Manuel Ferreira 1950-2014

manuel ferreiraNascido na freguesia dos Mosteiros em 28 de Agosto de 1950, aquele que se viria a ser o criador da mais conhecida música açoriana, intitulada por muitos como “o verdadeiro hino dos Açores”, cresceu no seio de uma família muito pobre. Aos 11 anos já trabalhava em Ponta Delgada, “como quase todos os rapazes do meu tempo”, disse em diversas entrevistas.
Fez a tropa no continente, mas não chegou a ir para a guerra, apesar de ter a especialidade de enfermeiro. De regresso a Ponta Delgada tirou um curso de técnico de bibliotecas e depois de uma passagem pela Biblioteca de Ponta Delgada passou a exercer aquela função no Hospital de Ponta Delgada, de onde se haveria de reformar quando completou a sua carreira profissional.
 “Na minha casa não havia instrumentos. Ouvíamos o Asas do Atlântico, cantarolávamos, fazíamos teatro, nós é que fazíamos os nossos brinquedos; éramos muito pobres; e os estudos eram muito exigentes”. A canção surge-lhe na tropa, quando, no continente, reparou que “as pessoas sabiam muito pouco sobre as músicas dos Açores, e quando conheciam, faltavam muitas letras”.
A “Ilhas de Bruma” foi a 2ª ou 3º canção que fez, “num dia de bruma em que não se via nada e as gaivotas vinham mesmo beijar a terra”. “Mas foi ao coração”, como reconhecia. Não se tratou, no entanto, de um mero rasgo poético. “Tinha lido muitos escritores açorianos e estudei profundamente Artur dos Santos, que tinha uma Antologia em que gravou cá tudo o que havia de música; cantores que nem conheciam rádio; emprestaram-me as cassetes, através da RDP”, lembra.
“Por isso gosto de dizer que a parte da criatividade é pouca. Mas é por isso que valorizo a autenticidade. Faço música espontaneamente; não há nenhum perigo, não me estou a atirar da grota abaixo; Depois vejo o que fiz; e o que faço é sempre resultado das minhas vivências; muitas situações são inventadas, com uma simples frase real, mas é sobretudo a minha posição sobre as coisas”.
Será mesmo o hino dos Açores?  “Talvez tenham razão; não o fiz para ninguém; não fazia ideia do impacto que teria; foi por sentir necessidade de me afirmar como açoriano que fiz essa canção! E as pessoas sentiram o mesmo! A partir daí fui obrigado a gerir a mensagem! ”
“Para mim tudo acaba em canções”, dizia. O ano de 2013 seria marcante em termos de reconhecimento.  A 11 de Março a comunicação social  nacional marcou o 30º aniversário da “Ilhas de Bruma”. O Diário de Notícias dizia: “A canção, que levou dois meses a escrever e a aperfeiçoar, foi tocada em público pela primeira vez na primeira edição do Festival Maré de Agosto, que decorre na ilha de Santa Maria desde 1984, mas verdadeiramente o sucesso popular chegou quando a RTP/Açores aproveitou o tema para algumas das suas séries mais emblemáticas na década de 80 do século passado. O conhecimento público de grande dimensão foi a partir da ‘Balada do Atlântico’, depois o maestro Emílio Porto, do Orfeão do Pico, fez um arranjo polifónico e tornou-a mais nobre”.
Em Outubro, a Casa dos Açores da Nova Inglaterra, no âmbito das comemorações do seu 22º aniversário, procedeu a uma homenagem a Manuel Medeiros Ferreira, que se deslocou propositadamente dos Açores para estar presente na festa, em Fall River, que terminaria ao rubro, quando os grupos de música Raízes e Ilhas de Bruma se juntaram para interpretar o tema “Ilhas de Bruma”, com Manuel Ferreira a ser o solista principal, e os presentes a aplaudirem de pé.
Quando o tema se tornou conhecido, nunca mais pararam as versões. “Não sei quantas há, mas penso que vão para cima de cem”, referiu o autor. Continuam, ainda hoje e uma pesquisa ao YouTube revela umas quantas.
