“Se houvesse Guiness do riso, São Miguel ganhava o recorde mundial”, diz terapeuta

  • Imprimir

delia oliveiraNatural de São Roque e com 58 anos, Délia Oliveira considera-se uma pessoa optimista e de riso fácil. Por ter uma personalidade contagiante, lecciona há dois anos aulas de terapia do riso, tendo já ajudado centenas pessoas a ultrapassarem depressões. Com mais de 320 sessões dadas, Délia Oliveira conta-nos, em entrevista ao Diário dos Açores, que São Miguel aderiu a esta iniciativa de uma forma invulgar e, por isso, “se houvesse o guiness do riso”, era esta ilha açoriana que ganhava, pois “nunca ninguém fez tanta sessão, em tão pouco tempo”...

Como e quando começou o conceito da terapia do riso no mundo?
A terapia do riso (ou yoga do riso) começou na Índia, em 1995, pelo Dr. Katarian – um médico de clínica geral que ao tratar dos seus doentes apercebia-se que faltava algo. Era a alegria! Reuniu, então, cinco pessoas e foi para um pátio dizer coisas para rirem, como anedotas e piadas.  Mais tarde, ele quis aprofundar o estudo sobre o riso e, depois de muita pesquisa, descobriu que para rirmos não precisamos de anedotas, filmes cómicos ou piadas. Podemos rir de tudo e de nada.
Esta prática já é feita em 70 países espalhados pelo mundo, incluindo Portugal.
 
Há quanto tempo dá aulas de terapia do riso em São Miguel?
Dou aulas de terapia do riso desde Julho de 2012, na Junta de Freguesia de São José, ao público em geral. As aulas são  feitas por donativo, sem mensalidades obrigatórias.
Também vou a lares de idosos, creches, jardins de infância, escolas primárias, preparatórias, escolas profissionais e universidade senior de Ponta Delgada. Já fiz esta terapia a médicos, pessoal de enfermagem, a doentes com deficiência mental profunda, a deficientes com Trissomia 21, a surdos, a toxicodependentes em recuperação numa instituição e em centros de dia. Já estive em Elvas, Madeira, na ilha Graciosa e em Santa Maria. Estive também duas vezes no Wake IN Festival ao lado de grandes personalidades do yoga.
Neste pouco tempo já dei 320 sessões de riso, o que é um recorde mundial! Se houvesse o guiness do riso, era São Miguel que ganhava, pois nunca ninguém fez tanta sessão, em tão pouco tempo. São Miguel, em geral, aderiu ao riso de uma forma fora do vulgar e ainda bem!
 
Teve formação? Como surgiu o interesse por esta área?
Sim, tive formação, com diploma internacional, com a Dra. Kyra Abreu -– uma excelente formadora que veio aos Açores dar este curso. Estou apta a dar terapia do riso em qualquer parte do mundo.
O meu interesse por esta área  – o riso -– sempre me fascinou. Sempre fui muito alegre e adorava fazer rir as outras pessoas. Então, quando ouvi falar do curso de yoga do riso eu disse para mim mesma: “Eu vou tirar este curso! Tem tudo a ver comigo”. Fui e estou muito feliz. 
 
É uma pessoa optimista...
Sim, sou uma pessoa optimista, pelo facto de o riso e o sorriso fazerem parte da minha vida e por poder partilhar esta alegria com as outras pessoas. Costumo ver sempre o lado bom de tudo na minha vida e dar menos importância ao que é menos positivo.
 
Como funciona esta terapia? O que faz para provocar o riso nas pessoas?
Esta terapia funciona em grupo. O terapeuta lança um exercício de riso e podemos rir de tudo e de nada…até das contas para pagar. Em grupo é contagioso porque quando se lança um sorriso todos riem ao mesmo tempo. São os ‘neurónios espelhos’ a trabalharem. Mas para compreenderem melhor, só mesmo indo à terapia do riso e verem com os seus próprios olhos. Quem vai nunca mais deixa! Tem acontecido isto mesmo. Numa sessão de riso há dança, canto, aeróbica, exercícios de riso e, no final, 25 minutos de relaxamento profundo e guiado.

