“Porque um infortúnio inesperado pode bater à porta de todos nós”!

cancro-asquatroSe hoje passar pelo Largo da Matriz, em Ponta Delgada, perto de um grupo composto principalmente por mulheres e muitas delas vestidas de negro, não se surpreenda se for “cravado” numa verba qualquer: trata-se de uma espécie de peditório que um grupo de pessoas de forma espontânea está a realizar para ajudar a Paula Margarida Tavares, uma professora cujo percurso como paciente de cancro está a revolucionar a forma como a sociedade açoriana parece encarar essa doença. Mas esse encontro está muito longe de ser um simples peditório...
No sábado ela irá a Lisboa, apresentar os dados conhecidos do seu carcinoma à Fundação Champalimaud, que aceitou estudá-lo, “visto que, para além de basal, apresentou-se numa forma nunca vista pela comunidade científica, e na esperança que um alguém em alguma parte do mundo descubra uma terapêutica que me salve, não só a mim, mas a todos os casos que espero sinceramente não comecem a aparecer”, diz no seu seu Facebook.
“O dinheiro é para isso, é para a deslocação, é para despesas presentes e futuras com eventuais tratamentos, pois o doente oncológico está muito abandonado”, diz Rita Simas Bonança à laia de desabafo: “sei que não consigo mudar o mundo, sei que não conseguirei salvar muitas Paulas, mas se o meu apoio conseguir fazer alguma diferença, eu estou aqui”.
A manifestação de hoje é organizada por ela, em conjunto com Ana Isabel Ferreira e Graça Castanho, (ex-directora regional das Comunidades). O grupo talvez nem tenha o nível mínimo de organização para poder ser chamado assim, mas é claramente um acúmulo de vontades no mesmo sentido: “solidariedade para com a Nana e a Raquel, apoio à Paula, mas é também um protesto pelas muitas Paulas que estão por esses Açores todos”, diz Rita Bonança.
O seu caminho cruzou-se com o de Paula neste pedaço de percurso também um pouco por azares da vida: tinham-lhe sido diagnosticados uns quistos, que repentinamente se multiplicaram sem grande explicação a não ser que poderia ser hormonal! Mas essa resposta não a satisfez e, podendo, decidiu ser vista pela Fundação Champalimaud. Foi então que recebeu uma mensagem da Paula, já em desespero, a dizer-lhe: “salva-me, leva o meu processo contigo a ver se eles me podem ajudar”.
Publicou uma das cartas da Paula na sua página do Facebook e os apoios “começaram a chover”. A passagem para a Paula e o seu acompanhante estão pagas, a consulta na Fundação está resolvida. Até já há estadia nos Estados Unidos, se for esse o caminho. Há dias, recebeu em casa uma bandeira do Divino Espírito Santo, com fama de milagreira – e junto um envelope de quase mil dólares para ajudar na renda de casa. Este parece ser um fogo que não irá parar de arder tão cedo…
 Até porque nem é apenas o caso da Paula que está em causa, nem é apenas uma questão da grande falta de apoio que os pacientes com cancro têm: todas as doenças terminais estão como que abandonadas por parte das autoridades oficiais. Faltam apoios nas deslocações, mas também faltam apoios nas próprias residências pessoais onde muitos optam por acabar os seus dias.
No particular do apoio aos cuidados paliativos Graça Castanho parece ser a voz mais inconformada. Ainda esta semana, dois artigos (que o Diário dos Açores pretende publicar na edição de amanhã) explicam toda a problemática. A propósito da Nana e da Raquel, começa por dizer estar “certa que em ambas as situações as famílias tinham condições para ter as suas filhas em casa, se o Governo já tivesse as equipas de cuidados paliativos a funcionar. Estamos perante dois casos flagrantes de mulheres e famílias que teriam beneficiado deste tipo de intervenção mal foi feito o diagnóstico. Não se julgue que os cuidados paliativos são só para doentes em final de vida. São, mas também têm como população alvo as pessoas diagnosticadas com doenças graves e incuráveis, e as suas famílias, que entram em processo de luto mal é conhecida a natureza da doença. Prestados em casa do doente, os cuidados paliativos saem mais baratos ao erário público, prolongam e dão qualidade de vida e, nos casos mais dramáticos, evitam idas aos hospitais, internamentos e uma quantidade enorme de procedimentos clínicos que são uma aberração nos nossos dias. Está na hora de dizer basta! As mulheres açorianas, hoje de luto, exigem mais respeito, mais condições de vida, mais dignidade para as pessoas seriamente doentes e suas famílias”. 

