A decisão da discórdia!

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resplendorA Irmandade do Santo Cristo reafirmou ontem a sua oposição à participação do Resplendor da imagem Santo Cristo numa exposição em Lisboa, mesmo apesar da Diocese ter garantido que estavam reunidas as condições para a presença da jóia na mostra.
Num texto assinado pela totalidade dos membros da Comissão dos Bens Culturais da Igreja (o padre Duarte Melo, que também é director do Museu Carlos Machado, Ana Maria Raposo Fernandes, Igor França, Isabel Albergaria, João Paulo Constância, José de Almeida Mello, Rute Gregório e Susana Goulart Costa), a comissão garante que “o tratamento documental da peça, estudo, descrição e inventário, já foi realizado pelo Professor Rui Galopim de Carvalho, como especialista em gemologia”. E garante ainda que haverá “a contratação de seguro contra todos os riscos, no valor da avaliação do bem (mantido em sigilo por questões de segurança), válido para o transporte e para todo o tempo de permanência; a celebração de um contrato de empréstimo contendo as cláusulas relativas aos vários requisitos exigidos; o acompanhamento do processo e do resplendor, por técnico especializado, com experiência em transporte de bens culturais e por um representante da Diocese”.  Em relação às condições de exposição, “foi acautelada uma vitrina de alta segurança, com sistema de alarme próprio, e condições ambientais mantidas dentro dos limites definidos, bem como assegurado um sistema de vigilância vídeo, permanente, com gravação e acesso remoto, para além de vigilância presencial, por pessoal especializado”. E refere que “como contrapartidas da cedência temporária da peça, será realizada a sua avaliação técnica e o seu estudo científico, por especialistas da área, e executada uma limpeza por técnicos credenciados do Laboratório José de Figueiredo, uma medida urgente e imprescindível à conservação deste bem patrimonial”.
A comissão considera que “estão reunidas todas as condições para a sua participação na exposição temporária” (intitulada “Esplendor e Glória”, a realizar no do Museu Nacional de Arte Antiga entre Julho e Dezembro) e baseia o seu interesse na “divulgação do Culto”, na divulgação “dos Açores e o seu património” e que se trata de “uma distinção e uma oportunidade, num contexto em que se reconhece a importância actual do turismo cultural e religioso e as novas formas de peregrinação”.

Qual é o erro da comissão? Talvez esteja no facto de conceber esta peça como sendo de “elevadíssimo valor afectivo e patrimonial”, deixando de fora uma dimensão que estranhamente ignora: o peso da sua religiosidade.
Só assim se consegue entender o episódio inédito que aconteceu no momento da entrada da imagem no final da procissão de Domingo! Aparentemente o padre Pedro Maria teria dito qualquer coisa ao Bispo D. António sobre o assunto, numa troca de palavras não de todo pacífica. A certo ponto, e na presença de inúmeras autoridades civis, o Bispo terá mesmo mandado o padre calar, ao que este terá respondido que não estava sozinho nesta demanda. E perguntou alto “estou sozinho?”, ao que,  em coro, os irmãos responderam “não, não está”. De arrepiar!

Ontem mesmo, uma nota da Mesa da Irmandade reafirma a oposição à participação do Resplendor na exposição. “Sendo o Tesouro do Senhor Santo Cristo dos Milagres, a que pertence a magnífica obra de joalharia que é o Resplendor, composto por milhares e milhares de doações valiosas do Povo Devoto com a intenção de que as mesmas ficassem sempre junto da Veneranda Imagem, no Convento da Esperança, não se deve, sob que pretexto for, usurpar, em parte ou no todo, essas intenções de Fé, cujo valor afetivo, emocional e sentimental é, absolutamente, incalculável”.
A Mesa da Irmandade refere ainda que está “contra a realização, fora do Convento da Esperança, de trabalhos de avaliação técnica, de estudo científico e de limpeza negociados como contrapartida da cedência temporária da peça”, considerando que “a conservação daquele bem patrimonial” deve ser feito “no local”. 

Mas no que parece ser um extremar de posição, a Comissão dos Bens Culturais da Diocese de Angra fez publicar ontem no site da agência de notícias da Igreja Católica em Portugal (agencia.ecclesia.pt) um texto com o título “Património: Resplendor do Senhor Santo Cristo vai integrar exposição em Lisboa”, garantindo que “o resplendor da imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, dos Açores, vai integrar a exposição ‘Esplendor e Glória’, no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, entre julho e dezembro deste ano”. 

Mas o povo, normalmente passivo nestas questões, desta vez parece ter tomado partido. E uma petição intitulada “Resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres – Não pode abandonar o Santuário” (no site peticaopublica.com), dirigida a D. António de Sousa Braga, conseguiu no espaço de 24 horas atingir mais de 700 assinaturas – o que é raro. Se a petição se destinasse a ser apresentada na Assembleia Legislativa, já teria conseguido as assinaturas necessárias a ser votada no parlamento. E o seu número continua a aumentar.
O texto da petição é bastante curto: “Pedimos a sua reverência o Sr. Bispo António de Sousa Braga, que reconsidere a sua iniciativa de enviar o Resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres para que o mesmo seja exposto em Lisboa. Em primeiro lugar, porque o referido Resplendor pertence à Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, e dela não deve ser dissociado nem separado. Por outro lado, porque existe um efectivo e significativo risco de furto associado a uma deslocação destas, que é tão publicitada e uma perda destas seria a todos os níveis irreparável. Por último, porque não podemos esquecer que este Resplendor, tal como os mantos e o ceptro são o resultado do trabalho de muitas pessoas ao longo de muitos anos, mas sobretudo das oferendas de muitos crentes, que merecem que esta tão importante peça seja guardada e preservada com o maior dos cuidados e respeito”. O 1º subscritor dá pelo nome de Pedro Teixeira.

No Facebook o tema tem sido amplamente discutido. Mas é provável que o assunto também já tenha chegado aos corredores do poder. Embora sem qualquer confirmação oficial, surgem rumores de pressões para o Governo Regional accionar a Direcção Regional da Cultura, e que poderá surgir uma providência cautelar para evitar a saída do resplendor.   Se o caso se extremar até esse ponto, estão em causa questões sobre a tutela do bem, que a comissão repetidamente refere como sendo “um bem patrimonial dos Açores”, e noutro trecho mesmo como “peça emblemática do Património dos Açores” (sic). E também sobre se é um bem da Igreja diocesana ou do Santuário, e até, no extremo,  a quem pertence o próprio Santuário. Por outras palavras, no limite, se a Igreja quisesse vender o resplendor, podia ou não fazê-lo? 
A olhar de fora, muitas pessoas ligadas à Igreja e à sociedade civil, olham para esta disputa com bastante preocupação: “oxalá que isto não acabe muito mal”, dizem. Mas o facto é que as posições estão cada vez mais extremadas...

 

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