Sociedade açoriana mais atenta aos valores da economia solidária

Catarina Borges - presidente ACEESAAs empresas açorianas estão a aliar-se, “progressivamente”, ao conceito de economia solidária. Uma prática que junta uma vertente social e “mais humana” à economia “convencional”. Abrange áreas como o combate às desigualdades sociais e à exclusão social, o ambiente e a cultura.
Segundo a presidente da ACEESA, a actual conjuntura de crise é um “permanente desafio”, que exige a aposta das empresas em “modelos inovadores e de maior risco”. Por isso mesmo, Catarina Borges  revela ao Diário dos Açores que há que adoptar uma “postura mais empreendedora” para fazer
“mais e melhor” pela sociedade.

 


A economia solidária é um conceito que tem ganho um lugar de cada vez mais relevo na sociedade açoriana. O número de entidades e empresas que se associam a esta prática tem vindo a aumentar na região.
Actualmente, a Rede de Empresas de Economia Solidária é composta por cerca de 17 empresas, que fazem parte das associações que cooperam com a Cooperativa Regional de Economia Solidária dos Açores.
Trata-se de uma prática que alia os objectivos de qualquer organização ou agente económico, como a produção de bens e serviços, criação de emprego, distribuição de rendimentos ou realização de investimentos, a uma vertente social. 
Em entrevista ao Diário dos Açores, a presidente da Associação Centro de Estudos de Economia Solidária do Atântico (ACEESA) explica que a o conceito “tem especificidades muito próprias”, que “a economia convencional não abrange”. É “mais humanizada, não exclusivamente sujeita aos ditames da economia de mercado, geradora de desigualdades e de exclusão social”. 
“É um conceito sistémico porque interage com o projecto social, quando emprega pessoas em situação de desfavorecimento, de exclusão social, e quando satisfaz as necessidades tendo em conta a acção”, refere Catarina Borges. 
A economia solidária possui ainda uma vertente ambiental, “ao não esquecer as questões da biodiversidade, da agricultura biológica, da recolha e separação de resíduos, passando pela promoção de actividades de ecoturismo e pela utilização de energias renováveis”, acrescentou. 
Nos Açores, a prática emergiu nos anos 90, como forma de luta contra a pobreza e a exclusão social, tendo como protagonistas apenas duas instituições. Hoje, são mais de 20 as associações açorianas que se movem pelos mesmos valores.
A ACEESA pretende continuar o crescimento deste número, “progressivamente”. “O esforço empregue na divulgação de informação e na sensibilização tem sido grande e terá de continuar a fazer-se de forma permanente”, sublinha. 
A associação surge na região enquanto pólo dinamizador da economia solidária. Promove projectos de acção junto da comunidade, das escolas, empresas e organizações com o objectivo de incutir ideias que levem a assumir alterações de comportamentos e atitudes. No último ano, foram desenvolvidos cursos de actualização de activos, seminários, conferências, entre outras actividades. 
A cada dois anos, a ACEESA publica ainda uma revista abordando várias áreas da economia solidária. A próxima será publicada em 2015.
Relativamente a este ano, a associação já planeia um nova iniciativa: a divulgação, em parceria com a ACAF (Associação das Comunidades AutoFinanciadas), de um novo modelo de financiamento alternativo, “inovador para os Açores”. 
“Trata-se de uma metodologia inovadora em microfinanças que consiste na constituição de um fundo comunitário, gerido por grupos de pessoas que criam e gerem esse fundo. O objectivo das comunidades autofinanciadas é o fortalecimento de redes sociais através da promoção de valores como o espírito de entreajuda, a solidariedade e autonomia”, explica Catarina Borges. 
Para a responsável, a economia solidária surge na região, “sem dúvida”, para responder a necessidades da sociedade que, de outra forma, não seriam solucionadas. 
“O modelo de funcionamento [da economia solidária] é baseado no conceito de desenvolvimento sustentável, que projecta na sua acção a inserção de público excluído ou em vias de exclusão, sendo esta inserção mais do que um mero direito de subsistência, ao reconhecer que a pessoa tem um papel positivo na sociedade, o de contribuir com a sua actividade para a utilidade social”, afirma Catarina Borges.
Não sendo este um objectivo directo do conceito, a sua prática acaba por ser um importante gerador de emprego no meio açoriano, numa altura em que crise e desemprego são as palavras de ordem. A economia solidária permite “dar novas oportunidades às pessoas em exclusão (ou em vias de) de voltarem a ter e a exercer uma cidadania activa”. 
“O principal impacto [da economia solidária] é o de contribuir para que surjam competências de públicos que a sociedade marginalizou, e devolvê-los ao mercado de trabalho”. “Permite reabilitar pessoas, territórios, ambiente, culturas, economias, redes de solidariedade, de partilha, de trocas, de afectos, de competências”, salienta a presidente da ACEESA.

“Postura mais
empreendedora”
A actual conjuntura é um “permanente desafio”. “As respostas sociais e económicas, que [as empresas] têm de dar, exigem modelos inovadores e de maior risco, que consigam responder aos problemas gerados pela crise”, realça a presidente, defendendo que há que adoptar “uma postura cada vez mais empreendedora com acções que contribuam para fazer mais e melhor”.
Em entrevista ao Diário dos Açores, Catarina Borges salientou que é possível fazer-se mais na região para aumentar a prática da economia solidária e apelou à necessidade de se “desmontar” o conceito. Mais do que a produção, distribuição e o consumo de bens e serviços, trata-se de um ramo da ciência social que abrange o mundo humano, a vida social.
“É muito importante a ACEESA poder demonstrar junto das organizações públicas e privadas a avaliação dos impactos que a economia solidária tem na região, por exemplo, na aferição da relação entre custos e benefícios para a sociedade das organizações que actuam na área”, salientou a responsável.
Nos últimos tempos, e porque a actual conjuntura “assim o exige”, tem se assistido a um processo de renovação das empresas de inserção. De acordo com Catarina Borges, há “um número cada vez maior de instituições que estabelecem novas parcerias para que seja possível utilizar os recursos (técnicos e financeiros) e metodologias de trabalho em prol do bem-estar da comunidade”.
Além desta maior adesão ao conceito, regista-se ainda a abertura de projectos que promovem os valores da economia solidária. A responsável aponta o surgimento de oficinas nas instiuições escolares, como é o caso do projecto ECOS, da escola Canto da Maia, em Ponta Delgada, bem como o projecto apoiado pela Fundação EDP, da Escola Secundária Antero de Quental.
Catarina Borges nota também a existência de empresas açorianas que, não estando integradas na Rede de Empresas de Economia Solidária, “namoram” o conceito, na forma aproximada de uma responsabilidade social.  

Por Alexandra Narciso