Em apenas quatro meses, a Animais de Rua já esterilizou cerca de 30 gatos em Ponta Delgada

sofia lima cinzaRecolher os animais, tratá-los, esterilizá-los e devolvê-los ao seu meio natural. É este o propósito da mais recente associação de defesa dos animais instaurada nos Açores que, através de um conceito até agora inexistente no arquipélago - a esterilização dos animais de rua, pretende controlar o nascimento de novas ninhadas, numa altura em que é cada vez mais difícil para as famílias adoptar. Em entrevista ao DA, Sofia Lima, responsável pela associação na região, dá-nos a conhecer o que é a Animais de Rua e como todos nós podemos contribuir para esta causa

Em que princípios se rege a Associação Animais de Rua e como se define a sua actuação?
A Animais de Rua tem como principal objectivo a esterilização de animais carenciados através do método CED (Capturar-Esterilizar-Devolver). Este é um método humano e eficaz no controlo e redução da população de animais silvestres. O processo envolve a captura dos animais nas ruas, a sua esterilização, um pequeno corte na orelha esquerda para fins de identificação, a desparasitação e, por fim, a devolução do animal ao seu território de origem. Depois da devolução, as pessoas que fornecem a comida e abrigo aos animais ajudam-nos a mantê-los monitorizados. O número de animais a precisar de um lar é muito superior ao número de famílias dispostas a adoptá-los, especialmente nesta altura de crise, por isso é necessário evitar o nascimento de cada vez mais animais na rua.

Há quanto tempo há a Associação Animais de Rua em São Miguel?
As primeiras esterilizações oficiais da Animais de Rua em São Miguel foram no início de Setembro de 2013.
Actualmente, apenas está restrita a essa ilha açoriana? Em que locais ou zonas actua?
Sim, neste momento, nos Açores, só estamos representados em São Miguel e actuamos, essencialmente, em Ponta Delgada, embora seja nosso desejo aumentar a nossa ajuda a todos os animais da ilha.

Abranger o resto do arquipélago é uma ambição a curto e médio prazo?
Sim, aumentarmos os nossos núcleos activos é uma ambição sempre presente na Animais de Rua, porque significa diminuir cada vez mais as populações de animais que vivem e sofrem nas ruas.

A associação trabalha em parceria com outras entidades cujos  pressupostos são semelhantes?
Sim, as parcerias são essenciais para que o nosso trabalho atinja o maior número possível de animais e tenha a maior divulgação possível. Assim sendo, alguns dos nossos parceiros mais importantes, ao qual muito agradecemos, são a “International Cat Care”, a “Change For Animal Foundation”, a “Dogs Trust”, a “WSPA (World Society for the Protection of Animals)” e a “The Humane Society of the United States”.
O que a levou a associar-se a esta organização? Fez algum tipo de formação?
Tornei-me voluntária na Animais de Rua há cerca de cinco anos, depois de ter feito um pequeno donativo para um cão e perceber que o trabalho da associação é essencial no nosso país, onde os animais ainda não têm os seus direitos protegidos. Para além disso, o CED é um método pró-vida, filosofia com a qual me identifico. Na Animais de Rua tentamos sempre mantermo-nos o mais actualizados possível e, por isso, as formações são frequentes, tanto para os voluntários, como para os membros da direcção. A formação que fiz mais recentemente foi com a “International Cat Care” (com anos de experiência em esterilização de felinos) e com a “Change For Animal Foundation” (que desenvolve campanhas pelo bem-estar animal em várias partes do Mundo).

Neste momento, a Associação conta com quantos voluntários?
Entre os núcleos do Porto, Lisboa, Faro e São Miguel somos cerca de 100 voluntários.

A esterilização/ castração dos animais é uma lacuna na região. A que se deve, na sua opinião?
Penso que as razões principais para as pessoas não esterilizarem os seus animais é, primeiro que tudo, o custo elevado destas cirurgias, especialmente nesta altura de crise, quando as pessoas tendem a cortar custos. No entanto, a falta de informação também é uma razão, pois muitas pessoas não sabem que a esterilização traz imensos benefícios para a saúde dos seus animais: nas fêmeas evita o aparecimento de tumores mamários, dos ovários e do útero; e nos machos, nos testículos e na próstata, além de diminuir a agressividade e marcação de território.

Como os preços não são muito acessíveis para a maioria das pessoas, a vossa associação pode ajudar animais cujos donos têm poucas possibilidades económicas para os esterilizar?
Neste momento, em São Miguel, ainda não temos um protocolo veterinário para esterilização de animais de famílias carenciadas, mas estamos a trabalhar nele e acreditamos que está para muito breve. Para além dos animais de rua, é nosso objectivo ajudar também aqueles animais que têm família, mas que não têm acesso a todos os cuidados veterinários necessários. Nos núcleos do continente já conseguimos ajudar muitas centenas de famílias com dificuldades a esterilizar os seus animais e estamos a trabalhar para que o mesmo aconteça o mais rapidamente possível na nossa ilha, para os animais de qualquer concelho.

