Associação que gere central das ondas do Pico apela à “união de esforços para a sua recuperação”

Central ondas PicoEste ano a central ainda não trabalhou, resultado de vários problemas eléctricos que a entidade gestora não consegue resolver e para os quais falta apoio especializado. Em entrevista ao Diário dos Açores, Ana Brito e Melo, directora executiva do WavEC, diz-nos que “há, efectivamente, um risco sério de abandono se a associação não conseguir mobilizar os esforços necessários para continuar a gerir esta central” e, por isso, apela ao financiamento público para a recuperação da grandiloquência deste projecto, um dos únicos do género em todo o mundo...

 

A central de energia das ondas do Pico foi construída como um projecto piloto de energia das ondas, o primeiro projecto financiado pela Comissão Europeia nesta área, com o objectivo de demonstrar a viabilidade técnica desse tipo de energia numa pequena ilha, ligada à rede eléctrica. O projecto iniciou-se em 1992 (sendo os donos da central a EDP e a EDA) e a sua construção ficou concluída em 1999.
No entanto, diversos problemas técnicos e a falta de financiamento para os resolver, levaram à imobilização do projecto durante vários anos. Em 2004, a central de ondas do Pico passou a ser gerida pelo WavEC–Wave Energy Centre, uma associação sem fins lucrativos, que tomou a responsabilidade de a recuperar, com apoio de fundos nacionais e de alguns associados. Porém, os primeiros testes, realizados no ano seguinte, revelaram limitações técnicas que não foram possíveis de resolver totalmente com o financiamento que tinha sido previsto. Devido a esta situação, a central e, concretamente, a sua estrutura, atravessa, desde então, um período complexo, uma vez que a entidade gestora não consegue arrecadar verbas para as reparações necessárias.
Em entrevista ao Diário dos Açores, Ana Brito e Melo, directora executiva do WavEC, faz-nos um relato exaustivo da situação actual da central, apelando a uma maior envolvência por parte de todas as entidades na recuperação da grandiloquência deste projecto, um dos únicos do género em todo o mundo.
Representando, inicialmente, um investimento superior a quatro milhões de euros, Ana Brito e Melo refere, entretanto, que este investimento “fica aquém daquilo que tem sido feito noutros protótipos de energia das ondas testados no mar em períodos de tempo da ordem dos três a seis meses. A construção de um protótipo e o seu teste, durante tipicamente um ano, custam entre 10 a 15 milhões de euros e cinco anos de testes representam um investimento de mais cinco milhões de euros”, destacando, por isso, que “são estes os números de referência que temos de ter presentes quando mencionamos o que custou a central do Pico”.
Actualmente, devido à falta de financiamento para reerguer a central, o risco de colapso é real, na medida “em que as fissuras na parte submersa se agravem”, acrescentando, contudo, que “a evolução do estado da parte submersa da estrutura não parece apresentar um perigo imediato, mas indica claramente que deveria ser reparada num horizonte de um ou dois anos”.
Note-se que qualquer obra marítima deve ser construída por uma empresa especializada nessa área, mas tal não aconteceu. A central de ondas do Pico apresenta danos estruturais “na parte submersa que têm sido inspeccionados com regularidade, mas que não deveriam ocorrer numa estrutura marítima”, salienta a responsável.
Nos últimos anos, o WavEC tem feito algumas inspecções periódicas por elementos da associação com conhecimentos de mergulho, pois os trabalhos de reabilitação abaixo do nível da água “são muito dispendiosos e estão muito além da capacidade financeira de uma pequena entidade privada como essa associação. Aliás, tudo o que temos feito na central é com recursos muito limitados e muitas vezes artesanais. Temos, neste momento, um engenheiro a tirar o doutoramento pela Universidade de Plymouth com base nos dados recolhidos na central e que, simultaneamente, se encarrega da sua operacionalidade e manutenção com o apoio pontual de um técnico local contratado pelo WavEC a tempo parcial”, afirma. A última vez que a central sofreu uma intervenção “grande” foi entre 2004-2006 com apoio de fundos nacionais do programa DEMTEC e de empresas associadas ao WavEC. “Esta intervenção cobriu essencialmente o equipamento electro-mecânico e possibilitou pôr a central a funcionar, ainda que com limitações no sistema eléctrico e de controlo”, diz. No entanto, recentemente foi detectada uma avaria no equipamento de controlo da central que “esperamos resolver até ao fim deste ano”, expressa, realçando que o esforço colocado na central do Pico “ultrapassa as capacidades internas do WavEC, quer em termos financeiros, quer em termos técnicos, mas estamos a procurar corrigir estas limitações com o apoio de empresas e de outras instituições”.
Na central de ondas do Pico têm trabalhado várias equipas ao longo destes anos e têm sido introduzidas modificações à medida que se vão identificando e resolvendo problemas.
Este ano a central ainda não trabalhou, resultado de vários problemas eléctricos que o WavEC ainda não consegue resolver e para os quais falta apoio especializado. Porém, no passado mês de Outubro, uma equipa de investigadores irlandeses da University College Cork esteve  naquela ilha açoriana e conseguiu diagnosticar um dos problemas que impediam o funcionamento da central, o que sugere, segundo a directora executiva da entidade gestora, a necessidade de estabelecer parcerias com equipas nacionais e estrangeiras que tenham meios para dar este tipo de apoio. “Estamos a trabalhar numa área que é de investigação e demonstração e a participação destas equipas é fundamental”, defende.

