarefa significa que não há uma adaptação à perda, além de que as pessoas “não desenvolvem as competências que precisam para lidar com a perda ou isolam-se do mundo e não enfrentam as exigências que lhes rodeiam”.
Por fim, a última tarefa resume-se em “transferir emocionalmente o falecido e prosseguir com a vida”, embora nunca se perca totalmente as memórias de uma relação relevante. De notar que “algumas pessoas sentem a perda de uma forma tão dolorosa que fazem um pacto de nunca mais voltarem a amar”, diz, acrescentando que essa “sobre-idealização da pessoa falecida, por lealdade ou por medo, pode bloquear a formação de novas vinculações ou compromissos”.
Desse modo, o processo de luto só termina quando o enlutado “deixa de ter uma necessidade intensa e exagerada de reactivar a representação do falecido; e quando já é capaz de, por si, retomar as tarefas mais básicas como cuidar de si, alimentar-se e ir trabalhar”. O especialista afirma, igualmente, que reacções inesperadas de raiva, revolta e desespero perante a perda não podem ser classificadas como morais, isto é, “não são boas ou más. Simplesmente, são as ferramentas que a pessoa encontra para expressar a sua dor e nós devemos acolhê-las e confortar a pessoa sem julgar”.

Lidar com a morte na infância pode ser ainda mais difícil
De acordo com o capelão Paulo Borges, há estudos que mostram que a criança até aos 7-8 anos não tem a noção da ideia da morte como definitiva. Desta forma, “o essencial para nós, adultos, é não mentir, não esconder e não usar eufemismos, como ‘Foi para o Céu’ ou ‘Jesus levou-o’, pois esta é uma linguagem que pode ferir uma espiritualidade saudável e apresentar até a imagem de um Deus monstruoso”, destaca. Deve-se, pelo contrário, “falar da perda e da dor naturalmente, usando a linguagem da natureza e da transformação (da lagarta que se transforma em borboleta). Esta é a linguagem mais bonita e natural para se falar com uma criança a respeito da morte”, avançando que a pessoa mais próxima à criança é que será a mais indicada para essa tarefa, dado que “mais importante do que falar, é preciso mostrar afectos”.

O que fazer com os pertences?
Questionado sobre o que se deve fazer com os pertences de um familiar que faleceu, o padre Paulo Borges refere que, no reajustamento do ambiente é premente ter noção de  que “há coisas que já não lhe são úteis e poderão ser canalizadas para outras pessoas que farão uma utilidade em memória do falecido”. Esse aspecto, ajuda, segundo o nosso entrevistado, a fazer o rito de despedida, pois se a pessoa “se aferra às coisas é porque ainda não está a fazer o luto e está a negar a perda”, frizando, novamente, que “a pessoa continua viva e necessita de se reerguer”. Nesse sentido, existem três tipos de luto, dos quais se englobam o que se chama de “normal”, em que a pessoa consegue pelos seus próprios recursos (emocionais, ambiente familiar, amigos) integrar a perda, recuperar e regressar à normalidade da vida; o “complicado” em que a pessoa não consegue (num tempo e ritmo razoável) integrar a perda e regressar à normalidade da sua vida; e o “patológico” em a pessoa não se consegue libertar, regressando sempre ao passado ou fixando-se na negação. Nesses casos crónicos (raros) as pessoas necessitam de acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico especializado, uma vez que chegam a ter desinteresse pelo sentido da vida em geral.

Pessoas têm medo de falar sobre a morte
Apesar de muitas pessoas serem cristãs e acreditarem na vida após a morte, têm medo do desfecho final. De acordo com o sacerdote, isso acontece porque temos medo de sofrer e do desconhecido. “Tudo isto é uma dificuldade porque o nosso ser agarra-se à vida. E é bom que assim seja. Nós só percebemos que estamos vivos quando passamos por um momento próximo da morte”, justifica. No entanto, “a morte deve ser encarada como algo parte da vida e isso aprende-se. Aprender a lidar com a morte e com os lutos é aprender a viver. A vida é como ir à escola porque aprendemos sempre coisas novas e a última lição da vida é a morte. A morte ensina-nos que a vida é passageira e frágil e, por isso, torna-se única e bela e deve ser feita com opções que nos possam tornar felizes”.

Hospital acompanha pessoas no processo terminal de vida
Segundo o nosso entrevistado, o hospital de Ponta Delgada tem a preocupação de acompanhar, não só os doentes, mas também os seus familiares, neste processo de morte, quando a ajuda é solicitada, através do serviço de capelaria, do serviço de psicologia, da equipa de suporte hospital em cuidados paliativos, ou quando há “uma necessidade imperiosa” de auxiliar a pessoa. Concretamente no caso da capelaria, esta acompanha os doentes no seu internamento, no apoio e no conforto. O sacerdote garante que “o conforto humano e espiritual e a realização de alguns sacramentos podem ajudar a pessoa nesse processo de luto”. Além disso, todas as pessoas que morrem no hospital, “nós, em nome da capelaria e da administração, enviamos uma carta de condolências à família enlutada e convidamos essa família a participar na missa da primeira sexta-feira do mês, ao meio-dia, onde terá familiares de todas as pessoas que faleceram no mês anterior. Faz-se uma cerimónia com uma vela que é acesa e depois levada ao altar. O que tem acontecido é que há pessoas que gostam tanto dessa celebração que passam a vir todas as sextas-feiras ao hospital porque foi o lugar onde se identificaram com a morte do seu ente querido”.
Actualmente, existem dois capelães efectivos, além de outros dois que são voluntários. O hospital de Ponta Delgada conta ainda com um serviço de ministros da comunhão, com cerca de quarenta pessoas, que atende diariamente os doentes.