Cerca de 500 licenças emitidas por ano em São Miguel para pesca desportiva em águas interiores: truta é a espécie mais procurada

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Anabela IsidoroPrimeiramente introduzida na lagoa das Sete Cidades nos finais do século XIX, a truta foi inserida em São Miguel por se pensar que seria um peixe benéfico para a nossa alimentação. Porém, a espécie teve dificuldades em reproduzir-se naturalmente, acabando por se extinguir naquela lagoa. 
Entretanto, apesar de há 100 anos atrás a produção deste peixe ter ficado dissipada, em 1939 foi criado o Posto Aquícola das Furnas, onde actualmente se produzem cerca de 18 mil trutas por ano, conforme nos diz Anabela Isidoro, Directora Regional dos Recursos Florestais, em entrevista ao Diário dos Açores. 
Após a extinção do peixe nas Sete Cidades, “foram tentadas várias soluções, como a introdução de outras variedades de trutas, construção de desovadouros artificiais e, por último, a reprodução artificial da espécie”. Nesse sentido, foi criado, então, o Posto Aquícola das Furnas, sendo que o principal objectivo na altura já foi reproduzir artificialmente as trutas e manter a sua população em níveis estáveis. 
De todas as variedades importadas, a truta arco-íris (Onchorynchus mykiss) foi aquela que melhor se adaptou às nossas condições, em grande parte por ser “uma espécie robusta e de fácil maneio”, sendo esta a única truta que agora é reproduzida. No presente, os Serviços Florestais dão continuidade a estes trabalhos de produção de trutas no Posto Aquícola das Furnas, tendo por finalidade a preservação da espécie.
Para Anabela Isidoro, o facto de favorecermos em São Miguel a produção de trutas constitui uma mais-valia para o turismo, pela “importância que esta espécie tem para a prática da pesca desportiva em águas interiores, tanto pela população local, como para todos os amantes de desportos de natureza que nos visitam”. Para além destes objectivos, afirma, “o posto aquícola tem uma vertente científica e educacional, já que somos visitados anualmente por escolas com alunos interessados na temática”.
A produção destas trutas faz-se, segundo nos explica, em ciclos anuais, que se iniciam em Dezembro, com a desova os peixes reprodutores. Neste processo, “os ovos são mantidos em tabuleiros, em tanques interiores, por não poderem receber luz directa, e durante o mês de Janeiro dão-se os primeiros nascimentos. A partir desta altura as pequenas trutas, chamadas de alevins, são mantidas nos tanques interiores até começarem a alimentar-se e atingirem dimensão suficiente para passarem para os tanques de criação exteriores”, clarifica, acrescentando que “estes tanques são os que toda a população pode visitar onde o peixe é separado pelo tamanho, à medida que se vai desenvolvendo”. Quando a espécie atinge uma dimensão entre os 10 e os 15 centímetros, grande parte da produção é utilizada no repovoamento da Lagoa do Fogo, pois se trata da única lagoa em São Miguel que, “pelas condições que apresenta ao nível da temperatura e qualidade da sua água, permite a subsistência desta espécie piscícola, com reconhecido valor desportivo”. A restante produção é mantida até atingir um tamanho médio na ordem dos 19 a 25 centímetros e, posteriormente, utilizada no repovoamento das ribeiras. Neste caso, e de acordo com a Directora Regional, “são usados os exemplares de maiores dimensões para que no dia 1 de Maio já possuam tamanho suficiente para serem capturados”. Para além dos peixes utilizados nos repovoamentos, os que apresentam melhores características permanecem no posto aquícola para substituírem os reprodutores actuais, que no final do seu ciclo reprodutivo são também devolvidos ao meio natural. Os reprodutores são mantidos em tanques de grandes dimensões até à nova altura de desova e o ciclo completa-se.
Note-se que as trutas para repovoamentos, com sete meses, apresentam um peso aproximado entre 10 a 20 gramas e quando atingem um ano de idade o seu peso varia entre os 100 e os 200 gramas. Porém, Anabela Isidoro salienta que estes valores são muito relativos, pois “as trutas têm tendência a crescer mais ou menos conforme a disponibilidade de espaço e alimento”. Precisamente no que concerne à alimentação, estes peixes são alimentados por rações e os tanques são feitos em cimento “em forma de canal rectangular de dimensão variável, de maneira a suportar todas as fases de vida que o peixe atravessa”. A água utilizada é proveniente de uma nascente, pois esta deve ser de “boa qualidade e em quantidade suficiente para manter um fluxo de água constante em todos os tanques que estão a ser utilizados, devendo ser bem oxigenada e de baixa temperatura”, explicita.
A área de produção coberta neste viveiro é de 60 m2, onde estão instalados quatro tanques de alevinagem e áreas de apoio. Já a área descoberta tem 600 m2, onde estão instalados 14 tanques de criação, reprodutores e apoio à reprodução, permitindo manter uma produção média anual de cerca de 18 mil trutas  - todas elas criadas em cativeiro. Segundo Anabela Isidoro, as taxas de sobrevivência têm-se manifestado “muito altas”, apesar de as trutas se aniquilarem umas às outras, sendo necessária, por isso, a separação do peixe por tamanhos.
Questionada sobre a possibilidade de replicar este tipo de produção pela iniciativa privada, a Directora Regional refere que sim, fazendo destacar, no entanto, que os objectivos de produção pela Direcção Regional dos Recursos Florestais “não são comerciais, pelo que não releva a aceitação e colocação no mercado deste tipo de peixe”. A principal preocupação é “produzir a quantidade suficiente para manter a população existente em níveis estáveis, que permita a prática de uma pesca desportiva interessante, sustentável, ao mais baixo custo possível”. 
Entretanto, este tipo de produção compreende alguns problemas com que a Direcção Regional se depara no momento. São eles, “a manutenção do caudal de água suficiente para a produção, e em anos de escassez de água dá-se prioridade ao consumo humano, como é óbvio”. Paralelamente, esta espécie de truta necessita de temperaturas da água mínimas relativamente baixas para a sua reprodução (entre 10º a 14º graus), pelo que o aumento da temperatura mínima da água, pode vir a ser um factor limitante no futuro. Anabela Isidoro friza, contudo, que há know how e tecnologia para resolver essas questões, mas o “problema é o custo dessas mesmas tecnologias”.
Anualmente, os Serviços Florestais emitem na ilha de São Miguel cerca de 500 licenças para pesca desportiva em águas interiores, em que a truta é a espécie mais procurada. Detentora de uma carne saborosa com altas concentrações de ácidos gordos Ômega 3, que são responsáveis pela diminuição do colesterol e prevenção de doenças vasculares e neurológicas, este peixe é rico em proteínas, cálcio, fósforo, sais minerais e vitaminas. Além disso, é dos peixes de água doce com mais receitas culinárias na internet.