“As canções têm de ser feitas em síntese, pois têm de ter 3 minutos sob pena de as pessoas nada entenderem”, dizia. “É por isso que usamos sinais, palavras chave que transmitem o que queremos dizer com mais palavras”. Neste caso, era uma espécie de concentrado de açorianidade.
“Quase todos os países têm um século de música; nós estamos a começar” e lembrava que tinha pouco mais de 50 CDs com música açoriana. Era, na realidade, Açores o que lhe interessava. Esteve também ligado ao cinema e ao teatro.
“Temos um folclore fabuloso, não precisamos de ir buscar nada a lado nenhum. E o mar. Para mim é o mar. Vivo numa casa que na frente tem 7 metros de estrada, e depois aquela imensidão de mar!!! Quando vivi em Coimbra, aquela cidade tinha tudo de que gostava, menos o mar: tinha apenas o Mondego, que me dava pela cintura. Eu sou das ilhas”. Voltou, claro! Aliás, desde cedo desenvolveu a paixão pelo mar e neste momento preparava-se para recuperar uma nova embarcação, a sua 3ª. “Navego; o mar é aquele horizonte aberto; permite-me ganhar uma perspectiva muito longa das coisas”!
“O criativo é o indivíduo que bebe em todas as fontes e tem obrigação de fazer um acrescento; eu falo comigo; converso; tenho a obrigação de acrescentar qualquer coisa. Eu sei que sou aquele que veio depois; antes houve pessoas absolutamente fantásticas e talvez nunca mais atinjamos o que eles atingiram”. E dizia que “as palavras são uma arte incrível; e para se escrever é preciso cultivar a língua; o poeta é sempre um gramático; e para além do português, eu ainda conheço o dialecto açoriano! Eu cultivo a língua”.
Dizia que “o açoriano tem um complexo de inferioridade; sei por que é; mas não tem razão nenhuma de o ter; fomos descobertos no meio das descobertas do mundo, e fomos como que abandonados; o problema dos Açores foi ficarmos completamente afastados de tudo; de certo modo, ficamos cristalizados no século XV; e é por isso os açorianos são por natureza separatistas, mas não é por mal; O regionalismo está em todos os Autores açorianos! Os portugueses têm de perceber isso para nos compreenderem; e os açorianos têm de compreender e perdoar, pois não seria possível o país fazer mais; nós viemos de lá, somos portugueses”. E concluía que “os Açores podem ser muito mais avançados do que são! É uma questão de nos definirmos!”
Sobre a vida, dizia que “foi maravilhoso ter passado por aqui, mas é preciso seriedade; a vida não é para se brincar; nem se deve desrespeitar a vida”. E lembrava-lhe uma frase que a mãe lhe dizia, “mas que só nos últimos anos comecei a compreender: ela dizia-me para eu “saber de tudo para o melhor usar”. E isso é hoje a minha teoria de vida! Tudo saber para o melhor usar!”
Nos últimos tempos voltara a trabalhar com o músico Pedro Silva num musical para um teatro de revista. “Foi o Melhor ser humano que a terra já conheceu”, diz pesaroso...  Um sentimento que é partilhado por inúmeros dos seus amigos!

O Presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, enviou sexta-feira uma mensagem à família de Manuel Medeiros Ferreira, em que manifestou pesar pelo falecimento do músico e compositor, destacando o contributo incontornável que deu, através da sua música, para a cultura contemporânea Açoriana.  “É este legado de Açorianidade que nos deixa, um legado de enriquecimento do cancioneiro regional por um homem que, ao longo da sua vida, sempre demonstrou um caráter genuíno de amor à sua terra”, salientou Vasco Cordeiro. O Presidente do Governo frisou que a canção ‘Ilhas de Bruma’ ficará para sempre como um dos “temas mais representativos da nossa terra e do nosso Povo, que, desta forma, presta homenagem a um músico e compositor que honra a nossa Região”.

O funeral realiza-se sábado, pelas 10h00, no Cemitério de São Joaquim!