A vossa associação tem ideia de quantos cães e gatos deambulam nas ruas dos Açores, em São Miguel ou em Ponta Delgada?
Não fazemos ideia do número de animais nas ruas das nossas cidades, em parte porque não é feito nenhum recenseamento dos mesmos e porque, em relação aos gatos, que são mais esquivos, é difícil ter-se a noção exacta de quanto animais existem.

Desde o início de actividade, quantos animais já esterilizou a associação?
Até hoje, esterilizámos 12.546 animais, dos quais cerca de 11 mil foram gatos e 1.500 cães. Em São Miguel já esterilizámos 16 fêmeas e 11 machos. Neste momento, só estamos a fazer esterilizações de felinos, mas esperamos em breve poder ajudar também os cães da nossa ilha.

Quais são as principais vantagens do trabalho da Animais de Rua para a comunidade em geral?
Primeiro que tudo consegue-se  reduzir grande parte das queixas da vizinhança em relação aos gatos, que se prendem com o barulho proveniente do acasalamento e das lutas e pelo cheiro do local. Os animais esterilizados deixam de lutar para acasalar e os machos castrados deixam de marcar o território, o que diminui o cheiro incómodo. Depois, mantendo os gatos no local, estes continuam a ser um método natural e muito eficaz de controlo da população de ratos e evitam a criação de outra colónia, nova e não esterilizada. Além do controlo da reprodução de animais silvestres, e não menos importante, o nosso trabalho permite a redução do número de mortes por eutanásia nos canis locais, porque havendo menos gatinhos silvestres a nascer, haverá mais espaço nos abrigos de associações de animais e mais lares para gatos domésticos abandonados, que de outra forma, seriam eutanasiados. Para além disso, se as entidades camarárias apoiarem o CED, em vez de praticarem a captura e abate dos animais, a sua imagem pública melhora e haverá mais pessoas a irem aos canis/gatis camarários para adoptar animais.

Os animais de rua estão sempre sujeitos aos maus-tratos alheios ou a possíveis atropelamentos. A associação promove a adopção e tenta assegurar que os animais de rua de Ponta Delgada estejam minimamente seguros?
A maior parte (cerca de 80%) dos animais que esterilizamos são silvestres (normalmente, chamamos bravos), ou seja, são animais que não toleram o contacto humano, muitos deles porque nasceram e viveram sempre na rua. No entanto, quando nos deparamos com um animal dócil ou crias que ainda estejam em idade de sociabilização, tentamos encaminhá-los para adopção através de Famílias de Acolhimento Temporário que, infelizmente, estão quase sempre no limite da capacidade, porque não temos um abrigo. Quanto àqueles que são silvestres, nós aconselhamos sempre que tenham ao dispor ração seca, em vez de restos de comida, a fim de evitar sujidade nas ruas. Muitas pessoas alimentam as colónias de gatos sem se preocuparem em deixar o espaço limpo e arrumado e esta situação provoca hostilidade na vizinhança contra a pessoa que alimenta os animais e, consequentemente, contra estes também. Os recipientes de ração e água devem ser mudados e limpos diariamente e nunca devem ser deixadas embalagens vazias ou restos de comida espalhados pelo chão. Quando é possível damos indicações às pessoas de como montar um abrigo simples e económico na área de alimentação dos animais, para proteger a ração da chuva ou mesmo para os animais dormirem lá dentro.

Quais as principais doenças transmitidas pelos cães e gatos que vivem nas ruas? Como preveni-las?
Penso que o mais comum nos animais de rua são os parasitas, como as pulgas e, por isso, o programa de esterilizações da Animais de Rua abrange, não só a esterilização do animal, como a sua desparasitação interna e externa, o que significa que haverá muito menos parasitas nestes grupos de animais. No caso dos gatos de rua, as doenças FIV (Vírus da Imunodeficiência Felina) e FeLV (Leucemia Felina) são difíceis de controlar, mas o risco de contágio pode ser reduzido através da esterilização, pois para além de os animais deixarem de acasalar e transmitir o vírus directamente entre si, também deixará de haver as lutas de acasalamento onde as doenças são transmitidas através das feridas. A alimentação regular e os abrigos, juntamente com a esterilização, melhoram substancialmente a saúde dos animais, pois estes tornam-se mais saudáveis e resistentes às doenças.

O que diferencia um cão ou gato de rua dos que são domesticados? Há diferenças no temperamento?
Os animais que vivem na rua, especialmente os gatos, são esquivos e mais assustados, pois não estão habituados a lidar com humanos. Muitos deles já nasceram na rua, filhos de animais abandonados ou perdidos, e não sabem o que é viver numa casa. Costumamos dizer que é tão cruel abandonar um animal dócil na rua como obrigar um animal silvestre a viver fechado numa casa. No caso dos cães, é mais fácil encontrarmos cães de rua dóceis, embora muitas pessoas tenham receio deles por pensarem que são perigosos.

