Estados Unidos vão entregar 300 edifícios da Base das Lajes às autoridades portuguesas este ano

BASE das LAJESOs Estados Unidos deverão proceder ao longo deste ano à devolução de algumas infra-estruturas da Base das Lajes para as autoridades portuguesas. De acordo com o Pentágono, serão aproximadamente 300 dos 400 edifícios que compõem a base e que serão transferidos para o Governo Português. Washington irá pagar para manter as operações de combate a incêndios, torre de controlo e serviços de emergência, tarefas essas que ficarão a cargo dos trabalhadores açorianos.
Segundo a agência Reuters, a decisão de retirar particlamente da Base das Lajes deveu-se “à conclusão pelos comandantes de que a base aérea das Lajes é em grande parte uma relíquia de outra época, quando era necessária para reabastecer ou fazer aterragens de emergência dos aviões em voos transatlânticos no seu caminho para o continente europeu”.
A redução gradual, ao longo deste ano, será de 900 para 400 trabalhadores portugueses da Base das Lajes, enquanto os civis e militares norte-americanos vão passar de 650 para 165.
O professor de Relações Internacionais Miguel Monjardino, que é natural da ilha Terceira, disse que anteontem foi “um dia mau para os Açores”, mas sublinhou que “os Governos da República e Regional fizeram o que podiam para evitar a redução de pessoal nas Lajes, anunciada pelos Estados Unidos”.
“Esta diminuição levanta dúvidas sobre que relação é que os Açores têm com a América, e que papel é que os Açores desempenham hoje em dia na relação entre Portugal e os EUA. Sob esse ponto de vista, parece-me que é claramente um dia mau para os Açores, porque põe em causa muita coisa que foi dada como garantida nas últimas décadas”.
Miguel Monjardino sustenta que a reorganização de toda a infraestrutura militar dos EUA na Europa, que inclui a redução de efetivos na Base das Lajes, assentou em duas razões.
“A recusa sistemática do Congresso em aceitar os pedidos do departamento de defesa em reduzir ou fechar bases no território norte-americano, sem que isso fosse feito primeiro em bases europeias usadas pelos EUA. E a necessidade que o departamento de defesa norte-americano tem de poupar recursos e dinheiro por questões de política interna”, explicou.
“Tenho dúvidas que fosse possível, quer ao Governo Regional, quer ao Governo Português [da República] fazer muito mais do que aquilo que foi feito”, frisou o professor, acrescentando que os contactos feitos ao longo do processo podem vir a dar frutos no futuro.
A importância estratégica da Base das Lajes “flutuou ao longo da história” e a realidade atual é muito diferente da do passado.
“O [Oceano] Atlântico de hoje é muito diferente do Atlântico que deu origem a esta base. É evidente que isso diminui do ponto de vista norte-americano a importância que a base tem. Mas é também importante perceber que os americanos não vão sair completamente da base e, se houver necessidade, poderão reativar o seu uso a um nível mais elevado”, sublinhou Miguel Monjardino.
Sobre as declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, que avisara que as relações entre Portugal e os Estados Unidos poderiam ser prejudicadas em caso de um desfecho negativo sobre a utilização da Base das Lajes, o especialista considera-as como um “sinal de desagrado” por parte de Lisboa.
“O relacionamento [entre os dois países] será mantido, há desagrado pela parte portuguesa, e temos de pensar na melhor maneira de manter este relacionamento, como é que isto vai ser feito, e como é que eventualmente será possível atrair para os Açores novas iniciativas que gerem riqueza e prosperidade nas ilhas”, concluiu Miguel Monjardino.
Pelo menos 2 partidos anunciaram iniciativas de contactos na Assembleia da República.
BASE das LAJESO PSD anunciou que vai chamar ao parlamento o embaixador norte-americano em Portugal, Robert Sherman, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, para prestarem esclarecimentos sobre a redução da presença dos Estados Unidos nas Lajes.
“A decisão do governo dos Estados Unidos deixa o PSD preocupado, é nesse sentido que solicitámos a presença do ministro dos Negócios Estrangeiros na comissão para prestar esclarecimentos, além disso gostaríamos também de convidar o embaixador norte-americano para estar presente na mesma comissão para prestar alguns esclarecimentos”, afirmou o deputado social-democrata António Rodrigues.
“Estamos ainda disponíveis para viabilizar todos os pedidos que venham a ser apresentados por outros partidos para aqui no Parlamento ouvirmos outros responsáveis para esclarecer cabalmente esta situação, sem dramatismos”, afirmou o vice-presidente da bancada do PSD.
Sobre as duas audições, António Rodrigues referiu que o grupo parlamentar do PSD está “disponível para as escalonar de acordo com aquilo que seja a disponibilidade dos envolvidos”, o “mais rápido possível”.
“Sabemos que houve negociações e haverá ainda negociações no futuro e estamos interessados em deixar clara não só a posição dos trabalhadores daquela região, mas acima de tudo quais são os impactos para a economia da região autónoma dos Açores nesta matéria”, e disse esperar que “na colaboração entre o Governo Regional e o Governo da República possa estabelecer-se um consenso sobre esta matéria”.
O PCP anunciou também que vai chamar à Assembleia da República o Ministro dos Negócios Estrangeiros e o Ministro da Economia para discutir o que pretende o governo fazer relativamente ao anuncio da extinção de 500 postos de trabalho na Base das Lajes.