Quanto à Paula, ela não deverá estar naquele grupo de mulheres que verá na Matriz a partir das 17h30. Ontem iniciou mais um ciclo de quimioterapia com efeitos colaterais que “podem provocar a minha ausência”, para além de que “também terei de entrar em repouso absoluto até à minha partida para a Fundação Champalimaud”, diz numa carta publicada ontem intitulada “Expressando a gratidão: uma promessa de luta, de esperança, coragem e determinação”! Nela agradece “a todos e todas que me estão a possibilitar esta esperança! Depois de anos e anos de uma vida humilde, honesta, guiada pelos valores do trabalho, da responsabilidade e solidariedade, permitindo-nos educar as crianças nos valores da partilha e do auxílio ao próximo foi extremamente complexo aceitar que estavam a ser desenvolvidas ondas de solidariedade em relação a mim e à minha família e foi, para mim, um choque emocional profundo. Este lar, que ajudava tantos outros, passou a ser alvo da generosidade pura e desinteressada de tantas e tantas pessoas às quais dirijo a mais profunda gratidão. Recordo-me dos artigos que escrevi gritando para que famílias não fossem colocadas em situações de angústia e desalento; clamando pelo cumprimento do papel social do estado e pedindo aos cidadãos e cidadãs uma cidadania activa na defesa dos mais desfavorecidos. Parece que estava a augurar que eu própria iria personificar e exemplificar todas as palavras que escrevi. Hoje, continuo a pedir-vos algo cujo valor é imensurável: utilizem a vossa voz ao serviço das franjas mais desprotegidas da população e recordem-se que, tal como no meu caso, uma doença ou um qualquer infortúnio pode inesperadamente bater à porta de todos nós. Por isso, ao defenderem os outros estão a defender a dignidade humana de todos os açorianos e açorianas. É graças a todos vós que hoje consigo redigir estas palavras de gratidão. Sinto-me grata e abençoada pela excepcionalidade de todos os profissionais de saúde do Hospital do Divino Espírito Santo de Ponta Delgada, que quase diariamente tocam-me a alma com um sorriso que ilumina a vida, com uma palavra que encoraja e com um carinho que me aquece o coração. Desde todos os que trabalham nas entradas, corredores, nas secretarias, nas enfermarias, no hospital de dia senti e ainda sinto uma terapia funcional: a da dedicação e entrega ao próximo através de pequenos gestos que marcaram e continuam a marcar a minha vida. Sinto-me abençoada pelo carinho, dedicação e humanidade de todos os médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras e auxiliares. A vós tenho de dizer: obrigada por serem o exemplo vivo que, num sistema regional de saúde com falhas e omissões, nós temos um bem com um valor imensurável: profissionais que para além do saber profissional possuem um dom de humanidade que transcende a vocação e demonstra o verdadeiro amor ao próximo. Obrigada a todos vós! Sinto-me abençoada pelas tantas e tantas pessoas que estão a travar esta batalha a meu lado, quer através de orações, preces, palavras, gestos e ajudas. O meu muito obrigada a todos e todas que diariamente conseguem iluminar os meus dias mesmo estando perante um carcinoma agressivo e de uma raridade que torna o meu futuro em uma incógnita. Porque todos os dias me comovo com o vosso apoio. Porque todos os dias revejo os rostos de quem está em desespero e quem me pede a voz”.
Fica a sugestão...