WavEC investe, anualmente, mais de 115 mil euros na central do Pico
Os custos anuais de explorar uma infra-estrutura como a central do Pico não deverão ultrapassar os 150 a 200 mil euros. Contudo, uma intervenção de reabilitação estrutural pode atingir um milhão de euros. Nos últimos anos, o WavEC investiu, anualmente, mais de 115 mil euros (o que inclui um engenheiro, um técnico local para apoio em operações de manutenção, aluguer de uma casa na Madalena, uma viatura de serviço, viagens entre o continente português  e o Pico e a aquisição e reparação de componentes). “Este valor é o mínimo necessário para manter a central do Pico”, admite, frisando, novamente, que para uma entidade como o WavEC representa já “um grande encargo financeiro difícil de suportar”. Ana Brito e Melo aponta ainda que, neste momento, está em construção uma central semelhante na Coreia do Sul (em Jeju Island – uma ilha vulcânica semelhante à ilha do Pico), na qual o WavEc colaborou através de transferência de conhecimentos, e “o investimento mínimo anual com fundos públicos previsto para operar essa central é de cerca de 500 mil euros, com perspectivas de atingir até um milhão de euros nos anos iniciais para desenvolver investigação. Todas as infra-estruturas de teste de energia das ondas que conheço têm um orçamento anual público que lhes permite fazer face aos gastos gerais”.
Na sua opinião, as dificuldades em obter financiamento em Portugal devem-se ao “desconhecimento das potencialidades deste tipo de projectos e à falta de visão a longo prazo”. Nas palavras da responsável, “falta um empenho verdadeiro das empresas que poderiam explorar este tipo de centrais, nomeadamente grandes empresas do sector energético. É difícil avistar a rentabilidade de um projecto deste género a curto ou médio prazo e, portanto, é quase impossível angariar investimento privado nas vias convencionais. Neste sentido, o financiamento público é essencial, sobretudo para a fase de demonstração, como é o caso da central do Pico”.
Caso surgissem investimentos para esta central, o projecto poderia ter uma produção anual na ordem de 400 MWh, correspondendo a uma média de 50kW durante oito mil horas de operação – o que corresponderia a um factor de carga de 20%, semelhante ao das turbinas eólicas na fase inicial de comercialização. No entanto, Ana Brito e Melo reforça que esta é uma central piloto e não comercial e, “dito isto, o verdadeiro valor de uma central deste género não é tanto a produção de electricidade, mas mais a demonstração da viabilidade da tecnologia em si e a aprendizagem quanto à fiabilidade da tecnologia, os custos de operação e manutenção”.
Estando a central instalada na ilha do Pico, questionamos a directora executiva do WavEC sobre o papel que o executivo açoriano tem desenvolvido no processo de apoio da sua recuperação. A responsável  reconhece que “há receptividade do Governo Regional para este projecto, pois fizemos recentemente um contacto com o Governo dos Açores em que apresentámos as nossas propostas para o futuro da central do Pico e, por outro lado, recebemos um donativo significativo da EDA para este ano. A nossa expectativa é conseguir um apoio público-privado com alguma continuidade que nos possibilite dinamizar a actividade na central inserida num pólo de investigação tecnológica na ilha do Pico em ligação com outras instituições de investigação regionais”, refere, acrescentando, contudo, que “a dificuldade em conseguir algum suporte financeiro do Governo Regional pode ter a ver com a dificuldade, em geral, em assumir compromissos e investimentos de longo prazo na conjuntura actual”.
Neste sentido, perguntamos se, de facto, há uma realidade de abandono da central ou se esta ainda poderá ser um pólo de produção e investigação mundial, tendo a nossa entrevistada mencionado que “há, efectivamente, um risco sério de abandono se o WavEC não conseguir mobilizar os esforços necessários para continuar a gerir este projecto”. Porém, também poderá ser um pólo de investigação mundial “se se conseguirem mobilizar os esforços necessários para que isso aconteça. Mas, naturalmente que um pólo de investigação mundial não se cria apenas com o empenho de uma equipa pequena de uma entidade privada como o WavEC”.
O momento económico que o país atravessa deverá, também, ter reflexos nos próximos anos e poderá levar Portugal a “perder a corrida” por este tipo de energia. “Acho que se tem feito muita coisa para perder a corrida…,até comparando com outros países que atravessam, igualmente, momentos económicos difíceis como a Espanha e a Irlanda, mas pode-se dizer que a corrida ainda está em aberto e que o WavEC tem planos concretos para nos manter nela, em particular no que respeita à central do Pico”, salienta.
Em relação ao destino que prevê para a central nos próximos anos, Ana Brito e Melo adianta que, presentemente, “estamos a debater o futuro da central com a direcção do WavEC”, garantindo que toda a equipa tem ideias claras de “como gostaríamos de ver a central nos próximos anos, mas não temos ilusões de que um plano de acção só é possível mobilizando apoio concreto de vários protagonistas e, acima de tudo, um financiamento minimamente razoável”, aponta, realçando, mais uma vez que “este papel, o WavEC não consegue assumir sozinho”.
Actualmente, a central está inserida numa Rede Europeia de 45 Infra-estruturas de Investigação e Desenvolvimento da Energia dos Oceanos. Esta rede financia o acesso a estas infra-estruturas de teste por parte de investigadores e tecnólogos, assim como os custos associados com as deslocações e estadias. Note-se que, nesta rede, a central do Pico é reconhecida entre as infra-estruturas mais significativas para a área de energia dos oceanos a nível europeu, mas com orçamento e recursos humanos incomparáveis com qualquer outra das entidades que integram a rede.