Quais os procedimentos a ter quando adoptamos um animal de rua?
Quando um animal de rua é adoptado deve ser desparasitado interna e externamente o mais rapidamente possível, pois poderá ter parasitas que nem sempre são visíveis a olho nu. No caso dos bebés, deve ser também dada ração adequada à idade, mas se ainda não tiverem idade para comer, devem ser alimentados com leite em pó próprio para gatinhos bebés (nunca deve ser dado leite de vaca aos animais). Em qualquer animal, bebé ou adulto, deve ser feita a vacinação, mal seja possível, e a esterilização a partir dos seis meses. No caso dos animais esterilizados, deve ser dada a alimentação adequada para gatos esterilizados.

Esterilizar animais de rua envolve um processo ligeiramente moroso para o animal. Como assegurar o seu bem-estar nos dias que se seguem à cirurgia?
Os veterinários que colaboram no nosso programa de esterilizações utilizam técnicas cirúrgicas e medicação próprias para animais de rua, ou seja, suturas pequenas e reforçadas e medicação injectável com vários dias de acção, para que a recuperação do animal em pós-operatório, feita sempre com voluntários, seja muito mais rápida e indolor, e que possam ser devolvidos ao seu local no máximo de três dias depois de serem esterilizados.

Para esterilizar um animal, a associação tem de arranjar fundos. Para além dos conhecidos padrinhos/madrinhas, que actividades desenvolve a organização para conseguir apoio financeiro?
A Animais de Rua tem uma Loja Virtual Online onde vende os seus produtos próprios (agendas para 2014, pins, porta-chaves, sacos, t-shirts, canecas, etc.), um blog de venda de artesanato, uma Feira do Livro Online e também realiza leilões no Facebook. Todas estas ferramentas são essenciais para a angariação de fundos que revertem na totalidade para esterilizações, mas também organizamos campanhas de recolha de donativos (monetários e ração) e bazares de venda de todo o tipo de artigos que nos são doados pelas pessoas que se interessam pela causa.

A associação conta com apoio institucional?
Temos o apoio de várias autarquias, nomeadamente as Câmaras Municipais de Lisboa, de Sintra, Oeiras, Cascais, Faro, Matosinhos, Vila Nova de Gaia e Ponta Delgada, da Fundação Belmiro Azevedo, da “Iniciativa de Elevado Potencial de Empreendedorismo Social” e da “CASA (Centro de Apoio ao Sem Abrigo)”.

Como ajudar nesta vossa causa?
Os padrinhos e madrinhas de esterilização são essenciais para o nosso trabalho, por isso qualquer pessoa que queira apadrinhar a esterilização (na totalidade ou parcialmente) de um animal pode fazer um donativo em dinheiro à associação através do NIB: 0065 0921 00201240009 31 ou tornar-se sócio da associação, através do formulário no nosso site. Quem não o puder fazer pode ligar para o nosso número solidário 760 300 161 (0,60 euros +IVA) ou adquirir peças na nossa Loja Virtual, no nosso Blog Artesanato Animais de Rua ou no nosso blog Feira do livro Animais de Rua. Todos estes lucros revertem na totalidade para ajudar animais de rua ou carenciados. Aceitamos também quaisquer donativos, sejam peças de artesanato para vendermos, armadilhas, transportadoras, jaulas, ração, desparasitantes internos e externos ou casotas em plástico para os cães que vivem na rua muitas vezes sem qualquer espécie de abrigo.

Sendo uma arquitecta apaixonada por animais, como considera que nos devemos comportar em relação a eles?
Acho que, para além de darmos aos nossos animais os melhores cuidados de saúde e alimentação possíveis, devemos ver para além daqueles que temos em casa, no quentinho e de barriga cheia. Com isto quero dizer que a lei portuguesa ainda está muito aquém do ideal no que toca à protecção animal, por isso ainda vemos imensos casos de negligência e maus-tratos. Na maioria das vezes não temos os meios necessários para ajudar e as próprias autoridades também não actuam. É necessário participarmos todos nas acções de sensibilização da população para estes problemas e associarmo-nos a causas que possam melhorar o estatuto dos animais no nosso país.

Quer deixar algum apelo?
Agora que estamos a começar cá em São Miguel o mais importante é angariarmos voluntários, por isso estamos abertos a receber qualquer pessoa que se identifique com a nossa causa. Divulgar a Animais de Rua ao máximo também é muito importante, por isso visitem o nosso Facebook e o nosso site (www.animaisderua.org) para que estejam a par das nossas actividades, assim como dos animais para adopção.