Linha S.O.S. Mulher regista semanalmente um a dois novos casos de vítimas de violência doméstica nos Açores

violencia-domestica-285x3001Em 2013, poderá chegar aos cem o número de novos pedidos de apoio feitos à UMAR - Açores, através da Linha S.O.S. Mulher. Um número que se junta ao de situações já reincidentes.
Em entrevista ao Diário dos Açores, a presidente da instituição revelou que, todos os dias, a linha telefónica recebe chamadas de açorianas a solicitar aconselhamento. Com o serviço, a UMAR consegue dar apoio emocional às vítimas e encaminhá-las para serviços mais adequados. É a nível psicológico, alertou Maria José Raposo, que as mulheres encontram o maior obstáculo para ultrapassar o sofrimento.

 

Desde 1997 que os Açores possuem um serviço telefónico que tem por objectivo prestar apoio “gratuito, anónimo e confidencial” a mulheres vítimas de violência conjugal. Trata-se da Linha S.O.S. Mulher (808 200 175), cujo atendimento é assegurado pela equipa técnica da associação UMAR-Açores, distribuída por São Miguel, Terceira e Faial.
Segundo a presidente da UMAR - Associação para a Igualdade e Direitos das Mulheres, a instituição recebe chamadas diariamente de mulheres de várias ilhas do arquipélago. “A linha toca todos os dias”, “com pedidos de informação, aconselhamento e de esclarecimento”, afirmou ao Diário dos Açores, Maria José Raposo, que referiu que as mulheres fazem questões “muito directas”. “Vou ficar sem os meus filhos? Vou perder a minha casa? Devo fazer queixa na PSP? Devo me dirigir ao Ministério Público?”, exemplificou.
Maria José Raposo adiantou que o número de chamadas tem vindo a aumentar e, por semana, são recebidas cerca de uma a duas ligações relativas a novos casos de violência contra a mulher. “É provável que cheguemos ao final do ano 2013 com 100 novos casos”, lamentou.
A actual conjuntura de crise, por que os açorianos, à semelhança do resto do país, estão a passar, pode ser um dos factores capazes de contribuir para o surgimento de novos casos de violência doméstica, mas não é o único.
“A crise pode ser responsável por alguns destes novos casos, mas não posso dizer que é responsável por todos”, referiu. “Ainda esta semana atendemos pela primeira vez uma senhora vítima de violência conjugal. Está numa relação abusiva há cinco anos. Trata-se, portanto, de um caso que não surge no âmbito da actual crise”, frisou.
Aos novos casos, juntam-se os pedidos de apoio de mulheres que são continuamente acompanhadas pela UMAR ou que, já não o sendo, precisam novamente de apoio. “Há casos em que elas já estavam numa situação estável, em segurança, e, infelizmente, voltam a passar pelo mesmo processo. Ou porque têm uma outra relação e os comportamentos estão-se a repetir. Ou porque quiseram dar uma nova oportunidade ao companheiro anterior e as coisas voltaram a não correr bem”, explicou a responsável pela UMAR.
O apoio da Linha S.O.S. Mulher passa também por encaminhar as vítimas para serviços mais adequados às necessidades apresentadas e à sua área de residência. Além do encaminhamento e apoio emocional, o serviço presta ainda informação de natureza jurídica no âmbito da violência doméstica.
O atendimento é assegurado todos os dias, das 7 às 24 horas. Durante os dias úteis, entre as 9h e as 17h30, a linha é atendida pela equipa técnica da UMAR-Açores, enquanto que, no período pós laboral e durante os fins-de-semana e feriados, a linha é encaminhada para um grupo de atendedoras voluntárias que ficam escalonadas ao longo do mês.

A decisão de sair de casa
É uma realidade que o factor económico tem “muito peso”, no que toca à decisão da mulher sobre deixar o companheiro ou não. A falta de dinheiro e de condições de sustentabilidade faz com que muitas das vítimas continuem a sofrer em silêncio, sob pena de não prejudicarem a vida dos filhos. Mas Maria José Raposo alerta que existem várias outras razões que influenciam a decisão da mulher.
“Porque ele é o pai dos filhos. Porque ele é um cidadão exemplar. Porque até há alguns momentos em que ele é uma pessoa extraordinária no seio da família. Porque ela acha que ele pode mudar. Existem todos estes pensamentos que fazem a mulher não abandonar o parceiro”, apontou a responsável pela UMAR.
É a dependência emocional que acaba por prender as vítimas à relação abusiva com o companheiro. A presidente frisa que há situações de mulheres que chegam à associação com alguma independência económica, mas estão “presas emocionalmente” na relação.
“É preciso ver que a mulher criou expectativas para a relação com o seu companheiro. Montou um projecto de vida e, de um momento para o outro, a sua vida dá uma volta de 180 graus. As expectativas que ela criou, tudo aquilo que foi construído enquanto casal. É isto que prende as mulheres aos parceiros”, salienta Maria José Raposo.
A vítima de violência, vive, segundo a responsável, em “dualidade”: “por um lado, quer a separação e uma vida estável e, por outro lado, quer cumprir todos os objectivos empenhados naquela relação”.
É neste contexto que as instituições, que têm por missão apoiar as mulheres, “devem mostrar-lhes que é preferível a mulher privar-se de certos aspectos, para manter a sua sanidade mental e criar um bom ambiente para os filhos”.