De que forma, então, o riso nos afecta dos pontos de vista fisiológico e comportamental? Por que rir faz bem à saúde?
A pessoa que deixa de sorrir adquire muito mais facilmente doenças. O rir é fundamental para a saúde. Tem enormes benefícios. Melhora o nosso bem-estar físico e mental.
Rir é um combate ao stress (que está na origem de 70% das doenças actuais), à depressão, à angústia, à tristeza e à ansiedade. Uma boa gargalhada fortalece os músculos do estômago. Dá-nos uma massagem aos intestinos e activa as células. É um analgésico natural do corpo que combate as infecções, atenua as dores, aumenta a nossa auto-estima e a auto-confiança. Faz-nos sentir melhor, melhora a qualidade do sono, previne as doenças respiratórias, como a asma, e ajuda a controlar a hipertensão. Previne doenças do coração e dá um brilho ao rosto. Até ficamos com menos barriga porque fortalece os músculos abdominais.

O riso induzido produz os mesmos efeitos do que o riso espontâneo?
O nosso cérebro não distingue o riso falso do riso verdadeiro porque são os músculos do rosto que ao rirmos transmitem a boa disposição ao cérebro. Este exercício poderá ser feito ao espelho. Rir e gargalhar, mesmo sem vontade, tem o mesmo benefício.
 
Há um beneficio maior na gargalhada do que propriamente rir, sorrir ou dar uma risada…
Toda a forma de rir e sorrir é boa, mas a gargalhada, para além de trazer enormes benefícios, trabalha muitos músculos do nosso corpo, dando-se uma libertação de endorfinas.

Essa terapia é indicada, essencialmente, para que tipo de pessoa?
É indicada para todo o tipo de pessoa. Trabalho com todas as faixas etárias. Dos três aos 90 anos.

Há pessoas mais propensas ao bom humor?
Sim, há pessoas que já são bem humoradas e outras mais reticentes, mas numa terapia do riso aprende-se o caminho que vai dar ao bom humor.
 
Quantos homens e mulheres recorrem à sua terapia?
Actualmente, já são muitas pessoas, mas mais mulheres do que homens.
As mulheres têm mais curiosidade pela novidade. A mulher adere a tudo e ri por natureza mais do que o homem, por isso tem mais tempo de vida. A diferença é de oito anos. Já está diagnosticada.
 
A terapia do riso pode curar uma depressão?
A terapia do riso é um combate à depressão, que feita com frequência leva à cura.
Tenho tido várias pessoas com este problema e tem sido um sucesso.
 
Em quanto tempo a terapia do riso acelera o processo de cura?
Varia de pessoa para pessoa. Parte da vontade que a pessoa tiver para se curar e levar a terapia a sério: quero dizer, ir à terapia com frequência e seguir as instruções do terapeuta.
 
Seria importante levar a terapia a toda a gente, face à actual conjuntura em que se vive?
Não seria só importante, como fundamental! As pessoas precisam de rir, sorrir, gargalhar e, assim, preveniam muitas doenças. Na vida actual precisamos urgentemente de algo que nos faça esquecer os problemas, então rir é o melhor remédio. Todas as pessoas deveriam e precisam de rir. Por exemplo, o yoga do riso nas escolas é o chamar a atenção para o aqui e agora. Trabalha a concentração, fazendo com que as crianças e jovens fiquem mais produtivos; há menos conflitos porque o riso aproxima e une as pessoas. Nos idosos tira-os do tédio, fazendo sentirem-se mais vivos para interagirem com os mais jovens. Têm menos dores fisicas. É um retardamento das doenças mentais.
É muito importante fazer terapia do riso nos dias de hoje porque a pessoa tira um tempinho só para si própria e, enquanto ri, não pensa em mais nada. Tudo que a preocupa fica fora daquela sala. Por isso deixo aqui uma frase da minha autoria: Vivam bem, sorriam muito.