Monte Palace: a maior nódoa do turismo em S. Miguel - Porque não expropriá-lo?

Monte palaceAgora que o turismo volta a crescer nos Açores e relança uma luz de esperança para tantos agentes económicos, é importante fazermos o trabalho de casa. E o primeiro de todos é tratarmos das nódoas que afectam o sector. Podem começar pelas ruínas do Monte Palace...

É, provavelmente, a maior nódoa na paisagem turística micaelense.
As ruínas do Hotel Monte Palace, na Vista do Rei, nas Sete Cidades, são o cartaz mais negativo que milhares de turistas levam nas fotos de passeio, com comentários desagradáveis que nenhum açoriano gosta de ouvir acerca das suas ilhas.
O cenário de abandono e verdadeiramente assombroso já serviu para tantos filmes e reportagens de televisão, a última das quais no canal nacional SIC, no programa “Abandonados”, constituindo uma péssima imagem desta ilha e do estado de abandono a que as autoridades deixam chegar estas grandes infraestruturas.
Quando uma mera habitação em ruínas, no meio de um centro urbano, ameaça a segurança pública ou a imagem da vila ou cidade, as respectivas autarquias decidem de imediato avisar os respectivos proprietários para a situação.
No caso do Monte Palace, não é só a Câmara Municipal de Ponta Delgada que já devia ter tomado uma posição sobre a degradação daquela paisagem e do imóvel, é também o Governo Regional dos Açores, em nome da defesa do ambiente, da saúde e higiene públicas e até em nome do próprio interesse turístico da região, que já deveriam ter actuado.
Porque não expropriar o complexo de ruínas e transformar aquilo na paisagem verde de outrora?
Porque pertence a um banco?
Ora, a banca em Portugal, mesmo com a crise, é das instituições que mais sobreviveu aos problemas da nossa economia. Dois milhões não fazem falta ao sistema financeiro, sobretudo quando foi intervencionado pelo Estado, com dinheiros públicos, para se regenerar.
Portanto, é justo que se exija do Banif - dono da assombração - uma regeneração para o Monte Palace.
O Hotel pertencia ao grupo madeirense SIRAM, que o adquiriu há mais de vinte anos a outro madeirense, o Grupo Sá (que também detinha o Bahia Palace), mas depois faliu, conjuntamente com o investimento que devia ter feito na Verdegolfe.
Como a SIRAM devia ao Banif, este penhorou o Monte Palace, no valor de dois milhões de euros, passando agora a pertencer àquele banco, por ironia, pertencente também a um grupo madeirense, a família Horácio Roque.
É nesta embrulhada insular que o hotel se vem arruinando ao longo de mais de duas décadas, tendo sido vigiado, por um longo período, por guardas e cães, mas depois ficou completamente ao abandono.
Hoje serve para tudo e até para romarias ao seu interior para apreciar os restos da opulência do que foi o hotel.
Foi o primeiro hotel de cinco estrelas em S. Miguel, com uma inauguração sumptuosa em 1984, com a presença de Mário Soares, então Presidente da República, que fez questão de trazer na comitiva a poetisa açoriana Natália Correia, que se inspirou na paisagem para recitar vários poemas em rodas de amigos.
Era um hotel com uma decoração riquíssima, centrado num hall do outro mundo, rodeado por 88 quartos, com suite presidencial, quatro suites de luxo, quatro quartos com sala, 27 quartos duplos e ainda 52 suites júniores.
Por lá passaram poucos turistas - que se queixavam do nevoeiro - e muitos locais frequentavam os dois restaurantes luxuosos, o Grill Dona Amélia e o Restaurante D. Carlos, intercalados pelo Bar D. Urraca, estilo americano, três salas de conferências, um banco, um cabeleireiro, cofres e muitas lojas.
Outro “must” do hotel era a discoteca “Night Club Chamarrita”, também bastante frequentada por locais, sobretudo nos últimos dias do seu apagamento.
Tudo se perdeu e muito roubaram: espelhos, tapetes, móveis e até os elevadores...
Para quem se desloca ali e vê, hoje, a lástima da paisagem, não resiste ao grito de revolta: mas porque não põem isto abaixo?

 

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