A gravidade da violência psicológica
A maioria da população associa facilmente a violência doméstica aos maus-tratos físicos. No entanto, a agressão psicológica é considerada um dos tipos de violência “mais difíceis” de as mulheres “esquecerem, perdoarem e ultrapassarem”. “Apesar de não visível, é das violências mais fortes que se pode exercer contra outra pessoa”, realçou Maria José Raposo.
“A relação abusiva pode ter acabado. A mulher é uma ex-vítima da opressão em que vivia, mas continua a ser vítima a nível psicológico”, explica. “As humilhações, os insultos, as chantagens, a coacção, a intimidação, o tentar denegrir a imagem da mulher (não és boa mãe, não és boa esposa, não és boa mulher). Tudo isto vai levar meses até que a mulher se aceite e comece a trabalhar a sua atitude e assertividade”, afirmou a responsável da UMAR-Açores.
Além de ser o tipo de violência mais marcante, é também o “mais complicado de comprovar”. “É nitidamente fácil identificar casos de maus-tratos psicológicos sobre as mulheres. o complicado - mas não impossível - será comprová-los”, apontou Maria José Raposo que indica que os relatórios médicos poderão ajudar neste sentido.

Aspectos a melhorar na região
Maria José Correia sublinhou alguns dos aspectos que devem ser melhorados nos Açores para optimizar o apoio dado às mulheres que são vítimas de violência doméstica.
A presidente da UMAR apelou à realização, por parte do Governo Regional, de um novo estudo sobre a violência de géneros na região. “O último foi feito em 2008, pelo que já é altura de fazer outro para termos um termo de comparação”, frisou. As ilhas açorianas têm também necessidade de um observatório para a violência. “Seria bom termos um observatório a verificar o que estamos a fazer nesta área, nos Açores, de modo a que fosse possível melhorar ainda mais a ajuda para as mulheres”, disse a presidente.
Por outro lado, há necessidade de recursos humanos nesta área. A própria UMAR, actualmente, precisa de mais duas pessoas para funcionar em pleno.
Já no âmbito da lei, Maria José Raposo refere que há alguns pontos, relativos ao crime de violência doméstica, que deveriam ser alterados. Um deles é fazer com que seja o agressor a sair de casa e não a vítima. “Em Portugal, normalmente é a vítima que deixa o seu lar. Ela vai para uma casa abrigo e ele continua na casa que era do casal”, explica a responsável pela UMAR, que continua: “o Ministério Público tem poder para inverter esta situação, mas até que se chegue a julgamento, passam-se meses e a mulher continua sem voltar para a sua casa”.
Por isso mesmo, alerta para a necessidade de se “aligeirar” todo o processo. “Vamos caminhar para isto. Desde 2008 que a violência doméstica já é um crime público, o que já foi uma grande vitória. O próximo passo deverá ser aligeirar a lei”, realçou.

Açorianas mais informadas
Presente nos Açores desde 1992, a UMAR foi das primeiras associações a surgir no arquipélago com o objectivo de “desenvolver projectos na procura da visibilidade das mulheres e trabalhar as desigualdades, como a violência doméstica e conjugal”.
“Nós temos a certeza absoluta que esta procura da igualdade tem surtido um efeito muito grande e as açorianas estão muito mais informadas sobre os seus direitos, do que estavam há vinte anos”, garantiu a presidente da instituição.
A associação é solicitada para promover acções de sensibilização em escolas, ATL’s e grupos de idosos. “Como é que o fenómeno da violência doméstica aparece, como é que acontece, quais são os sinais, como é que as pessoas se podem proteger, que ajudas é que a UMAR pode dar às mulheres e aàs famílias” são algumas das informações divulgadas pela associação.
Maria José Raposo anunciou que a partir de amanhã, data em que assinala o Dia Internacional pela Erradicação da Violência contra a Mulher, e até 10 de Dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, será promovida a campanha “16 Dias de Activismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”.
A UMAR, em parceria com várias entidades da região, tem agendadas várias acções de rua e performances alusivas à temática da violência, bem como tertúlias e exibições de filmes.
Já amanhã, a UMAR estará nas Portas da Cidade, em Ponta Delgada, entre as 12h00 e as 14h00, para apresentar o programa da campanha. Também na segunda-feira, pelas 21h30, no Cineclube, do Centro Comercial Solmar, será exibido o filme   “Dou-te os Meus Olhos”, de Icíar Bollaín.
Ao longo dos 16 dias, irão circular ainda mensagens alusivas ao tema da violência sobre as mulheres nas saquetas de açúcar da Sinaga, que estão disponíveis para consumo em cafés e outros estabelecimentos da ilha de São Miguel.

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