Sucesso escolar nos Açores: e se o problema também for do início das aulas às 8h30?

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educacaCada vez mais estudos realizados no estrangeiro sugerem que o horário das aulas nas escolas tem uma relação directa com o sucesso escolar e até com o nível de saúde dos alunos – mais precisamente o início do dia escolar.
A razão é clara e objectiva: os adolescentes necessitam entre 8,5 e 9,5 horas de sono por noite e hoje em dia muito poucos o conseguem. E é mais do que estar no Facebook à noite: segundo estudos da University College London, Oxford e Harvard, os adolescentes “estão predispostos a ir para a cama tarde e a acordarem entre as 9h00 e 10h00. Esse padrão, intitulado “time shift”, mantém-se até o relógio biológico do corpo começar a mudar a partir dos 21 anos de idade".
Por conseguinte,  iniciar o dia escolar a uma hora mais próxima daquela a que os relógios biológicos estão mais capazes de estudar tem um efeito real no sucesso dos jovens. Há mesmo experiências feitas por escolas nos EUA, em que o atraso de meia hora melhorou os resultados significativamente – e das escolas que alteraram os seus horários de forma experimental, nenhuma voltou atrás. O assunto está, de resto, bem documentado.
Nos Açores, onde os resultados são péssimos, o Governo tem vindo nos últimos anos a anunciar sistematicamente tentativas de reduzir o insucesso escolar – isto depois de ter reconhecido que havia realmente um problema a esse nível. A taxa de retenção no ensino básico chega a ser o triplo da nacional, enquanto que a taxa de conclusão no secundário é de 68,8% nos cursos gerais, contra 77,8% no país, e de 74% nos cursos vocacionais, contra 83,1% no país. A situação é de longe a pior do país, mas nas diversas abordagens que têm vindo a ser equacionadas o assunto nunca foi colocado, pelo menos de forma pública, e parece haver uma tendência para harmonizar as soluções com o continente, ignorando por completo o problema cientificamente comprovado da capacidade física dos alunos.
Ainda recentemente, o último secretário da Educação, o professor universitário e historiador Avelino Meneses, num encontro do Conselho Nacional de Educação onde foram analisadas “questões relacionadas com a promoção do sucesso escolar”, concluiu que “o sucesso escolar só será obtido se houver o empenho dos estudantes, a motivação dos professores e a colaboração das famílias”. Da parte do Governo são apontadas como “medidas concretas o alargamento do projeto Fenix, o apoio aos professores do 1.º ciclo e  a criação dos mediadores escolares”. E uma coisa chamada “crédito horário”, mas que na realidade tem a ver com o reforço da formação dos professores nas disciplinas de Português e Matemática – cuja carga horária deverá ser aumentada, de acordo com uma sugestão dos próprios sindicatos dos professores...
Aumentar o número de horas de estudo nas escolas para alunos que não dormiram o suficiente irá dar os resultados que o secretário diz pretender? O que os estudos internacionais sugerem é que o resultado será nulo do ponto de vista dos resultados – e mesmo negativo para a própria saúde dos alunos.

Matemática às 8h30?

O desprezo aparentemente total em relação a este aspecto é visível nos horários do ensino secundário das escolas de Ponta Delgada. Não apenas praticamente todas as turmas iniciam as aulas às 8h30, como em muitos casos o dia começa com as matérias alegadamente mais difíceis – nomeadamente Matemática. A mistura da falta de sono dos alunos com a disciplina mais exigente – pelo menos tendo como referência os seus péssimos resultados – é inevitável.
Na Antero de Quental,  no 10º ano, de 8 turmas com a disciplina de Matemática A, apenas 3 não têm Matemática às 8h30, 2 têm-na 1 vez por semana, e 3 turmas têm-na 2 vezes por semana. No 11º ano, de 6 turmas apenas 1 nunca tem Matemática às 8h30, mas uma turma tem 3 vezes (e os restantes dias são Física e Química e Educação Física), uma tem 2 vezes e 3 têm 1 vez. No 12º ano, de 6 turmas, 3 não têm Matemática às 8h30, 2 têm 1 vez por semana e 1 tem 2 vezes. Curiosamente, Física/Química e Educação Física parecem ser também das opções mais correntes para os alunos começarem o dia...
Na Domingos Rebelo, no 10º ano, de 8 turmas 3 não têm Matemática às 8h30, 2 têm uma vez, e 3 têm-na 2 vezes. No 11º ano, de 6 turmas 4 não têm, 1 tem uma vez e 1 tem 2 vezes. E no 12º ano, de 5 turmas 2 não têm e 3 têm 1 vez por semana.
Conclusão: no mínimo parece haver um tratamento altamente desigual na atribuição desses horários… E não seria propriamente descabido transformar as turmas mais “massacradas” numa espécie de “estudos de caso”… embora o resultado seja mais que previsível: notas baixas e elevados níveis de ansiedade e stresss deverão ser prováveis.

Como é na Europa

Não deixa de ser curioso que em Ponta Delgada, numa cidade onde a esmagadora maioria dos adultos  começam a trabalhar às 9h00, os adolescentes sejam obrigados a começar as aulas às 8h30. O que, não sendo propriamente um argumento pedagógico (não consta que a ideia de começar a estudar muito cedo seja propriamente aconselhável), sugere que o horário escolar é feito exclusivamente para acomodar as necessidades dos adultos – e não dos jovens. Prioridades invertidas?.
Num estudo publicado na colecção “European issues”, da Fundação Robert Schuman, intitulado “Organisation of School Time in the European Union” (n°212, de 5 de Setembro de 2011), percebe-se que na Europa parecem existir grandes variações de horários de entrada mas  que o tema começa a ganhar notoriedade nos últimos anos.
Na Alemanha as aulas começam entre as 7h30 e as 8h30, e terminam entre as 11h30 e as 13h30, têm 45 minutos de duração (cerca de 19 a 28 aulas por semana no ensino básico e 28 a 32 no secundário). No Reino Unido, as aulas começam em geral às 9h00 e terminam entre as 15h00 e 16h00, com um intervalo de 1 hora para almoço. Na Espanha as aulas começam entre as 9h00 e as 10h00 e terminam entre as 16h00 e 17h00, com intervalo de 2,5 horas para almoço (o dia contínuo tem vindo a ganhar terreno, com as aulas a começarem às 9h00 e a terminarem às 14h00, com as tardes destinadas a actividades extra-curriculares). Na Holanda as aulas começam em geral às 8h30 e terminam entre as 15h00 e as 16h00, com uma divisão de 1 hora pelo meio, em que as escolas são obrigadas a acomodar os alunos de forma a almoçarem obrigatoriamente no estabelecimento. Muitas escolas primárias têm aderido ao dia contínuo, que termina à volta das 14h00; a hora de almoço é considerada uma “experiência de aprendizagem”!
Em Inglaterra, a UCL Academy, de Londres, iniciou no ano passado um sistema em que as aulas apenas começam às 10h00 “até que os jovens estejam devidamente acordados”, é dito. Foi a 1ª do Reino Unido a fazê-lo e discute-se o seu alargamento a todo o país. Para além dos resultados escolares, os alunos reconhecem que são mais propensos a tomar o pequeno-almoço.
Nos Açores parece haver uma certa desatenção em relação ao que se passa no exterior. E sobrecarregar os alunos, de novo, parece ser apenas usar a receita do costume – a mesma, mais fácil, mas que não tem dado resultados...

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